quinta-feira, junho 19, 2008

Conhecendo a história dos Incas

Foi uma raridade, mas de manhã não tínhamos nada planejado para fazer e podíamos descansar até mais tarde. Eu, contudo, acordei cedo e aproveitei para ir a missa. Isto mesmo, a missa, a quatro mil quilômetros de casa e em plena segunda-feira. Além de agradecer a DEUS a viagem que estávamos tendo, também tinha muita curiosidade em assistir uma missa em outra língua, no caso em espanhol.

Informaram-me que há missas de hora em hora nas manhãs de segunda-feira. Desci a ladeira do nosso hotel até a Plaza de Armas, onde fica a catedral de Cuzco. Entrando lá, percebi que poderei contar mais um fator positivo em minha visita – a catedral por si só já valia a pena.

Sem economia de ouro nos mais variados detalhes e com dezenas de maravilhosos quadros e afrescos, a catedral possui uma grandeza única. Os seus enormes corredores e amplo espaço interno dão o toque de extrema seriedade e religiosidade.

Quando cheguei, imaginei que havia errado a hora, já que não havia quase ninguém, mas, aos poucos, foram chegando algumas pessoas. A missa ocorreu em um espaço pequeno, complementar, com poucos bancos. Por ser uma missa de meio de semana, não teve nenhum apetrecho para incrementar as orações, como orquestra ou cantos.

O padre entrou rápido e se apressou em começar a cerimônia. Percebi logo que a sua intenção era realizá-la o mais rápido possível. Em meia hora, já estávamos na benção final. Foi a missa mais rápida que já participei em toda a minha vida. Mesmo assim, valeu muito à pena, principalmente por observar as diferenças com as missas brasileiras. O “Pai Nosso” em espanhol, por exemplo, é muito diferente da versão em português.

Saí da catedral, dei uma enrolada pela praça para não chegar adiantado na reunião marcada na agência de turismo que nos levaria a Machu Pichu para conversar com o nosso futuro guia. Lá, encontrei com o restante do grupo já na porta, fomos todos para uma sala dentro da agência e esperamos um pouco até o Javier (nome fictício) entrar e se apresentar.

Javier era um guia jovem, não muito alto e nem muito forte. Tinha aparência indígena, como a grande maioria do povo andino, mas não com tanta intensidade do que o comum. Parecia que algo na sua cara o delatava, apontava que ele não era inteiramente dali. A sua voz também não tinha um sotaque 100% hispano-americano. Resumindo, Javier parecia ser apenas meio andino.

Mesmo assim, em todos os momentos, Javier se portou como um peruano legítimo. Tinha a mania de nos referir como ‘chicos’, mesmo não sendo muito mais velho que nós. Ele se aproximou, explicou como seria todo o passeio que havíamos contratado (um total de dois dias), esclareceu nossas dúvidas e se despediu. Se a reunião demorou vinte minutos foi muito.

Já que tínhamos planejado gastar mais tempo lá, saímos da agência e fomos aproveitar o ‘tempo extra’ indo até a praça para trocar dinheiro, descarregar máquinas fotográficas e procurar lembranças nas diversas lojas que havia ali. Logo fomos almoçar, já que no início da tarde tínhamos o city-tour, que prometia não só ser um passeio pela cidade mas, principalmente, uma visita às ruínas incas próximas a Cuzco.

Diferente de como foi no dia anterior, chegamos à agência de turismo com tempo de sobra e esperamos um pouco até a chegada da van. Fomos os primeiros a entrar, o que nos permitiu escolher os melhores lugares. Além disto, ganhamos um giro pela cidade, já que o motorista precisou pegar outros turistas espalhados nos mais diversos hotéis.

A nossa grande surpresa foi que, em um das primeiras paradas, subiu um rosto conhecido de todos nós. Não era ninguém menos do que Maria, a Tia Qéchua, que entrou e sentou em um dos primeiros bancos. Ficamos nos perguntado se ela realmente seria novamente a nossa guia, ou se somente pegaria um carona até algum lugar. Quando o grupo do passeio estava praticamente completo, Maria pegou o microfone e anunciou que nos acompanharia durante o passeio. Para a nossa grande felicidade.

O city tour começou em alguns pontos turísticos de Cuzco. O primeiro foi um recém conhecido meu, a catedral da cidade. Pensei em não entrar com o grupo e ficar esperando do lado de fora, pois já havia conhecido de manhã e agora a sua entrada era paga (muito caro por sinal). Contudo, fiquei sem graça de não acompanhá-los e me baseei no fato de que teria a explicação da guia para não me culpar pelo dinheiro mal gasto.

Maria nos contou muitas histórias do lugar, conhecemos uma cripta que fica no subterrâneo da Catedral, mas, fora isto, sem novidades para mim. Principalmente porque eles não deixavam tirar fotos. Medo de duplicação de objetos históricos e raros? Nada disto, na saída havia um vendedor oferecendo fotos de todos os ângulos dos seus mais diversos ambientes. Era apenas uma ‘reserva de mercado’ para o fotógrafo peruano.

De lá fomos até Qorikancha, o mais importante templo Inca já construído. Qorikancha era dedicado ao Deus Sol, patriarca da civilização Inca. Quando os espanhóis chegaram em Cuzco, Qorikancha era extremamente impressionante. O chão, as paredes e as estátuas eram todas cobertas com barras de ouro sólidas. Os espanhóis destruíram o templo no século XVII e usou a fundação Inca para a construção da Igreja de Santo Domingo. De lá para cá, vários terremotos atingiram a região danificando a construção espanhola, mas deixando intacta toda a parte feita pelos Incas.

Hoje, Qorikancha é um convento e só uma parte é aberto à visitação. É muito interessante acompanhar as histórias e ver as construções incas que lá estão expostas. Há também um jardim muito bonito do lado de fora, mas que só podemos visualizar de longe.

Seguimos então para fora da cidade. A primeira parada foi Saqsaywaman, a segunda ruína Inca mais importante depois de Machu Picchu. Fica no alto de uma montanha, a 400 metros acima de Cuzco. Hoje Saqsaywaman se resume a gigantescos muros construídos em diversos níveis. A construção Inca, mais uma vez, é surpreendente, com a sua técnica de polimento e encaixe perfeito das grandes rochas. É em Saqsaywaman que, em todo dia 24 de junho, é comemorado o Inti Raymi (solstício de inverno), em uma cerimônia de encenação da cultura Inca.

Quando planejei a viagem, quebrei a cabeça procurando achar um jeito de poder estar em Cuzco no dia 24 e acompanhar a festa. Contudo, não houve jeito e tivemos que nos contentar em ver alguns operários montando as arquibancadas para a cerimônia, seis dias antes.

A partir de Saqsaywaman, visitamos outras várias ruínas. Achei que foi cansativo realizar tantas visitas em uma só tarde. O tempo provou que eu estava certo, já que a noite foi chegando e Tia Qéchua aumentou a rapidez das nossas paradas, em cada local. No final, mal descíamos da van e já tínhamos que subir novamente.

Os destaques principais das ruínas por onde passamos foi, na minha opinião, Q´enqo, onde numa passagem subterrânea vimos de perto uma mesa de pedra usada em sacrifícios, além de um outro lugar (não me lembro o nome) onde havia uma fonte que, segundo a lenda, quem bebesse a água de uma tal forma manteria a beleza, ou coisa parecida. Acho que funciona, porque eu bebi e ainda estou jovem (rs).

Já à noite, a última parada foi em uma fábrica de jóias e tecelagem de roupas de pêlo de llamas e alpacas. Lá também funciona uma loja, mas passamos longe dos preços apimentados, que estavam à espera de um rico turista europeu. Foi lá também que Tia Qéchua, após dois dias nos acompanhando, puxou papo com a gente. Conversamos durante uns cinco minutos.

Voltei a Cusco cansado, mas certo de que valeu a pena. Estava feliz, tanto que fomos a uma pizzaria para comemorar o dia. Na manhã seguinte partiríamos para Machu Picchu, o ponto alto da jornada. Pedimos a pizza mais completa do cardápio e comemos em abundância. No final, quando pagamos a conta, quase matamos a mulher do caixa do coração ao dar uma moeda de 20 centavos de bolivianos ao invés de 20 centavos de soles. Gente esquisita. Já no hotel comecei a notar que a pizza não me faria bem e os piores efeitos ainda estavam por vir.

Mapa do Caminho - Dia 15

Data: 18/06/2007
Cidade: Cuzco, Peru
Passeio: City Tour

* Obs.: O post atrasou para ser publicado devido aos constantes problemas nos serviços da NET/Goiânia

terça-feira, junho 17, 2008

No inesquecível Vale Sagrado

Era bem cedo e já estávamos em uma rua bem movimentada de Cuzco, perto da Plaza de Armas, esperando a nossa van que nos conduziria para conhecer o Vale Sagrado dos Incas. Tínhamos atrasado um pouquinho, então a mulher da agência precisou ligar para o motorista, que estava pegando outros turistas nos hotéis, passar na porta da agência onde estávamos. Não me preocupava com este problema, já que nós não tivemos o benefício de ser buscado no hotel devido às dificuldades de dirigir uma van naquela rua tão estreita de San Blás.

Dentro da van, não demorou muito para que nós pegássemos a estrada rumo ao nosso destino. O Vale Sagrado dos Incas, como o nome já diz, é um vale formado por terras planas margeando o rio Urubamba, que foi o grande eixo de produção de comida, transporte, produção cultural e religiosa, além de domínio político e militar da civilização Inca. Grandes montanhas dos dois lados limitam a extensão destas terras, tornando a largura do vale variável, dependendo local. O início do vale é bem próximo a Cuzco, mas ele se estende até Machu Picchu, ficando cada vez mais estreito à medida que vai chegando às ruínas da antiga cidade Inca.

Assim, logo que deixamos Cuzco, subimos uma grande montanha até um certo ponto que dava acesso ao vale. A partir daí, a estrada desce até as margens do rio e o vai seguindo até a cidade de Ollantaytambo, onde quem quiser prosseguir até Machu Picchu precisa pegar um trem.

A primeira grande atração do dia foi a feira de Pisac, famosa pela grande oportunidade de comprar legítimos artesanatos peruanos por um bom preço. Todos estávamos bem empolgados com a idéia de ficar um bom tempo olhando as centenas de diversos produtos e pechinchando com os vendedores, palavra de ordem tanto na Bolívia quanto no Peru, quando a nossa guia nos avisou que ficaríamos ali apenas 40 minutos. Foi um banho de água fria.

Assim que a van parou, todos descemos apressadamente e, sem perder tempo, avançamos às primeiras barracas da feira. Eu tinha uma meta pessoal, que era comprar um brinco para a minha mãe e um pingente de sol inca para mim. Nesta hora nos separamos e cada um foi tratar de construir da melhor a maneira a sua sorte.

A situação foi muito engraçada. À medida que a gente andava na feira, cruzávamos uns com os outros. Quando isto ocorria, tínhamos poucos segundos para trocar alguma informação, e partíamos novamente para o comércio. A feira era enorme, o que aumentava a tentação de permanecer por mais tempo. Toda vez que reencontrávamos um dos nossos, notávamos mais uma sacolinha espremida no braço. Foram minutos intensos de pura manifestação capitalista. No fim, parecíamos todos saídos de uma gincana – cada um cansado com a rapidez exigida, mas contente com o saldo final de compra.

Dali seguimos até um sítio arqueológico que sinceramente não me lembro o nome, mas que foi muito interessante, já que havia uma montanha onde os incas enterravam as pessoas de classes mais baixas, cada uma socada em cima da outra.

Neste lugar também havia uma pequena cidade construída bem alta, na encosta de uma montanha. Subimos até lá para conferir de perto as formidáveis construções incas. A arquitetura é baseada na construção de terraços e, por meio deles, eram montados os cômodos e a área de circulação. De cima tínhamos uma vista estupenda do vale e das montanhas ao redor.

Seguimos para uma cidade não muito longe dali para almoçar. A cada hora que passava a nossa guia nos chamava cada vez mais atenção pelo seu jeito único de ser. A Tia Qéchua, como nós a chamávamos (apenas entre nós), era uma pessoa empolgada por natureza pela história de seu povo. Estava sempre disposta a explicar de forma bem animada todos os detalhes por onde passávamos. Acima de tudo, era uma mulher feliz com o seu trabalho e com a oportunidade de transmitir conhecimento sobre o seu país e sua cultura. Orgulhava-se disto e fazia questão de mostrar todo o seu orgulho a todos ao seu lado.

Era uma pessoa peculiar. Tinha um estilo próprio e muito forte de fazer as coisas. Em muitos momentos estas características produziram situações muito engraçadas. Como na hora do almoço, em que, pouco antes da van estacionar e abrir a porta para sairmos, ela explicou que havia três restaurantes que podíamos escolher para almoçar, mas que no primeiro o seu grupo tinha desconto. O porcentual do desconto eu não me lembro, mas o fato de que 98% das pessoas optaram por este restaurante foi no mínimo engraçado.

Tinha uns termos próprios que ficava repetindo toda hora e que, com o passar do dia, foram ficando cada vez mais engraçados. Assim como no caso do restaurante, Tia Qéchua não perdia nenhuma oportunidade de mostrar a todos as vantagens de estar em seu grupo. “Porque o grupo de Maria (nome fictício) tem isto a mais; o grupo de Maria pode fazer aquilo sem problema”, lembrava sempre.

Outro detalhe marcante era que ela se referia a nossa van como uma ‘mobilidad’, meio de transporte em espanhol. A toda hora, estando dentro ou fora da van, ela sempre se referia ao nosso meio de transporte como ‘nuestra mobilidad’. “Vamos volver a nuestra mobilidad....., vamos salir de nuestra mobilidad”, insistia. Isto quando ela não puchava palmas para o motorista, no meio do passeio. Em outras palavras, a Tia Qéchua era uma figura.

Não posso me esquecer que foi ali no Vale Sagrado que, depois de muito tempo, tive contato novamente com feijão cozido. O problema é que ele era bem branco e meio duro. Acredito que a espécie de feijão de lá não foi feita para ser servida do mesmo modo que fazemos aqui no Brasil. Apesar do preço ter sido um pouco salgado, foi uma refeição muito boa.

A última atração do vale sagrado foi à visita a Ollantaytambo, uma cidade em volta de ruínas com o mesmo nome. É a única cidade da era inca no Peru ainda habitada. Ollantaytambo foi grande, já que se constituiu em um complexo militar, religioso, administrativo e agrícola. A maior atração são as ruínas da fortaleza que foi construída para dominar o Vale Sagrado. Novamente construída nas montanhas por meio de terraços, a fortaleza de Ollantaytambo era formada por rochas muito grandes que não eram encontradas a muitos quilômetros dali, o que significava que os incas possuíam uma técnica surpreendente de transporte de carga.

Apesar da altitude ser bem mais baixa comparada a outros lugares que já estivemos, Ollantaytambo está a aproximadamente 2.700 metros acima do nível do mar, foi um esforço nada pequeno para subir até o alto das ruínas e percorrê-las por dentro, algo muito interessante e que realmente valeu a pena.

Após a visita a Ollantaytambo, só nos restou voltar a Cusco. Chegamos à antiga capital Inca já à noite, certo de que acertamos em cheio ao visitar o Vale Sagrado. À noite, depois de jantar, demos uma esticadinha em um bar famoso por sua movimentação noturna para conferir a noite de Cuzco. Como era domingo, o lugar estava bem vazio e pouco animado. Antes de voltar ao hotel, não perdi a oportunidade de tomar uma Cuzqueña, cerveja típica da região.

Mapa do Caminho - Dia 14

Data: 17/06/2007
Cidade: Cuzco, Peru
Passeio: Vale Sagrado

segunda-feira, junho 16, 2008

Em Cuzco, a capital Inca

Não demorei muito para cair no sono depois que o nosso ônibus deixou Puno rumo a Cuzco, antiga capital Inca. As nossas poltronas eram as últimas do ônibus, o que nos rendeu uma noite não muito agradável, já que ali chacoalhava demais. Mesmo assim o cansaço da maratona em Puno uniu-se ao acumulado da viagem e me manteve nas condições ideais de curtir um bom sono dentro do ônibus.

Dormi todo o caminho, a exceção de três momentos muito irritantes, quando o ônibus parou em plena rodovia e ficou um bom tempo até voltar a rodar, como o motorista fazendo sei lá o que. A segunda parada foi a mais longa e que mais me incomodou. Havia uma luz no ônibus que acertava bem os meus olhos, e não desligava enquanto ele não fosse colocado em movimento. Assim permaneceu uns 40 minutos.

Tenho certeza que toda a pessoa que um dia sonhou estar em Machu Picchu sentiu uma emoção diferente ao entrar em Cuzco. A mim não foi diferente. O detalhe é que chegamos na cidade Inca às quatro horas da manhã, em meio a um frio penetrante e um ambiente deserto. Cuzco fica às moscas de madrugada.

Para agravar a situação, eu estava na melhor parte do meu sono e, quando desembarquei ainda estava muito sonolento, meio tonto. Ao mesmo tempo em que uma parte do meu cérebro dizia: “Nossa, você está em Cuzco!”, a outra insistia: “Zzzzzzz...”. Deixamos a rodoviária e fomos até o ponto de táxi mais próximo ver se conseguíamos um bom preço para a corrida até San Blás, bairro histórico da cidade.

No meio deste clima ainda havia uma pendência. Como as nossas colegas haviam ido à frente, não sabíamos se elas realmente estavam no hotel que reservamos. Como não havíamos feito adiantamento de dinheiro, elas cogitaram a possibilidade de tentar outro lugar. Eu e o Rodrigo não titubeamos e seguimos para o hotel reservado (em San Blás), mas se elas não estivessem lá e, conseqüentemente, não tivessem avisado sobre a nossa chegada às chances de encontrarmos uma porta “cerrada” era muito grande.

Assim como todas às vezes que estava tonto de sono e sem paciência, não insisti muito para que o taxista abaixasse o preço. Lembro-me de ter ouvido ele falar que San Blás era longe. Já no caminho, vi uma cena que nunca mais vou esquecer para o resto da vida. Saindo da rodoviária, há uma rotatória com uma estátua do Inca, bem no centro da circunferência. O detalhe é que a estátua é bem alta, o que a torna intimidadora. À noite, com a iluminação amarela batendo de frente e somando-se ao meu estado de pouca consciência, aquilo se tornou a oitava maravilha do mundo. O fato de estar chegando em Cuzco deu mais ênfase ao momento. Dá para imaginar o desapontamento quando, outro dia(de dia e bem acordado), passei no mesmo lugar e vi que a estátua nem era tão bonita assim?

Chegando a Plaza de Armas (a praça principal), pude ver as montanhas que cercam Cuzco, cheia de lusinhas amarelas como se fossem uma grande árvore de Natal, sinalizando que há muitas casas ali nas encostas. Foi outra visão marcante. Sem nenhum carro, ou sequer uma alma viva, na rua, o táxi fazia questão de ir bem rápido. O problema é que as ruas da cidade são muito estreitas e, vire e mexe, ele precisava parar o carro de uma vez para poder fazer uma curva, ou mudar de direção. Me senti como se estivesse dentro do ‘Noitebus Andante’ do terceiro Harry Potter.

Chegamos a San Blás, chegamos ao hotel. Ele ficava bem no final de uma ‘rua’. A principal dúvida em chamar aquilo de rua era a forma estreita como fora construída. Mal passava um carro por vez, e a rua ainda era de sentido duplo. Coisa maluca.

Estava na hora de ver ser permaneceríamos no meio do frio até as sete da manha, quando, com sorte, alguém abriria a porta do hotel, ou se conseguiríamos entrar. Já que tínhamos ido um dia antes (pelo plano original nós dormiríamos em Puno e só seguiríamos a Cuzco no dia seguinte), também não sabíamos se eles teriam algum quarto livre para aquela noite.

A porta era de madeira grossa, bem antiga, no estilo dos casarões da Cidade de Goiás. Havia, bem no centro dela, uma portinhola que servia para a pessoa de dentro ver quem era antes de abri-la. Batemos forte, com o coração na mão. Demorou um pouco, antes de alguém espremer a cara pela portinhola. Sem que nos desse a oportunidade de fazer qualquer pergunta, a pessoa do outro lado nos questionou: “Son los brasileños?”. Ah, não sabe como isto nos aliviou dos pés a cabeça.

O rapaz do hotel abriu a porta e nos atendeu de madrugada com sorriso no rosto. Aliás, é uma característica dos andinos ser um povo muito simpático. Nós, porém, não queríamos saber de nada, entramos no quarto, deitamos na cama e demos prosseguimento ao nosso sono.

Foi uma das poucas vezes que acordei tarde em toda a viagem. O relógio já marcava mais de dez da manhã, quando me levantei e lembrei de tudo o que se passara até chegar ali. Quando sai do quarto, encontrei todo o grupo novamente reunido, tomando café. Juntei-me a eles e começamos a trocar histórias, de tudo o que se passou desde que nos separamos.

Saímos do hotel e fomos conhecer a cidade. Cuzco é muito bonita, com várias montanhas em volta, e belas construções hispânicas. A Plaza de Armas é um lugar de deixar qualquer amante da história de boca aberta. Na parte mais antiga as ruas são estreitas, mas também há na cidade algumas avenidas mais largas. Tudo gira em torno da praça principal, onde fica a maioria dos hotéis, agências de turismo, casas de câmbio e restaurantes.

A tarefa do dia foi procurar a agência onde reservamos o passeio de Machu Picchu para os últimos ajustes, além de verificar outros passeios que valessem a pena. Descobrimos que dois deles eram obrigatórios: a visita ao vale sagrado dos Incas e o city-tour.

Na hora do almoço optamos por uma casa de massas muito boa, localizada na praça. Escolhi um raviolli de frango com molho quatro queijos que me lembro até hoje. Para beber, decidimos experimentar a famosa Inka Kola, um refrigerante local muito famoso entre os peruanos. Ou melhor, era local, desde que a Coca-Cola sentiu que a concorrência era forte e comprou a empresa. Tem sabor de tuti-fruti, mas nada que possa competir com os nossos tradicionais.

Pela tarde, fomos pesquisar os preços dos passeios em várias agências. Fechamos com uma que fez um preço especial pelos dois. Um pouco antes, visitamos a agência de turismo que nos levaria a Machu Picchu e marcamos uma reunião com o nosso futuro guia, para ele nos passar as instruções. À noite saímos para jantar, mas voltamos logo para o hotel já que a visita ao vale sagrado estava marcada para o dia seguinte bem cedo, e duraria todo o dia.

Mapa do Caminho - Dia 13

Data: 16/06/2007
Saída: Puno, Peru
Chegada: Cuzco, Peru
Distância percorrida no dia: 338 km
Empresa de ônibus: Imexso
Duração da viagem: +- 8h
Tarifa: sem informação

domingo, junho 15, 2008

Cruzando a fronteira andina

Enquanto arrumávamos nossas coisas, logo nos primeiros minutos da manhã, a tensão corria solta. Era visível na cara de cada um que logo estaríamos diante de mais um desafio nesta jornada. Desta vez, o que nos preocupava era a fronteira Bolívia-Peru, a vinte minutos de Copacabana. Mesmo parecendo uma coisa simples, cruzar aquela fronteira era sim uma situação de risco.

Com algumas informações coletadas ainda no Brasil, e com outras conseguidas no decorrer da viagem, percebemos que era realmente necessário um pouco de prudência. Isto porque, segundo vários relatos, existe um ‘esquema’ de policiais de fronteira peruanos para ‘pegar-emprestado-para-sempre-sem-pedir’ objetos e, até mesmo, dinheiro de turistas desavisados.

Segundo o que ficamos sabendo, havia vários casos de turistas que, assim que cruzavam a fronteira para o Peru, eram abordados por policiais e encaminhados a uma delegacia ali mesmo. Seguia-se, então, uma sessão de interrogatório, onde toda a bagagem da pessoa era aberta e revistada. Depois de algum tempo ela era liberada, mas, quando checasse a bagagem, notaria falta de algo de valor.

Não sou de ficar repassando mentiras, teorias da conspiração e nem mesmo alguma informação suspeita pela Internet. Por mais que este ‘esquema’ parece ser apenas mais uma invenção da rede, eu garanto que tínhamos vários motivos para acreditar. E, mesmo que, graças a DEUS, não tivemos problema algum, continuo aconselhando muito cuidado para quem for cruzar esta fronteira no futuro. Vale lembrar que este problema é localizado nesta fronteira, e a aparente ‘pilantragem’ é realizada apenas por alguns policiais de fronteira do Peru. Não se pode generalizar e atribuir estes infelizes acontecimentos a toda a policia peruana. Estamos cansados de saber que no Brasil também há alguns policiais corruptos, mesmo que a grande maioria da polícia seja composta de bons policiais. No Peru creio que seja a mesma coisa.

Arrumamos a bagagem para que não ficássemos com nada de valor em mãos. Tomamos o ônibus na praça principal de Copacabana. Foi a primeira vez que eu viajei em um ônibus que mantinha um guia dentro, orientando os viajantes. Para nós, a melhor opção era estarmos em um ônibus repleto de turistas, já que com vários ‘alvos’ o objetivo era passar despercebido.

Deixamos Copacabana rumo à fronteira. Durante o caminho, o guia nos avisou como era o processo de imigração peruano, mas, claro, não tocou em problema algum. Inclusive nos orientou a fazer câmbio de bolivianos para os soles peruanos ali mesmo, em uma casa de moeda ao lado da polícia de fronteira. É claro que não levamos a sério.

As pessoas que passaram pela incômoda situação nos aconselharam a nos manter sempre unidos, não sermos nem os últimos e nem os primeiros nas filas da imigração, não passar na frente da polícia de fronteira do Peru (não confunda policia de fronteira com imigração, são duas coisas distintas), não ficar exibindo objetos de valor, tal como jóias, mp3 players, celulares e outros, e, se abordado por algum policial, fingir que é gringo e que não fala nem espanhol e nem português.

O ônibus parou poucos minutos após ter deixado Copacabana. Era uma estrada que contornava um morro. Na fronteira, a pista fora interditada para melhor controle do tráfego. Antes de o ônibus seguir para o Peru, descemos todos com os documentos no bolso para encarar a imigração. Primeiro foi a imigração boliviana, onde entregamos uma folhinha preenchida lá na entrada do país e eles prosseguiram carimbando o passaporte para atestar que estávamos deixando o país.

Em seguida, andamos juntos até a casinha da imigração peruana, onde entregamos um formulário de imigração já previamente preenchido (o guia nos entregou no ônibus) que foi destacado pelo oficial e entregue uma parte de volta para nós (para ser entregue quando deixarmos o país). Logo em seguida, carimbou o nosso passaporte assinalando a data de entrada. Enfim, estávamos legal no Peru.

Ao deixar a imigração peruana, só nos restava voltar ao ônibus. Notamos que ele estava estacionado bem à frente da temida polícia de fronteira. Só que, ao contrário do que nos informaram, a porta estava virada para a estrada e não para eles. Aproveitamos a sorte e embarcamos rapidamente (sem aparentar pressa). Nesta hora estávamos muito felizes por conseguir concluir o processo sem demais complicações.

Quando o ônibus voltou a andar, já em solo peruano, o guia nos avisou que ali era uma hora a menos do que na Bolívia, que, por sua vez, era uma hora a mesmo que Brasília. Ou seja, estávamos duas horas a menos que Goiânia e a maior parte do Brasil. Foi aí que lembrei que, mais uma vez, entrávamos em um país sem ter uma nota do dinheiro local. Felizmente, desta vez, a viagem até Puno seria rápida e lá teríamos várias casas de câmbio a nossa disposição.

Puno tem tudo para ser uma bela cidade. Cercada por montanhas e ainda às margens do Lago Titicaca, a cidade se situa no meio de um cenário com potencial turístico fantástico. O problema é que Puno é muito mal cuidada. Por todo lugar que se anda há lixo espalhado pelas ruas. Entre o lago e a cidade, há uma espessa camada de musgo verde que acompanha todo ‘litoral’. Assim, a cidade nada mais é do que um lugar de passagem ente a Bolívia e Cuzco.

Ao descermos do ônibus na rodoviária, percebemos que o nosso guia poderia nos arrumar bons preços para as nossas futuras necessidades logísticas. As nossas colegas estavam enjoadas de Titicaca, então resolveram ir para Cuzco direto e chegar na capital Inca à noite. Eu e o Rodrigo resolvemos fazer o passeio à ilha de Urus, um povo indígena que tem uma cultura muito peculiar. Desta forma, fechamos com o guia tanto a viagem das meninas quanto o nosso passeio, além da nossa própria viagem até Cuzco, que sairia às oito da noite.

Com tudo marcado, fomos até o centro para comprar soles peruanos e almoçar. Acho que era o enjôo constante de ter de correr atrás de hotéis, empresas de ônibus, restaurantes e agências de turismo que fez com que entrássemos em um restaurante super-chique para almoçar. Ali, o ambiente era fino, a louça era aparentemente muito cara e os garçons usavam luvas. O preço era caro até para nós, felizes operários ganhadores em reais. É bom lembrar que no Peru a cotação nos desfavorece, já que o sol peruano vale bem mais que o boliviano.

Sem muitas opções, pedi uma pizza brotinho, já que era um dos poucos pratos não muito caro. Saindo do restaurante, nos separamos. As meninas pegaram um táxi para a rodoviária. Já que o nosso passeio era um pouco mais tarde, nós dois fomos dar uma volta para conhecer a cidade.

Ainda a 3.800 metros de altura em relação ao nível do mar, e com o sol de meio-dia bem em cima de nossas cabeças, cansamos logo de ficar perambulando por Puno e resolvemos seguir a pé até a rodoviária, já que o nosso passeio sairia de lá. Logo na chegada vimos que teríamos problemas, já que ninguém sabia informar onde tínhamos que nos apresentar. O horário do passeio foi se aproximando e tive a nítida impressão que o perderíamos, quando uma mulher da agência nos identificou e pediu que nós a seguíssemos.

Pegamos uma van e fomos até o porto, onde embarcamos em um barco amplo e bem conservado, rumo a ilha de Urus. Era um barco maior e muito mais veloz que aqueles de Copacabana. Desta forma, a nossa viagem pelo lago só durou uns quarenta minutos.

A ilha de Urus, na verdade, é composta de várias ilhas. Elas todas são ilhas artificiais, construídas pelos seus próprios habitantes. Conta à história que o povo de Urus foi expulso do continente e forçado a sobreviver no lago. Assim, eles desenvolveram uma técnica de construção de ilhas, usando matéria-prima local. Eram nestas ilhas que, desde então, eles vinham vivendo, anos após anos.

Este foi um dos passeios mais interessantes que fiz em toda a jornada. Já na chegada, algumas guaritas de observação davam ao local um toque de “Waterworld”. O barco foi atracado em uma destas ilhas e todos fomos saudados pelos Urus. Depois de várias explicações interessantes, que prenderam a minha atenção do início ao fim, pudemos caminhar livremente por parte da ilha para tirarmos fotos e observarmos. Também havia uma ‘ferinha’ de artesanatos, onde podíamos comprar lembranças. É claro, mesmo no meio do Titicaca o capitalismo também impera. Tanto que comprei uma escultura, paguei em soles e recebi um dólar de troco. Guardei como prova da intensa globalização.

Já era final de entardecer quando voltamos a Puno. De volta a rodoviária, o momento era propício para comermos alguma coisa e esperarmos o ônibus. É nestas horas que faz falta lanchonetes tipo Bob´s, McDonalds, Burger King, Giraffas, ou qualquer outro fast food. As rodoviárias bolivianas e peruanas geralmente não possuem local descente para alimentação. Durante a espera, o Rodrigo foi telefonar para a Erika, já que era seu aniversário e eu, de bicão, aproveitei os seus soles investidos no telefone para lhe desejar feliz aniversário.

Entramos na área de embarque da rodoviária meia-hora antes do horário. As empresas peruanas, assim como as bolivianas, têm o péssimo hábito de não colocar o número da plataforma nas passagens. Assim, nunca sabíamos direito de onde o ônibus saía. Neste caso, a falta deste ‘detalhe’ quase foi fatal. A rodoviária de Puno foi construída em forma de cruz andina, ou seja, em nenhum lugar que você fique dá para ver todas as plataformas. Um martírio para localizar o ponto exato de onde sairá o seu ônibus.

O tempo foi passando e fui ficando ansioso. Faltando cinco minutos (ou nem isto) para o horário tive, novamente, a sensação de que perderíamos o ônibus. Comecei a andar pela a confusa rodoviária já em meio a desespero. Foi quando achei o nosso ônibus, quase pronto para sair, atrás de onde estávamos. Saí correndo e fui chamar o Rodrigo. Quando chegamos de volta, confirmei ofegante com o motorista se era realmente o ônibus certo. “Para Cuzco?”, perguntei. “Sí”, me respondeu já de olho para engatar a marcha. Entramos e antes que pudéssemos nos acomodar em nossas poltronas, o ônibus arrancou rumo à velha capital Inca.

Mapa do Caminho - Dia 12

Data: 15/06/2007
Saída: Copacabana, Bolívia
Chegada: Puno, Peru
Distância percorrida no dia: 138 km
Empresa de ônibus: sem informação
Duração da viagem: +- 3h
Tarifa: sem informação

sábado, junho 14, 2008

Exaustão sob o Sol

Levantamos cedo, como de costume, e fomos tomar café para não nos atrasarmos para o passeio que faríamos até a Isla del Sol, uma ilha não muito longe de Copacabana. Tínhamos fechado com uma agência de turismo que operava com hotel, o que significava que teríamos transporte até o porto e economizaríamos energia. Naquele momento ainda não sabíamos, mas energia foi o que mais precisamos para conseguir completar a missão daquele suado dia.

Não demorou muito para embarcarmos em um barco não muito grande rumo a ilha. Havia a opção de irmos na parte debaixo, sentados nas cadeiras e apreciando a vista pela janela, ou em cima, a céu aberto e aproveitando o vento matutino. Ficamos com a segunda. A viagem demorou umas duas horas, já que o barco não era dos mais velozes e o ponto inicial do passeio era na parte norte da ilha (mais distante).

Deu para enjoar de tanto ver água. Quando se fica muito tempo em um barco, as pernas começam a coçar, pedindo ação. Foi justamente o que tivemos quando desembarcamos e iniciamos a parte terrestre do passeio.

A Isla del Sol lembra uma ilha vulcânica. A única parte que fica no nível do lago é o litoral. A partir daí se levanta uma grande montanha, formando a parte alta da ilha. Quando a montanha abaixa, chega a outra margem da ilha, praticamente sem um terreno plano entre a montanha e o lago. Nestes pequenos espaços de terra ‘baixa’, existem alguns povoados. Na viagem passamos por vários, já que fizemos a aproximação pelo sul e fomos contornando a ilha até o fim, no norte. Desembarcamos no último porto, do último povoado.

Logo no início, o guia nos recomendou comprar provisões em uma lojinha estrategicamente localizada ao lado do desembarque dos turistas, e seguir a trilha de pessoas subindo a montanha até a parte alta. Começamos a ‘via sacra’ seguindo aquela multidão de turistas, tendo a certeza de que seria ali que empenharíamos o maior sacrifício físico de todo o passeio. Estávamos longe da verdade.

Enquanto subíamos, aproximávamos dos quatro mil metros de altura em relação ao nível do mar, altitude da parte mais alta da ilha. De vez em quando, parávamos um pouco para tirar uma foto, ou recuperar o fôlego. Quanto mais subíamos, mais percebíamos que o cenário era insuperável. De cima dava para conferir bem o tamanho do Lago Titicaca e o brilhar do sol estridente na água azul. O céu estava bem azul, sem nenhuma nuvem, e o sol forte era mais um fator de desgaste do caminho.

Quando nos aproximamos do topo, um fato me deixou intrigado (para não falar humilhado). Havia uma escola bem no alto da ilha, e várias crianças chegavam tranqüilamente, caminhando na mesma trilha que nós. Fiquei imaginando que elas certamente sobem aquela montanha todos os dias. E nós imaginávamos que subir aquilo era apenas uma vez na vida (rs).

Já no topo da montanha, visitamos um museu e algumas ruínas incas. Não me lembro direito da explicação do guia, já que todas as forças do meu corpo estavam exclusivamente cuidando da minha respiração. Havia um lance de que os incas acreditavam que ali havia um caminho secreto que ligava a Isla del Sol a Cuzco, no Peru, a capital do império. É claro, nada a mais do que uma lenda interessante. As ruínas eram tipo um labirinto construído numa encosta de montanha, onde não dava para se perder, mas já podíamos visualizar algumas idéias magníficas de construções daquele povo.

No fim desta primeira parte do passeio, o guia nos deu duas opções: podíamos descer e esperar que o barco nos levasse a parte sul, ou então fazer a trilha que percorria o alto da montanha até lá, mais ou menos umas três horas de caminhada.

Perguntei ao guia se o caminho era difícil, já que iríamos sozinhos, e ele disse que não. “É só aquela pequena subida, depois e só descida”, garantiu. Com exceção da Marina que não estava muito bem, nós quatro optamos por continuar a trilha, já que assim aproveitaríamos melhor o passeio e, como o guia disse, não seria tão cansativo. O detalhe é que o guia nos enganou.

Até hoje fico pensando porque ele fez aquilo. Acho que pensou que se falasse a verdade, nos intimidaria a fazer o caminho. E, verdade seja dita, vale muito a pena caminhar pela trilha que liga a parte norte ao sul da ilha. O problema é que o caminho é um verdadeiro desafio físico para qualquer pessoa, principalmente para os que vivem ao (ou quase) nível do mar.

Realmente o início era uma pequena subida. Caminhamos logo para poder desfrutar a descida, como o guia falou. Não era difícil de acreditar naquela informação, já que, devido a subida estar bem à frente do restante da trilha (que é praticamente reta todo o tempo), não dava para nós conferirmos se havia, ou não, mais subidas. Apenas quando acabávamos de subir uma é que víamos o tamanho da próxima. E assim era toda a trilha. Uma grande subida seguida de uma descida que mal dava para nos recuperarmos.

A nossa expectativa em torno do percurso era que teríamos que descer uma hora, já que estávamos na parte alta da ilha. Isto era a esperança que nos movia. Se a dificuldade física da trilha já não fosse o bastante, tínhamos um tempo máximo para fazer o percurso, ou então perderíamos o barco de volta a Copacabana. O tempo, porém, era grande e dava para percorrer tudo tranqüilamente.

Não me lembro outro dia que fiquei mais cansado e desgastado como este em toda a minha vida. Havia momentos que o corpo simplesmente não respondia ao cérebro. O meu problema não era nem o desgaste das pernas, mas a dificuldade de manter um nível de respiração constante, que me desse à oportunidade de caminhar sem ter que parar a todo o momento. O desgaste juntamente com a altitude, contudo, exigia muito de nós e, a toda hora, desmoronávamos no chão, pensando que morreríamos de tanto ofegar.

Assim foi durante mais de três horas. Em três pontos da trilha há umas lojinhas vendendo água e comida. Compramos umas bananas para ver se nos davam força para chegar até o final. Assim que íamos chegando ao destino final, a trilha que era, em sua maior parte, deserta (com exceção de poucos turistas, ou vítimas, que toparam fazer a trilha), começava a entrar em um vilarejo, com algumas casas ao redor. Assim, as pessoas da região passavam a conferir o nosso sofrimento de perto e, gentilmente, nos davam forças para continuar, informando-nos que faltava pouco.

Depois que cruzamos o vilarejo, chegamos, enfim, na descida até o porto. O problema é que a descida é tão íngreme e nós já estamos em um estado tão deficiente, que descer a montanha foi tão difícil e desgastante quanto todas as inúmeras subidas e descidas que fizemos em todo o percurso. Ou seja, no final, não havia o ‘prêmio’ da descida, que tanto nos motivou durante a caminhada.

Quase no fim, a trilha entra no meio de um bosque, cheio de árvores e algumas construções antigas. Cruzando um portal, demos de cara com uma chola (mulher tipicamente andina) segurando uma llama e oferecendo o animal como transporte de carga, ou então servindo de ‘cenário’ para fotos. Os dois serviços eram, obviamente, pagos. Eu vinha na frente, quando a vi de costas para nós. Avisei silenciosamente aos outros que vinham atrás, e eles sacaram as câmeras para tirar fotos. Só que, no meio da ‘sessão’, não é que a chola percebeu e veio para cima de nós, gritando como se tivesse sido roubada? Todos ignoramos a mulher e nos apressamos em deixar ela falando sozinha.

Quando chegamos ao porto, ninguém conseguia ficar em pé. Compramos a maior coca-cola que havia, mas mal conseguíamos levar o copo à boca. Não demorou muito, embarcamos de volta à cidade.

Parecia que tudo conspirava contra nós. Depois de mais algumas horas de viagem no lago, chegamos a Copacabana e nos deparamos com mais algumas subidas para chegar ao hotel. Não conseguia pensar direito quando cheguei no quarto (segundo andar) e desabei na cama. Pensa que acabou o dia? Nada disto.

Descansamos um pouco e saímos para achar alguma empresa que poderia nos levar até Puno (no Peru, nossa próxima parada), já na manhã seguinte. Aproveitamos o sacrifício e fomos jantar. Tinha certeza de que seria minha última oportunidade, então pedi mais uma trucha a la plancha, para me despedir daquela simpática cidade e daquele alegre país. Um detalhe: estávamos apenas eu e o Rodrigo, já que as nossas colegas ficaram no hotel e, naquele momento, já deviam estar desfrutando o décimo sono.

Mapa do Caminho - Dia 11

Data: 14/06/2007
Cidade: Copacabana, Bolívia
Passeio: Isla del Sol

sexta-feira, junho 13, 2008

No lago mais alto do mundo

Não estava bem quando acordei. Arrumei rapidamente as minhas coisas torcendo para que ficasse melhor ao decorrer do dia. Tomei café da manhã (mais um mate de coca para reforçar) e partimos para a nossa viagem de algumas horas até Copacabana, no Lago Titicaca.

Poderíamos ter comprado a passagem com a mulher de uma agência de turismo que operava no nosso hotel, mas preferimos tomar o ônibus por conta própria. Assim, chamamos um táxi (aquela velha história de negociar preços) e fomos até o cemitério. Isto mesmo, para o cemitério. Em La Paz, os ônibus que deixam a cidade rumo às outras cidades no mesmo departamento (equivalente aos Estados, no Brasil) saem do lado do cemitério.

Não sei se era porque não estava bem, ou porque era longe de fato, mas senti que o táxi deu uma volta imensa. Descemos bem perto do local onde ficam estacionados os ônibus. Atravessamos a rua e, logo em seguida, percebi que tínhamos sorte – um ônibus para Copacabana sairia em poucos minutos.

Já dentro do ônibus comecei a perceber que começaria a melhorar. Se os problemas estomacais me atrapalharam a conhecer La Paz mais de perto, pelo menos serviu para que eu descansasse. Assim, pude ir acompanhando a viagem até Copacabana bem atento.

Depois de rodarmos um bom tempo em meio a uma bela paisagem de montanhas e planos, tive a primeira vista do lago. Por ser bem grande, a princípio não há diferença entre olhar o Titicaca e o mar. Só com o passar do tempo, quando você sente que o está contornando – impossível no caso do mar - é que se tem noção de ser de fato um lago.

Ao chegarmos a San Pablo de Tiquina, um pequeno povoado nas margens do lago, descemos todos do ônibus. Tínhamos que cruzar o Estreito de Tiquina, e faríamos isto de balsa. O ônibus cruzou por meio de uma balsa ‘própria’ para veículos grandes. Fiquei assustado ao observar o tamanho destas balsas – parecia um pequeno barco de pesca. Lembrei das nossas bagagens dentro do ônibus, mas logo me tranqüilizei: “Se sempre foi assim e nunca ocorreu nada...”, pensei.

A nossa balsa (a de passageiros) também era modesta, mas nada que preocupava. Para quem já tem alguma experiência de pescaria em grandes rios acharia super seguro. Tivemos que comprar um bilhete (não me lembro o preço), já que a travessia não estava inclusa no preço da viagem. Todos estávamos a bordo quando ocorreu um fato engraçado. Pouco segundo depois da partida, o motor do barco começou a falhar e párou. Era um daqueles motores de barco de pesca que você da a partida puxando uma corda. O rapaz boliviano bem que tentou (coitado!), mas não teve jeito. Percebeu que se dependêssemos daquele motor, permaneceríamos ali por muito tempo.

Assim, ele chamou um outro barco, que logo ficou lado a lado do nosso. Um por um, trocamos todos de balsa e seguimos viagem. Era, digamos, um barco mais bonitinho (rs). Desta vez o motor era bem melhor e, em menos de 15 minutos, já estávamos em San Pedro de Tiquina, outro povoado que ficava na outra margem do estreito.

Assim que saímos da balsa, percebi que havia um policial logo à frente. Ao nos aproximarmos, não exitou em pedir nossos passaportes. Viu que estava tudo em ordem, sorriu e nos deixou passar. Só depois fui lembrar das fraudes que aplicam a turistas, com falsos policiais, esquema que já expliquei anteriormente. Percebi que se fosse o caso, cairia direitinho.

Foi aí que lembrei também que, apesar de ser um país que não possui saída para o mar, a Bolívia mantém uma marinha para cuidar de seu lado do Lago Titicaca (lembrando que o lago é dividido entre Peru e Bolívia). Existe até uma campanha de reivindicação boliviana para que o país possa ter a sua própria ligação ao oceano. É claro, sem utilidade prática, apenas para constar.

Não demorou muito para que o nosso ônibus também chegasse de sua ‘viagem’ pelo Estreito de Tiquina e logo estávamos novamente na estrada. É interessante notar que naquela região o que não fica na margem do lago fica em cima de alguma montanha. A estrada para Copacabana, assim que deixa Tiquina, sobe uma montanha e segue no alto até a cidade, quando desce novamente rumo à margem. Quem ganha com isto é o viajando, que pode ver um cenário paradisíaco bem de cima.

Desde que avistei Copacabana pela primeira vez, notei que fora construída ao lado de uma península. Assim, a cidade conta com uma grande orla, muito parecida com a Copacabana carioca, mas em pequena escala (e menos bela). Aliás, não pesquisei sobre o assunto, mas a informação que tivemos é que a Copacabana do Rio de Janeiro tem este nome por causa da boliviana.

O Lago Titicaca é o mais alto do mundo, a 3.800 metros acima do nível do mar. Foi sem dúvida uma mudança muito agradável na nossa viagem, já que até então havíamos tido contato apenas com as montanhas andinas. Não sei se é coisa de goiano, mas estar ao lado de uma grande proporção de água mudou o nosso ânimo. Até os meus problemas de estômago foram minimizados. O estresse diminuiu. Senti que foi um lugar onde pudemos dar aquela “respirada” de todas as dificuldades enfrentadas, até então, nesta jornada.

Chegamos na hora do almoço, então logo procuramos um restaurante. Nem bem tinha melhorado, já fui logo pedindo o prato típico da região – trucha a la plancha (truta na tábua). Foi um dos melhores (se não o melhor) prato que comi em toda a viagem. Naquela situação, às margens do lago, ficou ainda mais saboroso.

O nosso hotel ficava, mais uma vez, na parte de cima da cidade. Foi um dos melhores hotéis/albergues que nos hospedamos ao longo do mês, lembrando que a sugestão foi de um dos brasileiros que conhecemos em La Paz. Na verdade ele ficava bem ao lado de um outro que eu tentei reservar - era mais bonito e luxuoso-, mas não havia mais vagas.

À tarde, saímos para conhecer a orla. Verdade seja dita, Copacabana é uma cidade bem suja. Infelizmente, já que o cenário é muito bonito. No entardecer, resolvemos dar uma de fotógrafos e lá ficamos sentados aos pés do lago até a noite. Obviamente ninguém se aventurou a tomar um banho, já que fazia muito frio.

De volta ao hotel, ligamos uma pequena televisão no nosso quarto (não sei o que fazia ali, já que não era para ter tv nos quartos) para acompanharmos a primeira partida da final da Libertadores, entre Grêmio e Boca Juniors. Só vimos o primeiro tempo, pois precisávamos sair para comer. Foi bom não demorar muito, já que a cidade dorme muito cedo. Vimos o final do jogo, e a grande derrota gremista, em um restaurante. Saindo de lá, pudemos assistir vários argentinos bêbados comemorando em um bar ao lado. Muito engraçado.

Nas subidas e descidas de Copacabana acabamos encontrando parte do grupo de brasileiros que conhecemos em La Paz. Reunimos todos e partimos para um barzinho meio alternativo. Interessante notar que poucas pessoas ficam na rua durante a noite. O frio faz com que todos os ‘desabrigados’ procurem os estabelecimentos com calefação, que é obrigatório em todos os lugares. Passamos a noite bebendo os mais estranhos drinks e conversando. Não até muito tarde, já que estávamos todos muito cansados e, de manhã, faríamos o passeio da Isla del Sol.

Na hora de voltar para o hotel, discutíamos se ainda teríamos um lugar para passar a noite. Isto porque a mulher nos avisou que o hotel fechava às dez da noite e que tínhamos que voltar até este horário. É claro que não obedecemos, e voltamos quase à meia-noite. A primeira vez que batemos na porta, ninguém respondeu. Tensão. Na segunda, abriu um boliviano com cara de quem acabara de acordar e, muito simpático, nos deu um sorriso enquanto pedia para entrarmos.

Mapa do Caminho - Dia 10

Data: 13/06/2007
Saída: La Paz, Bolívia
Chegada: Copacabana, Bolívia
Distância percorrida no dia: 156 km
Empresa de ônibus: sem informação
Duração da viagem: +- 3h
Tarifa: sem informação

quinta-feira, junho 12, 2008

Em meio à História

Saímos bem cedo do hotel rumo as ruínas de Tiahuanacu. A van que nos pegou estava com poucas pessoas, já que as nossas colegas haviam optado por um outro passeio, desistindo do nosso de última hora. Pegamos a estrada e em pouco mais de uma hora chegamos no sítio arqueológico. A visita durou toda a manhã. No nosso grupo havia, além de mim e do Rodrigo, um chileno, um costarriquenho, uma checa e um brasileiro.

A civilização Tiahuanacu (Tiwanaku) iniciou-se em aproximadamente 1.500 a.C., tendo o seu ápice de 500 d.C. a 900 d.C., quando se passou à fase de decadência. Foi um grande poder regional do sul dos Andes por muitos anos. A cidade principal era localizada nas ruínas que visitamos (a 72 km de La Paz), onde tudo começou com uma pequena tribo. No ano de 1.200 d.C. a cidade foi abandonada por falta de comida devido a rigorosos períodos de seca que atingiu uma civilização já desestruturada.

A primeira parte do passeio foi em um museu, onde eles mostraram vários objetos arqueológicos escavados naquele local. O destaque eram as grandes estátuas esculpidas, sempre com um mesmo desenho de homem, além da cruz que representava os três níveis – os seres que viviam na terra, debaixo da terra e acima da terra. Eram adoradores dos condores, ave típica da Bolívia, e a sua imagem também era muito usada nos objetos esculpidos.

A segunda parte foi ao seu aberto. Visitamos uma pirâmide enorme que havia sido descoberta já há algum tempo. Mesmo assim, não pense que é igual a uma pirâmide tradicional do Egito. Por sua forma, e também por já não estar inteira, ela é bem baixinha. Para imaginarmos corretamente, podemos dizer que equivale apenas a base de uma pirâmide tradicional.

O vai e vem no sítio arqueológico foi tão cansativo quanto informativo. Tiahuanacu é uma civilização quase desconhecida por nós brasileiros e ao mesmo tempo tão perto do nosso país. O engraçado era a empolgação do nosso guia em nos contar a história do lugar. O problema é que a sua dicção não era das melhores. Nós entendíamos tudo, mas já para a checa, que precisava entender o seu inglês, não foi nada fácil. Ainda no início do passeio, a coitada desistiu de prestar atenção e seguiu por conta própria.

Havia arqueólogos trabalhando no local. Quando passamos por um campo onde eles estavam escavando, o guia nos avisou que não podíamos tirar foto. É claro que o aviso foi mais do que tentador para todos sacarem as câmaras, disfarçarem e registrarem o momento. Este foi mais um lugar onde eu senti um grande esforço físico por subir, descer e caminhar, tudo amplificado pelo o mal da altitude.

Depois do término de uma verdadeira aula de história boliviana, fomos todos almoçar em um restaurante lá mesmo nas ruínas. No cardápio, novamente, a deliciosa carne de llama. Em seguida, nos despedimos do local e pegamos a van de volta. No caminho fui conversando com o chileno, que estava sozinho visitando a Bolívia. Achei sensacional quando ele me contou que era torcedor do Universidad Católica, um time de futebol de Santiago, e que havia visto a final da Libertadores de 92, quando o São Paulo foi campeão justamente sobre o time chileno. Ele me contou que havia sido um momento marcante negativamente. Lembrei-me que na ocasião eu tinha dez anos e acompanhei com muita ansiedade aquela final. Nunca, naquela idade, imaginaria que um dia conheceria alguém que estava do outro lado, torcendo tão insistentemente para o time chileno como eu para o São Paulo.

Antes de chegar novamente a La Paz, passamos pela cidade de El Alto, vizinha a capital boliviana. Como o nome já diz, El Alto fica 400 metros acima de La Paz, a 4.000 mil metros acima do nível do mar. A cidade abriga o principal aeroporto do país e parece ser mais pobre que a capital. Para ir de El Alto a La Paz, temos que descer uma pequena serra. O motorista da van estacionou bem no alto para que pudéssemos descer e tirar fotos de La Paz vista por cima. Um verdadeiro espetáculo.

De volta a van, o meu estômago começou reclamar novamente. Percebi então que minha noite poderia não ser tão agradável como havia planejado. De volta ao hotel, a situação começou a piorar. Decidi não jantar com o restante do pessoal e pedi ao Rodrigo que me trouxesse um chá de coca.

Dentei na cama e fiquei um bom tempo torcendo para que melhorasse. Nesta ocasião, já tinha tomado os remédios que possuía na mochila. Fiquei esperando o chá, confiante que ele me faria tão bem como no dia anterior. Quando ele chegou, porém, o pior já havia passado e me sentia um pouco melhor.

Na verdade era um copão de chá. Quando fui beber, percebi que estava sem açúcar. Fiquei imaginando como havia me metido naquela situação e, ao mesmo tempo, criando coragem para tomar o chá amargo. No início foi bem ruim, mas ao final já estava me acostumando. Acho que foi a situação, mas acabei tão entrosado com o chá sem açúcar que acabei tomando em outras ocasiões sem reclamar. A noite foi bem difícil, e a minha maior preocupação era porque logo de manhã deixaríamos La Paz rumo ao Lago Titicaca.

Mapa do Caminho - Dia 9

Data: 12/06/2007
Cidade: La Paz, Bolívia
Passeio: Ruínas de Tiahuanacu

quarta-feira, junho 11, 2008

Chá de coca

Acordei com a certeza de que precisaria de muitos dias sem fazer nada para me recuperar da primeira parte da viagem. O pior era o cansaço físico que teimava em não ir embora. Mesmo com as viagens menos freqüentes, com mais tempo para permanecermos em um mesmo local e, conseqüentemente, termos menos desgastes, parecia que eu levava o mundo nas costas. O mal da altitude começava a mostrar os seus piores sintomas.

Depois do café da manhã, descemos ao centro da cidade para ‘cuidar da vida’. Em uma viagem longa, lembre-se bem, não é só visitar, caminhar e conhecer. Precisamos investir um bom tempo para cuidarmos de assuntos referentes a nossa estrutura pessoal. Ou seja, mais hora ou menos hora, tínhamos que ir a lavanderia deixar nossas roupas, no supermercado comprar comida, na loja de fotos descarregar nossas máquinas, no banco tirar dinheiro e assim por diante.

Naquela manhã, nosso objetivo principal era encontrar a agência do Banco do Brasil (isto mesmo, na Bolívia), já que precisávamos tirar dinheiro. Eu, pessoalmente, tinha levado uma quantia em dólares suficiente até a capital boliviana, deixando para sacar lá no BB de La Paz mais uma leva de verdinhas. Identificar pontos de saques ao longo do roteiro é uma forma de se planejar para não precisar levar muito dinheiro em mãos desde o início da viagem, aumentando assim a segurança. Mais à frente, vi que nem é preciso se preocupar tanto com isto, já que hoje já é possível fazer saques nas milhões de máquinas automáticas espalhadas por outros países.

No caminho encontramos uma loja fotográfica e aproveitei para descarregar as fotos da minha máquina. Como é bom a tecnologia que permite você, rapidamente, passar todas as fotos da máquina para um CD e continuar fotografando normalmente. Lembro do martírio que era quando tínhamos que ficar entupindo a mala com aquelas dezenas de filmes.

Mais um pouco de caminhada, descendo a avenida, encontramos o Banco do Brasil. Não sei em relação os demais, mas para mim foi muito estranho entrar numa agência do BB e ter que conversar com os funcionários em espanhol. Fiquei com aquela impressão: “Putz, da última vez meu banco falava a minha língua”. Ah sim, desculpe-me pelo trocadilho, rs.

Os funcionários foram extremamente atenciosos. Gastaram mais de hora fazendo a papelada toda para que cada um de nós realizasse saques. Foi interessante notar que apesar de ser o mesmo banco do Brasil, há uma imensa burocracia para tirarmos dinheiro no exterior. Primeiro, o rapaz do banco passou o nosso cartão e mostrou o saldo da conta na tela (em reais). Depois ele pegou a calculadora e transformou para reais a quantia em dólar que queríamos sacar. Vale lembrar que podíamos sacar em dólares ou bolivianos.

No meu caso, que tinha pouco dinheiro e queria sacar tudo, tive que achar um valor em dólar que equivalesse a maior parte de meus reais. Havia também uma pequena taxa para o saque, que nem me lembro quanto era. Em seguida, o atendente pegou um calhamaço de formulários e foi preenchendo várias e várias guias. No meu caso fiquei pensando se valia à pena para o banco gastar tanto em papel para um saque tão pequeno.

Depois de centenas de autógrafos, era a vez de pegar a fila do caixa e por a mão na grana. Parece que o BB de La Paz não é muito popular entre os bolivianos, pois em todo o tempo que ficamos lá foram poucas as pessoas que passaram pelo caixa. Acredito que a filial do banco deva ter o foco voltado a assuntos maiores, como as tantas refinarias de petróleo e unidades de extração de gás natural que a Petrobrás possui por lá.

No fim de todo este processo comecei sentir alguma coisa por dentro e não era amor. Meu estomago começou a reclamar de alguma coisa que não sabia o que era. A sensação começou a aumentar e, quando deixamos o banco, decidi não prosseguir o passeio com o restante da turma. Foi então que a Marina me lembrou do chá de coca, muito bom para problemas estomacais. Numa situação de ‘urgência’, qualquer coisa é válida.

A Marina me acompanhou até um pequeno restaurante ali perto, onde pedi uma um copo de chá. Era a minha primeira vez diante do polêmico mate de coca. No primeiro gole senti o gosto que já imaginava (lembre-se que já tinha mascado folhas no Salar de Uyuni). Fui tomando aos poucos para não ter nenhuma reação adversa.

O chá me deu um pequeno alívio momentâneo, mas preferi voltar para o hotel. Marina se ofereceu para me acompanhar, mas lhe disse que não era necessário. O caminho era formado por várias ladeiras, já que nós tínhamos só descido até o momento. Pensei em pegar um táxi, ou uma vanzinha, mas a dor começou a amenizar e subi a pé mesmo. No hotel, segui para o quarto e repousei o resto da tarde.

Era e não era o que queria. Mesmo muito cansado e com todo a cama para mim, lamentava o tempo que estava perdendo lá, ao invés de conhecer a cidade. Contudo, não havia nada a se fazer. Dormi um pouco e acordei no final da tarde. Já melhor, decidi fazer valer pelo menos o final do meu dia e sai para comprar a camisa do The Strongest. Rodei a ladeira das lojas esportivas em busca da camisa original, mas me recomendaram voltar até a rua do hotel e procurar numa loja grande que lá havia.

Modéstia à parte, como bom reconhecedor de camisas piratas, não me empolguei com a que eles me ofereceram. Nesta hora, porém, percebi que talvez não encontraria uma 100% oficial em nenhum lugar, já que a realidade boliviana permite que eles comprem apenas as genéricas. Como a camisa era boa(a melhor que achei) e barata, resolvi não arriscar e levei.

Não conseguimos reunir o ‘grupão’ de novo para jantarmos a noite. Alguns já haviam ido embora e os outros haviam sumido. Tentamos seguir a sugestão de restaurante dada por um deles no dia anterior, mas acabamos nos perdendo. Com fome, arriscamos ao entrar em um que não estava com cara muito boa. Me arrependi o resto da viagem.

Como meu estômago não havia se comportado bem, decidi comer algo leve, e escolhi uma omelete. O problema é que veio com tanto óleo que era melhor não ter comido. Já bem recuperado, arrisquei. O restaurante era tão desestruturado, que os garçons eram duas crianças. Esqueceram o pedido da Marina, e ela acabou não comendo lá (por sua sorte). No final, as crianças se reuniram e ficaram uns vinte minutos preparando a conta do nosso lado. Preciso dizer que não tinha ninguém mais além de nós?

Voltamos ao hotel para dormir mais cedo. Logo de manhã visitaríamos as ruínas de Tiahuanacu (Tiwanacu), uma civilização muito antiga, ascendente dos incas. O plano inicial era irmos embora de La Paz logo após esta visita, já que as ruínas ficavam no caminho para Copacabana, nossa próxima parada. Contudo, pelas informações que obtivemos na agência de turismo do hotel, não era muito seguro rumar para lá no final da tarde, já que no caminho é necessário cruzar por balsa o estreito de Tikina, no lago Titicaca. Como tínhamos um dia sobrando no roteiro, achamos melhor gastá-lo neste momento, ficando mais uma noite em La Paz.

Mapa do Caminho - Dia 8

Data: 11/06/2007
Cidade: La Paz, Bolívia

terça-feira, junho 10, 2008

Na capital boliviana

À medida que a nossa jornada prosseguia, notei que podíamos dividí-la em três partes. A primeira foi a ‘corrida’ de Goiânia até Uyuni, a fim de chegarmos na data certa de pegar o trem, fazer o passeio e voltar sem que isto atrasasse o cronograma. Esta etapa se encerrou assim que tomamos o trem de volta a Oruro. A segunda compreendeu a visita ao altiplano dos Andes (La Paz e Lago Titicaca) até às ruínas de Machupicchu, no Peru, e começou assim que abri os olhos e notei que havia dormido todas as sete horas de viagem voltando de Uyuni. Já estávamos novamente em Oruro, cidade que, volto a dizer, ficou marcada mais por pontos negativos.

Estava totalmente tonto de sono. Por mim, dormiria mais sete horas tranqüilamente, dentro daquele trem. Desci sem muita noção de onde estava, e quando olhei ao redor vi que não estava perdido sozinho. Todas as nossas caras diziam que nenhum de nós deveria esta de pé naquele momento. Só que, obviamente, era obrigação. A nossa segunda passagem por Oruro seria bem rápida. Tomaríamos um táxi até à estação rodoviária (que saudades da estão bimodal de Santa Cruz), onde pegaríamos um ônibus até La Paz, a capital dos bolivianos.

Na porta da estação ferroviária, taxistas se aglomeravam em busca de passageiros. Abordamos um deles e fizemos uma proposta. O rapaz negou contundentemente e cobrou um preço muito alto, algo raro já que a maioria dá um sorrisinho sem graça e tenta negociar para não perder o cliente. Acho que foi por isto, e pelo nosso estado, que Rodrigo virou a cara de uma vez e saiu resmungando. E Eduardo meio tonto só pensava em sair dali. Principalmente porque não via a hora de me escorar para dormir de novo.

O grande problema é que não podia fechar os olhos e torcer que tudo se resolvesse sozinho. Não fugiria da responsabilidade de arrumar um táxi. Graças a DEUS, o segundo taxista fez por um preço camarada (não tão baixo como poderíamos conseguir se tivéssemos inteiros) e embarcamos.

O pouco que me lembro foi que logo ao desembarcar miramos para um guichê de companhia de ônibus. Lá eles informaram que havia um ônibus para La Paz que sairia em vinte minutos. Como o preço não era ruim (também poderíamos abaixá-lo, mas...) não demoramos a comprar as passagens. O ônibus já estava à espera, bem na nossa frente. Era velhinho, mas estava em ótimas condições. Despachamos a bagagem e entramos.

A viagem era curta, cerca de quatro horas. Quando o ônibus começou a rodar, tentei lutar contra o sono para poder acompanhar a viagem pelo altiplano, contudo não consegui. Mais uma vez adormeci. Acordei algumas vezes, mas só fui retomar verdadeiramente a consciência quando já estava perto da rodoviária da capital.

Uma das coisas que faz o nosso humor ir lá para baixo é o sono mal dormido. Por melhor que seja uma noite de sono sentado em um trem, ou ônibus, sempre é uma noite ruim. Quando pisamos em La Paz pela primeira vez, nosso humor estava péssimo. O que está ruim, porém, pode ser ainda pior. Logo na saída do ônibus, tentei economizar tempo tirando rapidamente meu lindo guia de mochileiros, novinho em folha, da minha mochila, mas ele saiu do controle de minhas mãos, quicou em meu braço e foi cair numa possa de óleo, com mais algumas coisas (cheirava a urina), logo ali na plataforma. O meu mundo caiu. Queria jogar o livro fora, sorte que o Rodrigo conseguiu me convencer.

Pegamos o táxi até o hotel pré-selecionado. Como parecia bom, fechamos a questão. Iríamos permanecer duas noites ali. É engraçado notar que quando se está na altitude, o fato do quarto se situar nos últimos andares é motivo de desvalorização, principalmente se o prédio não tem elevador. O hotel o aluga pelo mesmo preço, claro, mas as pessoas tentam evitarem o máximo. O nosso era no segundo andar, e o das meninas era no terceiro. Parecia, porém, que o segundo ficava no décimo. Vale lembrar que a nossa ‘data de validade’ na altitude já havia vencido e o nosso corpo já estava com problemas para a reposição de oxigênio. Assim, cada subida de escadas era um martírio.

Um detalhe importante é que a altitude é traiçoeira. Quando se começa fazer esforço físico, parece que é a mesma coisa do que se estivesse no nível do mar. Sentindo que dá para agüentar mais, normalmente a pessoa aumenta a carga de esforço. O baque, porém, vem de uma vez e pode ser arrasador. Diversas vezes eu ia subir as escadas e começa a sentir uma fatiga mortal na metade dos degraus. Mesmo depois que já estava no andar, o corpo demorava muito para se recompor. Muitas vezes eu abria a porta do quarto, extremamente ofegante, e me jogava na cama, só voltando ao normal uns oito minutos depois.

Instalados, fomos atrás de um bom restaurante. Na saída do hotel, uma boa surpresa. Bem ali na nossa porta ocorria um desfile boliviano. Foi de hipnotizar as pessoas que passavam, até a mim, que não gosto muito de paradas ou coisas do gênero. Pedimos informações, e o atendente do hotel nos indicou um restaurante judeu na mesma rua, um pouco mais abaixo.

Naquele restaurante fomos perceber que há muitos judeus em La Paz. Pelo que ouvi dizer, muitos vêm fazer turismo e acabam ficando, já que o custo de vida no país é barato. Ficam por lá uns seis meses, ou mais. O cardápio estava escrito em espanhol e hebreu. Pessoalmente achei o restaurante muito esquisito, e preferi não inventar. Pedi uma lasanha que não foi lá grande coisa.

Voltamos e tiramos a tarde para descansar. Quanto tempo nós não fazíamos isto! Antes, porém, descemos uma rua concorrente (uma enorme descida, para falar a verdade) onde havia várias lojas com produtos interessantes, desde o artesanato até os importados. Havia uma seqüência enorme de lojas esportivas, cheio de camisas de futebol dos mais diversos tipos. Na minha lista de compra estava a do The Strongest, time paceño (de La Paz), mas em todas as lojas que entrei havia apenas camisas ‘genéricas’ e eu queria a original.

Durante a nossa exploração ao mercado, várias vans desciam a rua cheia de torcedores. Perguntei para um lojista e ele me informou que logo mais haveria o clássico da cidade, La Paz X The Strongest. Bateu aquela vontade de ir acompanhar o futebol boliviano de perto. Principalmente porque as vans não paravam de descer, abarrotadas de gente. Convidei a Lucimeire, mas ela não se mostrou animada. Acho que se insistisse ela até iria, mas como notei que realmente ela queria mesmo continuar as compras, desisti. Eu também estava em dúvidas, porque ir ao jogo era perder um tempo precioso que tínhamos para conhecer a cidade.

Voltamos ao hotel e procuramos dormir um pouco. Ao entardecer, as nossas colegas vieram nos chamar para nos apresentar um grupo de brasileiros que elas haviam conhecido no saguão do nosso hotel. Deixamos para depois e dormimos até no início da noite. Mais tarde, quando já estávamos integrados com os nossos conterrâneos, resolvemos descer todos até a principal avenida da cidade para jantarmos. Um dos nossos novos colegas recomendou uma lanchonete, que realmente era boa.

Na verdade havia vários grupos de brasileiros que estavam naquele hotel. Éramos umas vinte pessoas, no total. No caminho da lanchonete, descobri que um destes grupos tinha ido ao jogo à tarde. Para a minha ‘sorte’, me disseram que havia sido uma verdadeira pelada e que terminou em zero a zero. Menos mal.

A lanchonete era grande, e a comida era boa. O problema é que pedi um sanduíche com molho barbecue, que não me fez bem no dia seguinte, mas esta é outra história. A noite foi animada, com muitas conversas agradáveis. Com o bucho cheio, tivemos que subir de volta duas grandes ladeiras. Repetimos estas duas ladeiras várias e várias vezes até o final de nossa estada na cidade, já que o centro e todas as atrações de La Paz ficavam mais baixo do que o nosso hotel.

Mapa do Caminho - Dia 8

Data: 10/06/2007
Saída: Oruro, Bolívia
Chegada: La Paz, Bolívia
Distância percorrida no dia: 220 km
Empresa de trem: Urus
Duração da viagem: +- 4h
Tarifa: Bs. 20 (+- R$ 5,65 à época)

segunda-feira, junho 09, 2008

Sal por todos os lados

No caminho para Uyuni uma coisa me preocupava. Apesar de ter feito o depósito para a reserva do passeio do salar no dia 6, em Santa Cruz, a agência ainda não havia confirmado. E não foi por falta de pedido. Já havia enviado uns dois ou três e-mails para que eles me comunicassem se tinham recebido o dinheiro, mas a cada parada para checar o e-mail vinha a decepção.

Em Oruro, pouco antes do embarque, resolvi agir. Peguei o número do telefone deles e decidi ligar para ver o que ocorrera, até mesmo para me tranqüilizar. Tinha evitado isto até o momento por causa da língua. Falar cara-a-cara com uma pessoa em uma língua estrangeira é uma coisa, por telefone é outra. A experiência que tive só viria a confirmar esta máxima.

A verdade foi que não consegui falar na agência. A primeira tentativa foi engano, o número estava errado. Depois, consegui um outro número e quem atendeu foi uma criança. Eu não a entendia, e creio que ela muito menos. Depois disto, minha auto-estima foi lá para baixo. Pedi ao Rodrigo para fazer uma nova tentativa, e percebi que ele também ficou um pouco desconfiado, mas ligou. A ligação caiu em um hotel, não tinha nada a ver com a agência. Desistimos.

Todo mundo conhece algum lugar ao qual rotula de ‘fim do mundo’. Tenho certeza que você, neste momento, pensou em uma cidade, fazenda, rio ou qualquer outro, a que se refere como tal. Para mim o ‘fim do mundo’ é Uyuni. Desembarcamos do trem aproximadamente dez e meia da noite. Foi a noite mais fria que eu já experimentei em toda a minha vida. Neste momento, ainda dava para ficar fora das cobertas, mas percebi que, durante a madrugada, não seria nada agradável não ter onde se encolher.

Estávamos todos cansados e sem paciência. A viagem foi de sete horas, mas parecia ter ficado dentro daquele trem umas 19 horas. Como em todas as outras cidades, a exceção de Cuzco, não tínhamos hotel reservado. Saímos pela rua, atravessamos a praça e entramos no primeiro hotel que apareceu. Junto conosco havia umas duas dezenas de pessoas que desembarcaram do trem e que também procuravam hotel. Não poderíamos demorar.

Um senhor de idade nos atendeu e ofereceu dois quartos, um duplo e outro triplo. Depois de pensar um pouco, duas colegas preferiram procurar um pouco mais, então ficamos só com o triplo. Necessitávamos urgentemente de um banho, já que a poeira coletada na viagem havia deixado algumas marcas. Contudo o frio era intenso e o chuveiro não era aquecido a gás, como foi em todos os outros albergues em que ficamos durante toda a jornada. O jeito foi ligá-lo na potência máxima e esperar o vapor dominar o banheiro. De banho tomado, sobrou apenas ‘desmaiar’ na cama.

Como precisávamos o quanto antes checar a nossa situação na agência de turismo, colocamos o relógio para despertar bem cedo, logo nos primeiros minutos após as sete horas. Quando o alarme tocou, foi uma dificuldade imensa sair debaixo das cobertas. Reuni coragem suficiente para levantar, não consegui agüentar o frio e voltei para as cobertas. É claro, não iria ficar ali o dia inteiro, então bolei um plano. Levantar rápido, trocar de roupa e voltar. E assim fiz. Só que no meio do processo precisei ficar pulando para amenizar os desconfortos da baixa temperatura.

Não havia café da manhã no hotel, então tomamos o rumo da rua para localizar a tal agência. Descemos e demos de cara com a porta do hotel trancada, sem ninguém na recepção. Ficamos uns 15 minutos sem ação, nos perguntando o que faríamos. Em seguida, o mesmo senhor que nos atendeu um dia antes, apareceu enrolado em vários casacos. “Es muy temprano (é muito cedo)”, disse ele com um sorriso prensado na cara.

Enquanto nós explicávamos que era necessário sair cedo para verificar se o nosso passeio estava realmente marcado, o boliviano acendeu a calefação e tomou posto atrás do balcão. “Vocês não vão encontrar nada aberto agora. Aqui tudo só começa a funcionar depois das nove. O passeio de vocês só deverá sair depois das dez e meia da manhã”, informou. Olhamos um para a cara do outro e lamentamos o sono perdido. Não havia, porém, nada que fazer. Já de pé, tínhamos que resolver a vida.

Ficamos uns trinta minutos conversando com o senhor do hotel. Ele nos contou que já havia morado em São Paulo e que brasileiro gosta de acordar cedo. “Aqui não, ninguém acorda cedo por causa do frio”, contou. Por volta das oito, deixamos o hotel e fomos procurar a agência.

Uyuni é muito pequena. Resume-se a três ou quatro ruas acima e abaixo da praça. Durante a noite, só há iluminação pública na praça e nos arredores próximos e o resto fica no escuro. Uma das características é a poeira solta pelas ruas. A estação de trem era bem próxima à praça, ao lado de uma avenida. Aliás, a cidade nasceu fruto da companhia de trem, que liga o coração da Bolívia ao Chile e Argentina, passando por uma região mineradora. Hoje o turismo é um dos principais filões da economia.

Depois de encontrar a agência, fechada, claro, fomos à praça e reunimos o grupo completo, com as colegas que não ficaram no nosso hotel. Resolvemos ir à estação e comprar a passagem de volta a Oruro, no trem da meia-noite. Havia a possibilidade de voltar de ônibus, mas temíamos ser pior que a ida, já que grande parte do percurso era de terra.

Havia poucas pessoas na estação e o guichê já estava aberto, mas não sobrara passagem na mesma classe em que viemos. Assim, optamos por pagar quase o dobro (que em reais não era tanto assim), para irmos de primeira classe. O grande problema é que este era o único trem - o próximo só passaria por Uyuni na terça-feira de madrugada, ou seja, dois dias depois. A falta de opção de datas deste trem foi o grande empecilho do planejamento de toda a viagem, e de certa forma explica a correria da primeira parte da jornada, já que se perdêssemos o trem de ida, ou de volta, significaria perder de dois a três dias e dar adeus a algum passeio.

Saindo da estação, procuramos um bom lugar para tomar café da manhã. Logo à frente, havia um restaurante movimentado que parecia servir algo apetitoso. Não pensamos duas vezes. E não é que a aposta deu certo? Sem dúvida o melhor café da manhã que tomamos em toda a viagem. Normalmente, um ‘desayuno’ boliviano contém leite, chá, ou mate de coca, pães (tipo pão sírio, mas mais gordinho e com um gosto único) e outras coisas que variam. Mais uma vez lembro que não chega aos pés do nosso.

Estávamos carregando as mochilas, já que havíamos fechado a conta no hotel. Voltamos à agência e, desta vez, já estava aberta. Para nosso alívio, não precisamos nem perguntar nada. Assim que cruzamos a porta, uma mulher que estava sentada atrás de uma mesa se antecipou: “Vocês são o grupo de brasileiros?”. Era tudo o que queria ouvir. Eles foram tão tranqüilos que, até mesmo, se esqueceram de cobrar o restante. Eu já estava dentro da caminhonete, quando alguém veio perguntar: “Vocês não tem um débito para acertar?”. Eu até tinha lembrado antes, mas preferi que eles cobrassem, afinal ainda iríamos voltar e podíamos pagar depois.

Ah, já adiantei que o nosso transporte era uma caminhonete. Por aquele mar de sal e areia que iríamos enfrentar, só um veículo 4X4 mesmo. A primeira parada foi no famoso cemitério de trens. Estranho né, mas lá o ferro velho de antigas máquinas locomotivas virou atração turística. Fica a céu aberto, às margens dos trilhos.

Nosso guia era um senhor que aparentava uns cinqüenta anos. O Juan (nome fictício) era extremamente simpático, e um guia muito bom. Não se cansava de contar suas histórias e dava as explicações muito bem. Como o nosso grupo era privado (apenas nós), tínhamos ele inteiramente a disposição para tirar todas as nossas dúvidas do passeio, de Uyuni e da Bolívia.

Neste momento o frio já tinha ido embora e o céu estava bem azul. O sol cobria nossas cabeças. Quando estávamos expostos aos seus raios, sentíamos um calor seco, que dava vontade de tirar todos os casacos. Já na sombra era o inverso, o frio atacava de uma forma surpreendente. De dia, percebemos o tão desértico que eram os arredores de Uyuni, com muita terra e areia. O cenário era bem plano, com algumas montanhas pontuais. O horizonte era o limite do olhar.

Assim que aproximamos do Salar de Uyuni, tudo mudou. O marrom da terra e o amarelo da areia deu espaço para o branco do sal. A primeira parada foi em Colchani, cidade próxima que abriga a entrada oficial do salar. Lá também existe um pequeno campo de extração de sal, administrado por uma cooperativa, e o famoso Hotel de Sal. Paramos um pouco para podermos explorar de perto estes interessantes marcos do salar.

Para quem não sabe, o Salar de Uyuni é um deserto de sal no meio dos Andes. É o maior salar do mundo, com dimensões gigantescas. Para ser ter noção, estar no salar de Uyuni é ter os horizontes livres para enxergar até o limite, tudo branco, em 360 graus. Há algumas montanhas dentro do salar que, diferentemente, não são de sal. São chamadas de ilhas e possui características únicas.

O salar de Uyuni tem uma explicação científica e uma mitológica. Há muitos e muitos milhões de anos atrás, duas placas tectônicas se chocaram e formaram a Cordilheira dos Andes. Como naquela região era mar, vários lagos se formaram em cima da cordilheira. Com o passar do tempo um dos lagos secou e ficou só o sal. Já a mitológica eu vou ficar devendo, pois confesso que já esqueci. Só lembro que é uma história bonitinha.

Depois do hotel, entramos de fato no salar e viajamos um tempo até a Isla Inca Huasi. Achei muito legal esta ilha. Ela não é grande, mas dá para fazer uma trilha até o topo e ver um panorama amplo do salar. Em todo o caminho, cactos gigantes, próprios da região, chamavam a atenção das pessoas. Antes de subirmos, paramos para o almoço no pé da ilha. A refeição já estava incluída no pacote, e mesmo assim foi muito boa. Pela primeira vez experimentamos a carne de llama, um mamífero camelídeo típico dos Andes.

Só depois do bucho cheio é que Juan veio falar da trilha, muito mais vertical do que horizontal. Ainda não estávamos sob o efeito do mal da altitude, mas mesmo assim era difícil subir. Contribuía também a má forma física. Fui indo devagarzinho, parando sempre que dava a impressão de estava morrendo de tanto ofegar. Contudo, valeu MUITO a pena – a vista é linda. Lá de cima, tive meu primeiro contato com a coca, mascando algumas folhas (veja bem, a planta, e não a droga).

Seguimos para a última atração, a visita ao vulcão Tunupa, no limítrofe norte do salar. Vale lembrar que no Salar de Uyuni é essencial usar óculos escuros, já que o sol refletido no gelo cria uma claridade insuportável.

Quando eu vi o vulcão não acreditei. Eu estava só o trapo e ele era alto demais. Não iria conseguir subir tudo. Foi então que Juan avançou com a caminhonete e mostrou que nós não chegaríamos lá andando. Foi um alívio. Chegamos à base do Tunupa, quando desviamos para uma pequena trilha, rumo a uma tumba. Isto mesmo, fomos visitar umas múmias que antecedem tanto Colombo como os próprios incas. Por falar na famosa civilização, nesta ilha há muros de pedras que os incas construíram apenas equilibrando uma na outra. Ficaram tão firmes que até hoje estão em pé, suportando ventos e terremotos.

No caminho de volta para Uyuni, Juan parou no meio do salar, para a nossa felicidade. Além da sessão fotográfica, pudemos ver o tanto que o sal é duro. Juan explicou que há várias camadas de sal e, entre elas, existem lençóis de água. Todo o chão do salar é ‘desenhado’ de grandes hexágonos, devido às reações químicas embaixo do sal. Além disto, o chão de sal é muito gelado. Por falar nisto, já era tarde, e com o entardecer começou vir o frio. Juan contou que à noite, no salar, é costume fazer quinze graus negativos.

Voltamos todos em êxtase. A beleza da obra sem dúvidas compensou todo o sacrifício, desde Goiânia. De volta à agência, seguimos para uma pizzaria recuperar nossos carboidratos. Ficamos lá umas três horas para aproveitar a calefação (já que não tínhamos mais hotel, e o trem só sairia mais tarde). Eu e a Lucimeire, contudo, enjoamos de ficar ali e saímos para curtir o frio. Lá fora encontramos um monte de meninos jogando futebol. Entramos timidamente no jogo, e eles nem se importaram. Queriam mais era chutar a bola. Impressionante o pique deles, a mais de 3.800 metros de altura.

Cansamos da pizzaria e seguimos para a estação com muito tempo ainda para matar. Lá encontramos uma mesa de pimbolim, ou totó, e não pensamos duas vezes, jogamos várias e várias partidas. Antes de embarcar ainda conversamos com um brasileiro muito estranho, que se dizia de Minas Gerais. Há quem disse que ele era português e que só queria enturmar. O trem chegou para nosso alívio. Quando ia embarcar, o funcionário não foi com a minha cara e disse que teria que despachar a minha mochila. Nisto, o Rodrigo passou sem problemas com a dele e eu fiquei explicando que era a mesma coisa. Não querendo muito papo, ele virou e me disse: “Tudo bem, mas se ela cair na tua cabeça não é culpa minha”. Tudo bem, quando entrei só tinha espaço encima da cabeça de outro mesmo.

A primeira classe era quase igual à outra em que viemos. A diferença era que tinha calefação (não sei se a outra também tinha, porque viajamos de dia), travesseiro, cobertor e nos deram alguns bolinhos, que não me lembro o nome. Entre a distribuição dos itens eu não agüentei, e ia cochilando. Quando tudo estava certo, eu já estava no décimo sono. Para mim a viagem foi instantânea. Pela primeira vez na vida, fechei os olhos no início da viagem e fui abrir no final, sete horas depois, em Oruro.

Mapa do Caminho - Dia 7

Data: 09/06/2007
Saída: Uyuni, Bolívia
Chegada: Oruro, Bolívia – no dia seguinte
Distância percorrida no dia: 353 km
Empresa de trem: FCA
Duração da viagem: +- 7h
Tarifa: Bs. 101 (+- R$ 28,45 à época)

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