Após uns 20 minutos de espera, foi a minha vez de apresentar os documentos. Um novo guichê foi aberto bem na minha vez. Logo após a mulher da minha frente se dirigir ao seu próprio, me dirigi a esta nova porta. Olhei para o oficial português e disse “bom dia!”, mas ele estava entretido conversando com o seu colega ao lado e não respondeu. Apenas pegou o meu passaporte e começou a olhar.
- Bom dia (falou seco, ríspido e rápido), qual é o motivo da viagem (com o mesmo tom)?
- Vou para a Itália reconhecer a cidadania italiana.
Logo fez uma cara de quem comeu e não gostou, e respondeu – Mas isto não se faz aqui, você tem que fazer lá no consulado (já com um humor de quem tinha acabado de acertar o dedão na cama, acentuando o sotaque português).
- Não, eu tenho que apresentar o pedido ao comune italiano – respondi.
- Mas para que você quer a cidadania? (com o mesmo tom)
Neste momento não acreditei que teria que responder aquela questão cretina. Antes, porém, de eu poder pensar em algo educado para responder, ele prosseguiu.
- Você quer a cidadania para vir morar aqui?
- Não sei o que vou fazer com a cidadania. Posso vir. Talvez estudar, mas não sei ainda. (tentei dar um tom de ‘não é da sua conta’).
- Mas por que você pode ter esta cidadania – questionou levantando um pouco a voz.
- Porque meu avô era italiano.
- De onde?
- Treviso, Itália – queria falar ‘Treviso, Vêneto’ mas estava com um misto de nervosismo e muita raiva.
Baixou o olho, esperou uns segundos - Vai ficar quanto tempo?
- Até dia 10 de setembro.
- Até dia 10 de setembro? repetiu com tom de desdenho – Onde vai ficar?
- Em Livorno.
- Você tem parentes aqui?
- Não, vou ficar na casa de um amigo – Desta vez eu antecipei – Eu tenho uma carta, o sr. quer ver?
Ele franziu a testa e, sem olhar para mim, respondeu – Sim, dê-me.
Peguei calmamente a carta na minha mochila e lhe entreguei. Ele começou a analisá-la quando o seu rosto começou a mudar de expressão.
- Mas isto aqui não vale para nada – com olhos cheios de cólera e começando a gritar – Esta em italiano, como que o sr. apresenta uma carta em italiano a um oficial português? Isto serve lá na Itália, mas aqui não. E blá, blá, blá... (começou a falar pelos cotovelos e me dar um sermão monumental).
Eu tinha dois caminhos: esnobar a raiva dele e falar que estou indo para Itália, então a carta tem que estar mesmo em italiano, ou admitir que isto tinha sido um erro. Já que as coisas não estavam boas para o meu lado, preferi a segunda opção.
- É, realmente foi um erro. Eu iria pegar um vôo direto e acabei mudando de última hora.
Mas o oficial não me escutava, continuava reclamando, falando e não me deixava explicar. Sem mais nada o que fazer, olhei para a cara dele, e o esperei terminar.
- Blá, blá, blá, e esta carta não vale nada – parou.
Contorci os lábios para abaixo e abri as mãos como dizendo “o que o sr. quer que eu faço”. Ele respirou fundo, e, pela primeira vez desde que eu havia lhe dado a carta, falou sem gritar.
- O que o sr. faz no Brasil?
A-há, ponto para mim! Desde o início estava esperando esta pergunta.
- Sou jornalista.
- Ah, é jornalista? – questionou novamente fazendo descaso.
- Sim, sou jornalista – E com um só movimento peguei a minha carteira internacional de jornalista e a coloquei entre os seus olhos e o meu passaporte, já que neste momento ele estava analisando o meu documento de viagem.
- Ele a abriu, verificou e não falou mais nada. Olhou para o meu passaporte. Encheu os pulmões de ar, fazendo menção de que falaria algo, mas desistiu. Pegou o carimbo e bateu no meu passaporte.
- Passe – resumiu, com tom de ressentimento e entregando de volta meus documentos, sem voltar a olhar para os meus olhos.
Peguei todos eles e prossegui. Estava dentro.