segunda-feira, junho 09, 2008

Sal por todos os lados

No caminho para Uyuni uma coisa me preocupava. Apesar de ter feito o depósito para a reserva do passeio do salar no dia 6, em Santa Cruz, a agência ainda não havia confirmado. E não foi por falta de pedido. Já havia enviado uns dois ou três e-mails para que eles me comunicassem se tinham recebido o dinheiro, mas a cada parada para checar o e-mail vinha a decepção.

Em Oruro, pouco antes do embarque, resolvi agir. Peguei o número do telefone deles e decidi ligar para ver o que ocorrera, até mesmo para me tranqüilizar. Tinha evitado isto até o momento por causa da língua. Falar cara-a-cara com uma pessoa em uma língua estrangeira é uma coisa, por telefone é outra. A experiência que tive só viria a confirmar esta máxima.

A verdade foi que não consegui falar na agência. A primeira tentativa foi engano, o número estava errado. Depois, consegui um outro número e quem atendeu foi uma criança. Eu não a entendia, e creio que ela muito menos. Depois disto, minha auto-estima foi lá para baixo. Pedi ao Rodrigo para fazer uma nova tentativa, e percebi que ele também ficou um pouco desconfiado, mas ligou. A ligação caiu em um hotel, não tinha nada a ver com a agência. Desistimos.

Todo mundo conhece algum lugar ao qual rotula de ‘fim do mundo’. Tenho certeza que você, neste momento, pensou em uma cidade, fazenda, rio ou qualquer outro, a que se refere como tal. Para mim o ‘fim do mundo’ é Uyuni. Desembarcamos do trem aproximadamente dez e meia da noite. Foi a noite mais fria que eu já experimentei em toda a minha vida. Neste momento, ainda dava para ficar fora das cobertas, mas percebi que, durante a madrugada, não seria nada agradável não ter onde se encolher.

Estávamos todos cansados e sem paciência. A viagem foi de sete horas, mas parecia ter ficado dentro daquele trem umas 19 horas. Como em todas as outras cidades, a exceção de Cuzco, não tínhamos hotel reservado. Saímos pela rua, atravessamos a praça e entramos no primeiro hotel que apareceu. Junto conosco havia umas duas dezenas de pessoas que desembarcaram do trem e que também procuravam hotel. Não poderíamos demorar.

Um senhor de idade nos atendeu e ofereceu dois quartos, um duplo e outro triplo. Depois de pensar um pouco, duas colegas preferiram procurar um pouco mais, então ficamos só com o triplo. Necessitávamos urgentemente de um banho, já que a poeira coletada na viagem havia deixado algumas marcas. Contudo o frio era intenso e o chuveiro não era aquecido a gás, como foi em todos os outros albergues em que ficamos durante toda a jornada. O jeito foi ligá-lo na potência máxima e esperar o vapor dominar o banheiro. De banho tomado, sobrou apenas ‘desmaiar’ na cama.

Como precisávamos o quanto antes checar a nossa situação na agência de turismo, colocamos o relógio para despertar bem cedo, logo nos primeiros minutos após as sete horas. Quando o alarme tocou, foi uma dificuldade imensa sair debaixo das cobertas. Reuni coragem suficiente para levantar, não consegui agüentar o frio e voltei para as cobertas. É claro, não iria ficar ali o dia inteiro, então bolei um plano. Levantar rápido, trocar de roupa e voltar. E assim fiz. Só que no meio do processo precisei ficar pulando para amenizar os desconfortos da baixa temperatura.

Não havia café da manhã no hotel, então tomamos o rumo da rua para localizar a tal agência. Descemos e demos de cara com a porta do hotel trancada, sem ninguém na recepção. Ficamos uns 15 minutos sem ação, nos perguntando o que faríamos. Em seguida, o mesmo senhor que nos atendeu um dia antes, apareceu enrolado em vários casacos. “Es muy temprano (é muito cedo)”, disse ele com um sorriso prensado na cara.

Enquanto nós explicávamos que era necessário sair cedo para verificar se o nosso passeio estava realmente marcado, o boliviano acendeu a calefação e tomou posto atrás do balcão. “Vocês não vão encontrar nada aberto agora. Aqui tudo só começa a funcionar depois das nove. O passeio de vocês só deverá sair depois das dez e meia da manhã”, informou. Olhamos um para a cara do outro e lamentamos o sono perdido. Não havia, porém, nada que fazer. Já de pé, tínhamos que resolver a vida.

Ficamos uns trinta minutos conversando com o senhor do hotel. Ele nos contou que já havia morado em São Paulo e que brasileiro gosta de acordar cedo. “Aqui não, ninguém acorda cedo por causa do frio”, contou. Por volta das oito, deixamos o hotel e fomos procurar a agência.

Uyuni é muito pequena. Resume-se a três ou quatro ruas acima e abaixo da praça. Durante a noite, só há iluminação pública na praça e nos arredores próximos e o resto fica no escuro. Uma das características é a poeira solta pelas ruas. A estação de trem era bem próxima à praça, ao lado de uma avenida. Aliás, a cidade nasceu fruto da companhia de trem, que liga o coração da Bolívia ao Chile e Argentina, passando por uma região mineradora. Hoje o turismo é um dos principais filões da economia.

Depois de encontrar a agência, fechada, claro, fomos à praça e reunimos o grupo completo, com as colegas que não ficaram no nosso hotel. Resolvemos ir à estação e comprar a passagem de volta a Oruro, no trem da meia-noite. Havia a possibilidade de voltar de ônibus, mas temíamos ser pior que a ida, já que grande parte do percurso era de terra.

Havia poucas pessoas na estação e o guichê já estava aberto, mas não sobrara passagem na mesma classe em que viemos. Assim, optamos por pagar quase o dobro (que em reais não era tanto assim), para irmos de primeira classe. O grande problema é que este era o único trem - o próximo só passaria por Uyuni na terça-feira de madrugada, ou seja, dois dias depois. A falta de opção de datas deste trem foi o grande empecilho do planejamento de toda a viagem, e de certa forma explica a correria da primeira parte da jornada, já que se perdêssemos o trem de ida, ou de volta, significaria perder de dois a três dias e dar adeus a algum passeio.

Saindo da estação, procuramos um bom lugar para tomar café da manhã. Logo à frente, havia um restaurante movimentado que parecia servir algo apetitoso. Não pensamos duas vezes. E não é que a aposta deu certo? Sem dúvida o melhor café da manhã que tomamos em toda a viagem. Normalmente, um ‘desayuno’ boliviano contém leite, chá, ou mate de coca, pães (tipo pão sírio, mas mais gordinho e com um gosto único) e outras coisas que variam. Mais uma vez lembro que não chega aos pés do nosso.

Estávamos carregando as mochilas, já que havíamos fechado a conta no hotel. Voltamos à agência e, desta vez, já estava aberta. Para nosso alívio, não precisamos nem perguntar nada. Assim que cruzamos a porta, uma mulher que estava sentada atrás de uma mesa se antecipou: “Vocês são o grupo de brasileiros?”. Era tudo o que queria ouvir. Eles foram tão tranqüilos que, até mesmo, se esqueceram de cobrar o restante. Eu já estava dentro da caminhonete, quando alguém veio perguntar: “Vocês não tem um débito para acertar?”. Eu até tinha lembrado antes, mas preferi que eles cobrassem, afinal ainda iríamos voltar e podíamos pagar depois.

Ah, já adiantei que o nosso transporte era uma caminhonete. Por aquele mar de sal e areia que iríamos enfrentar, só um veículo 4X4 mesmo. A primeira parada foi no famoso cemitério de trens. Estranho né, mas lá o ferro velho de antigas máquinas locomotivas virou atração turística. Fica a céu aberto, às margens dos trilhos.

Nosso guia era um senhor que aparentava uns cinqüenta anos. O Juan (nome fictício) era extremamente simpático, e um guia muito bom. Não se cansava de contar suas histórias e dava as explicações muito bem. Como o nosso grupo era privado (apenas nós), tínhamos ele inteiramente a disposição para tirar todas as nossas dúvidas do passeio, de Uyuni e da Bolívia.

Neste momento o frio já tinha ido embora e o céu estava bem azul. O sol cobria nossas cabeças. Quando estávamos expostos aos seus raios, sentíamos um calor seco, que dava vontade de tirar todos os casacos. Já na sombra era o inverso, o frio atacava de uma forma surpreendente. De dia, percebemos o tão desértico que eram os arredores de Uyuni, com muita terra e areia. O cenário era bem plano, com algumas montanhas pontuais. O horizonte era o limite do olhar.

Assim que aproximamos do Salar de Uyuni, tudo mudou. O marrom da terra e o amarelo da areia deu espaço para o branco do sal. A primeira parada foi em Colchani, cidade próxima que abriga a entrada oficial do salar. Lá também existe um pequeno campo de extração de sal, administrado por uma cooperativa, e o famoso Hotel de Sal. Paramos um pouco para podermos explorar de perto estes interessantes marcos do salar.

Para quem não sabe, o Salar de Uyuni é um deserto de sal no meio dos Andes. É o maior salar do mundo, com dimensões gigantescas. Para ser ter noção, estar no salar de Uyuni é ter os horizontes livres para enxergar até o limite, tudo branco, em 360 graus. Há algumas montanhas dentro do salar que, diferentemente, não são de sal. São chamadas de ilhas e possui características únicas.

O salar de Uyuni tem uma explicação científica e uma mitológica. Há muitos e muitos milhões de anos atrás, duas placas tectônicas se chocaram e formaram a Cordilheira dos Andes. Como naquela região era mar, vários lagos se formaram em cima da cordilheira. Com o passar do tempo um dos lagos secou e ficou só o sal. Já a mitológica eu vou ficar devendo, pois confesso que já esqueci. Só lembro que é uma história bonitinha.

Depois do hotel, entramos de fato no salar e viajamos um tempo até a Isla Inca Huasi. Achei muito legal esta ilha. Ela não é grande, mas dá para fazer uma trilha até o topo e ver um panorama amplo do salar. Em todo o caminho, cactos gigantes, próprios da região, chamavam a atenção das pessoas. Antes de subirmos, paramos para o almoço no pé da ilha. A refeição já estava incluída no pacote, e mesmo assim foi muito boa. Pela primeira vez experimentamos a carne de llama, um mamífero camelídeo típico dos Andes.

Só depois do bucho cheio é que Juan veio falar da trilha, muito mais vertical do que horizontal. Ainda não estávamos sob o efeito do mal da altitude, mas mesmo assim era difícil subir. Contribuía também a má forma física. Fui indo devagarzinho, parando sempre que dava a impressão de estava morrendo de tanto ofegar. Contudo, valeu MUITO a pena – a vista é linda. Lá de cima, tive meu primeiro contato com a coca, mascando algumas folhas (veja bem, a planta, e não a droga).

Seguimos para a última atração, a visita ao vulcão Tunupa, no limítrofe norte do salar. Vale lembrar que no Salar de Uyuni é essencial usar óculos escuros, já que o sol refletido no gelo cria uma claridade insuportável.

Quando eu vi o vulcão não acreditei. Eu estava só o trapo e ele era alto demais. Não iria conseguir subir tudo. Foi então que Juan avançou com a caminhonete e mostrou que nós não chegaríamos lá andando. Foi um alívio. Chegamos à base do Tunupa, quando desviamos para uma pequena trilha, rumo a uma tumba. Isto mesmo, fomos visitar umas múmias que antecedem tanto Colombo como os próprios incas. Por falar na famosa civilização, nesta ilha há muros de pedras que os incas construíram apenas equilibrando uma na outra. Ficaram tão firmes que até hoje estão em pé, suportando ventos e terremotos.

No caminho de volta para Uyuni, Juan parou no meio do salar, para a nossa felicidade. Além da sessão fotográfica, pudemos ver o tanto que o sal é duro. Juan explicou que há várias camadas de sal e, entre elas, existem lençóis de água. Todo o chão do salar é ‘desenhado’ de grandes hexágonos, devido às reações químicas embaixo do sal. Além disto, o chão de sal é muito gelado. Por falar nisto, já era tarde, e com o entardecer começou vir o frio. Juan contou que à noite, no salar, é costume fazer quinze graus negativos.

Voltamos todos em êxtase. A beleza da obra sem dúvidas compensou todo o sacrifício, desde Goiânia. De volta à agência, seguimos para uma pizzaria recuperar nossos carboidratos. Ficamos lá umas três horas para aproveitar a calefação (já que não tínhamos mais hotel, e o trem só sairia mais tarde). Eu e a Lucimeire, contudo, enjoamos de ficar ali e saímos para curtir o frio. Lá fora encontramos um monte de meninos jogando futebol. Entramos timidamente no jogo, e eles nem se importaram. Queriam mais era chutar a bola. Impressionante o pique deles, a mais de 3.800 metros de altura.

Cansamos da pizzaria e seguimos para a estação com muito tempo ainda para matar. Lá encontramos uma mesa de pimbolim, ou totó, e não pensamos duas vezes, jogamos várias e várias partidas. Antes de embarcar ainda conversamos com um brasileiro muito estranho, que se dizia de Minas Gerais. Há quem disse que ele era português e que só queria enturmar. O trem chegou para nosso alívio. Quando ia embarcar, o funcionário não foi com a minha cara e disse que teria que despachar a minha mochila. Nisto, o Rodrigo passou sem problemas com a dele e eu fiquei explicando que era a mesma coisa. Não querendo muito papo, ele virou e me disse: “Tudo bem, mas se ela cair na tua cabeça não é culpa minha”. Tudo bem, quando entrei só tinha espaço encima da cabeça de outro mesmo.

A primeira classe era quase igual à outra em que viemos. A diferença era que tinha calefação (não sei se a outra também tinha, porque viajamos de dia), travesseiro, cobertor e nos deram alguns bolinhos, que não me lembro o nome. Entre a distribuição dos itens eu não agüentei, e ia cochilando. Quando tudo estava certo, eu já estava no décimo sono. Para mim a viagem foi instantânea. Pela primeira vez na vida, fechei os olhos no início da viagem e fui abrir no final, sete horas depois, em Oruro.

Mapa do Caminho - Dia 7

Data: 09/06/2007
Saída: Uyuni, Bolívia
Chegada: Oruro, Bolívia – no dia seguinte
Distância percorrida no dia: 353 km
Empresa de trem: FCA
Duração da viagem: +- 7h
Tarifa: Bs. 101 (+- R$ 28,45 à época)

2 comentários:

Carlos E. F. disse...

Qual a Agencia que vc fechou!? Chegar la na hora e marcar vc acha dificil?

Desde ja agradeço!!!
carlos_zanatta@hotmail.com

Eduardo Sartorato disse...

Olá Carlos,

Eu fiz com a Colque Tours (http://www.colquetours.com/). Depositei uma parte aqui e paguei o restante lá. Fiquei muito satisfeito com os serviços. Não sei se dá para contratar no mesmo dia, pois eles precisam organizar o passeio. Como o meu foi reservado quando cheguei já estava tudo pronto. Talvez de um dia para o outro, mas recomendo contactar a agência.

qq dúvida estou a disposição, abraços!!

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