sexta-feira, novembro 28, 2008

Bobeou.... Passou!!

Férias é uma m..... droga!! Chega a aposentadoria, mas não chega o dia de levantar as pernas para cima. Quando começa, passa voando: piscou, dançou..... acabou!! Mas uma coisa que eu aprendi com a vida é que férias só tem gosto bom quando é precedida de uma boa jornada de trabalho. E olha que a minha foi grande, rs.

Encerro o período de descanso com a certeza de que valeu a pena. E como valeu. Não registrei quase nada aqui porque tenho uma filosofia: férias são férias, não dá para se preocupar em atualizar blog. Tenho, porém, vários projetos de futuras viagens, que não terão caráter de férias, e que terei o maior prazer em fazer relatos periódicos. Aliás, não sou especialista em Jornalismo Literário, como muito dos meus amigos, mas narrativas de viagens me fascinam muito.

Deixe-me ir. Vou trocar, agora, de dor nas costas: de ficar deitado pela de sentar na cadeira de um boteco, beber e papear.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Particularidades

Bonito (MS) - Há alguma coisa neste Estado que me fascina. Algo que não encontro em Goiânia, ou em outra parte de Goiás. Acredito que seja, na verdade, um conjunto de fatores que se juntam e criam parte da cultura daqui.

Eu nasci e morei a maior parte da minha vida na capital do meu Estado, mas semprei me senti atraído por culturas externas. A proximidade que esta cidade tem de outros países é algo que me deixa impressionado. Seja na Bolívia, onde a linha de fronteira política também é cultural - um passo dentro do país vizinho e tudo muda - seja no Paraguai, onde você começa a conversar com as pessoas em portunhol e, quase sempre, testemunha comentários paralelos em Guarany, a língua indígena local.

O turismo internacionalmente conhecido de Bonito e do Pantanal também atrai muitas pessoas de fora. Estes são majoritariamente gringos (estadunidenses, europeus ou asiáticos). É só chegar em Campo Grande que você começa a ouvir pessoas de todos os lados tentando se comunicar em gringoglês (mistura de inglês e português). Estes, quase sempre, embarcam em um ônibus com destino a Corumbá.

Aqui também tem uma cultura rural muito maior que em Goiás. Olha que eu imaginei que isto não fosse possível. Enquanto a 'modernidade' já adentrou bastante nas terras goianas, por aqui as coisas ainda são muito ligadas a terra. Parece o meu Estado há algumas décadas.

Ah, sim, nem preciso falar que tudo aqui é longe. As principais cidades do Estado (Dourados, Campo Grande e Corumbá) ficam a 300km. Ou seja, em um raio de 300km não tem nada. Percorrer mais de 100km sem nenhuma cidade ou vila também é super comum por aqui. Costumo dizer que 40km de Goiás equivale a 120km de MS.

terça-feira, outubro 14, 2008

Antes e depois

Vou evitar inícios como: "Olha só, quanto tempo não posto aqui!". Na verdade a demora para escrever alguma coisa é bem planejada. Não tenho feito nada demais que mereça tal registro. Pensando bem, porém, qualquer coisa pode ser muito bem narrada e esmiuçada, por mais que seja um ato pequeno. Quer saber de uma coisa, deixa eu parar de filosofar que assim não vai dar certo.

As eleições já se passaram, e que venha 2010. Esta é a lógica do meu trabalho. Nada como ser jornalista político que vive na sombra dos pleitos eleitorais. Aliás, me faltam sinôminos para 'eleições'. Nos textos que escrevo, fico alternando entre eleições, pleito eleitoral, processo político e assim vai, para ver se consigo dar uma enganada. Mas no fim é tudo a mesma coisa, mesmo.

Como o tempo passa!! Parece mentira que outro dia eu estava me auto-flagelando porque faltavam longos seis meses para as minhas férias. Há três semanas do meu merecido descanso, não sei mais o que pensar. Espero que no meu período de ócio-criativo posso chegar às respostas que necessito. Se é que necessito de alguma. Enfim, que, no mínimo, possa dar uma boa descansada.

segunda-feira, setembro 01, 2008

De volta.... a Goiânia mesmo!!

Depois de um mês escrevendo todos os dias, e de dois sem falar de nada, acho que está na hora de tirar as teias de aranha. Estou aqui no trabalho sem muito o que fazer (dependendo dos outros, como todo trabalho jornalístico exige), e resolvi escrever algo.

Falando sobre viagens, há mais de cinco meses não saio da cidade para algum lugar longe e interessante, que valha a pena. Estou em contagem regressiva para férias. De hoje até lá são exatamente dois meses, o que me motiva a gerar fatos que possam estimular as folhinhas do calendário a caírem mais depressa.

E olha que elas andam caindo moderadamente rápidas. Me lembro muito bem quando eu estava arrancando os cabelos porque ainda faltavam sete meses para deixar o trabalho 30 dias de lado. Me dá sono só de pensar. Por isto espero curtir este dois meses pré-férias pois, como todo bom trabalhador já sabe, quando elas começam acabam rapidinhas, snif, snif.... E depois que elas se forem começarei um ritmo alucinante de trabalho, mas daí que não tem nada haver com jornalismo. Ou pelo menos quase nada.

Estou com saudades de escrever sobre futebol. Tenho acompanhado o Campeonato Brasileiro como nunca em minha vida. Pelo menos nos últimos anos. Esperava ter uma sequência lá no meu blog esportivo, mas não consegui. Acho que é melhor assim, escrever só quando dá vontade. Pelo menos enquanto há escolha.

domingo, junho 29, 2008

Chegada

Para mim a noite foi instantânea. Quando acordei, tive a certeza de ter dormido um sono maravilhoso e estava totalmente revigorado para, finalmente, ir de fato para a casa. Arrumamos as coisas rapidamente e saí para tirar dinheiro. A caminho do banco bateu um pequeno desespero, já que não tínhamos muito tempo de sobra e em Congonhas é sempre bom chegar o mais cedo possível. Assim, apertei o passo e voltei logo para tomar café da manhã.

O albergue chamou um táxi para nós e saímos rumo ao aeroporto. No caminho, o trânsito estava lento, em uma típica manhã de sexta-feira em São Paulo. Nesta hora notei que minha preocupação anterior tinha fundamento. No final, porém, chegamos com uma boa margem para fazer check-in e embarcarmos tranqüilamente.

Na fila do atendimento, uma atendente com um palm-top foi adiantando o meu check-in. Peguei a última poltrona de janela. Despachamos as bagagens e seguimos para o embarque. Depois que passamos pelo raio-X, deparamos com um salão lotado de passageiros. Estávamos em meio à crise aérea, o que nos deixou preocupado. Felizmente, o atraso foi pequeno, o que não deixou de ser um grande lucro devido à conjuntura do momento.

A vigem foi muito tranqüila. A cada minuto de vôo aumentava a expectativa de chegar em casa. O avião chegou pelo sul de Goiânia e sobrevoou toda a cidade pelo oeste até se aproximar do Aeroporto Santa Genoveva pelo norte. De cima vi o meu bairro, a maior parte dos pontos chaves da cidade, apreciei o Morro do Mendanha, observei o Campus da UFG e a GO para Nerópolis. Até parecia que o piloto estava fazendo um tour na cidade para nós matarmos a saudade após tantos dias fora.

Foi muito bom pisar em solo goiano outra vez. Havíamos chegado, graças a DEUS. Mal pude agüentar o tempo de espera para pegar a minha mala e sair de lá. A primeira pessoa familiar que encontramos foi a Erika, que nos deu uma carona até o centro, na casa do Rodrigo. De lá segui de táxi. A cada rua que passava uma nova emoção. Sentimento de quem saiu, viu tudo o que vimos, passou todos os ‘sufocos’, praticamente cruzou o continente sul-americano, e que agora estava em casa novamente. Ao descer do táxi e pegar as malas, vi a mesma fachada do prédio que havia me despedido 26 dias antes. O subir do elevador, o abrir da porta..... Pronto!! Estava em casa de novo.

Mapa do Caminho - Dia 26

Data: 29/06/2007
Saída: São Paulo (SP), Brasil
Chegada: Goiânia (GO), Brasil
Distância percorrida no dia: 960 km
Empresa aérea: Gol Linhas Aéreas
Duração da viagem: +- 1h30min
Tarifa: +- R$ 180,00

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Em tempo, agradeço a todos que acompanharam a minha nova jornada, este ano viajando por meio das palavras, e comunico que este blog ficará alguns dias de recesso depois de tantos caracteres escritos diariamente.

sábado, junho 28, 2008

De volta ao mundo lusofônico

Decolamos por volta de meia noite e meia do Aeropuerto Internacional Jorge Chávez. Estava nas primeiras fileiras de poltronas, do lado esquerdo, entre uma gringa, que parecia escandinava pela brancura da pele, e uma outra de nacionalidade desconhecida e que não tinha a mínima noção de espaço. Por estar no meio eu era o mais prejudicado, e esta mulher ainda queria estender suas pernas no pequeno local onde eu espremia as minhas.

A viagem tinha duração de quatro horas, mas como voltaríamos ao horário de Brasília (duas horas a mais do que o de Lima) chegaríamos a Buenos Aires pouco depois das seis e meia da manhã. Ou seja, nossa noite teria duas horas a menos. Só consegui dormir uma hora no avião, mesmo assim muito mal. Meu corpo doía todo naquele espaço minúsculo. Uma hora antes da decolagem, comecei a ter uma sede incontrolável. Chamei a aeromoça e ela me trouxe um ‘vaso de agua’, que se limitava a três dedos de água. Não deu nem para o começo.

Depois que passamos das seis da manhã, começou a dar desespero. Torcia para que a viagem estivesse no final. Tive que esperar mais quarenta minutos para começar a movimentação das aeromoças. Que alívio! O dia começou a amanhecer, mas não se via nada de fora da janela. Pensei que estávamos sobrevoando meio a uma nuvem, porque não dava a impressão de estarmos descendo. Quando a visão ficou limpa, porém, já estávamos a poucos metros da pista. Era neblina. Menos mal, pois havíamos chegado na fria Buenos Aires.

Quando desembarquei bateu um grande desânimo. Não tinha dinheiro para sair do aeroporto e usar as oito horas que tínhamos ali para conhecer a cidade, já que para voltar depois teria que pagar novamente a taxa de embarque. Somava-se ainda a fome, sede e sono. Tratei logo de solucionar os dois primeiros problemas. Como não achei uma casa de câmbio perto, fui a um restaurante próximo e usei cartão de crédito. Comi um lanche, bebi um refri e logo meu humor começou a melhorar.

A seguir fui conhecer o aeroporto. Descobri que a área internacional era mais do que o dobro do tamanho que eu imaginava. Muitas e muitas lojas, mas todas com um defeito em comum – preços bem caros. Perdi a conta de quantas voltas eu dei por lá. Acho que gastei o piso do aeroporto de tanto ir de um lado para o outro, para passar o tempo. Quando cansei, deitei-me nos bancos e tirei um cochilo.

Entre um cochilo e uma batida de pernas, o tempo foi passando. Logo estávamos na hora do almoço, mas preferi economizar e deixei para comer no avião. O nosso vôo saía as duas e meia da tarde e chegaria em São Paulo pouco depois das cinco horas. Desta vez não houve atrasos. Logo depois das duas, uma funcionária formou a fila e prosseguiu o embarque.

Desta vez a minha viagem só não foi pior porque o vôo não estava cheio. O lugar de janela ao meu lado não foi vendido. Essencial, já que quando fui sentar na minha poltrona, no meio outra vez, percebi que eu não cabia no espaço destinado. Os braços da poltrona meio que entortaram quando eu insisti. Pulei para a janela e fiquei torcendo para que ninguém aparecesse.

Apesar do cansaço a viagem foi muito legal. Logo na decolagem deu para ver o Rio da Prata e a costa uruguaia. Depois da comida, fiquei observando e, de longe, avistei Florianópolis. O avião ia acompanhando a costa brasileira em uma bonita tarde de sol. Desta vez foi o contrário, lamentava a medida que o vôo ia chegando ao final. Nos últimos quarenta minutos, conheci um menino boliviano que viajava no banco da frente e que voltava, com os seus pais, para Santa Cruz de la Sierra. Fiquei conversando com ele até o desembarque.

Foi uma das poucas vezes na minha vida que achei bom ser brasileiro. Assim que apontamos no corredor da imigração, vimos uma grande fila à esquerda. Não deu nem tempo para lamentar, já que ao lado havia uma placa informando: “Brasileiros à direita”. Ou seja, sem filas. Para fazer um teste, guardei o passaporte e mostrei a carteira de identidade para o oficial da Polícia Federal. Ele deu uma olhada rápida na frente e no verso e me deixou passar. Para agradecer acabei me enganando e soltei um “gracias”. Coisas que a gente faz depois de tantos dias longe do nosso país.

Já no lado de fora do Aeroporto de Guarulhos, precisávamos encontrar um meio de transporte para o centro de São Paulo. Por mim iria de ônibus e economizaria um dinheiro, já que minhas reservas financeiras estavam bem baixas. Porém, os outros quiseram dividir um táxi e acabei não querendo ser o ‘chato da história’. Como foi bom estar de volta em um táxi brasileiro, falando português, vendo as placas na rua em nosso idioma, estando novamente em uma cidade brasileira. Estava com saudades de tudo isto.

O taxista, porém, se complicou na hora de procurar o nosso hostel, no centro. Não sabia onde era a rua Barão de Campinas. Ligou um GPS, contatou a central, mas no final o que valeu mesmo foi a minha memória, já que sempre fico lá quando vou a São Paulo. Como só eu e o Rodrigo optamos por ficar no albergue, entramos e pedimos um quarto duplo. Já era noite nesta hora. Estava tão cansado que mal conseguia manter os olhos aberto. Fomos até a lanchonete do próprio hostel e comemos um cachorro quente. No quarto liguei a televisão, mas não agüentei ver um minuto de “A Grande Família”. Adormeci como uma pedra, e nada me acordou até a manhã seguinte.

Mapa do Caminho - Dia 25

Data: 28/06/2007
Saída: Buenos Aires, Argentina
Chegada: São Paulo, Brasil
Distância percorrida no dia: 2.375 km
Empresa aérea: Aerolineas Argentinas
Duração da viagem: +- 2h30min
Tarifa: +-R$ 720,00 (de Lima a São Paulo) + taxa de embarque (US$ 30,75)

sexta-feira, junho 27, 2008

Último dia no Peru

Finalmente chegou o dia de voltar ao lar. Estava muito ansioso e com uma vontade enorme de entrar na minha casa, comer a comida da minha mãe, dormir na minha cama, encontrar minha família e amigos, enfim, voltar. É nestas horas que você dá muito valor a sua rotina, mesmo sabendo que em dois ou três meses tudo fica chato novamente e, para se consolar, você passa a planejar novas jornadas. De jornada em jornada é que se enriquece a vida.

Acordei com o Rodrigo falando comigo para virar de lado na cama. Não entendi o porquê, mas atendi o seu pedido. Apenas mais tarde ele foi me explicar que eu estava roncando demais. Não escutei nada. O novo albergue estava aprovado. Dormi muito bem. Arrumamos parcialmente as coisas e saímos para dar uma última volta por Miraflores.

Não tínhamos nada o que fazer. Seguimos, então, a cartilha goiana do tempo livre e não pensamos duas vezes em nos mandar para o shopping. Larcomar, é claro. Chegamos lá, fomos almoçar, ou melhor, lanchar. Logo depois de comer, ocorreu um episódio que não posso deixar de relatar. Estava eu sentado em uma cadeira, próximo a um degrau. Como em uma comédia pastelão, empurrei sem querer a cadeira com as costas e tombei de costas. Para a minha sorte a mesa ao lado, com um casal peruano e uma criança, me segurou, mas o estrago já havia sido feito. O refrigerante deles caiu no chão. Sem graça, me ofereci para pagar o prejuízo, mas eles não aceitaram. Os outros riam tanto que fiquei sem graça e saí de perto.

Melhor do que me remoer de culpa é comer Donuts. Lá no Larcomar havia uma barraquinha filial do Dunkin´ Donuts, e toda hora que passava na frente comprava um. Para me perdoar, desta vez acabei comprando dois e fui ver os horários do cinema. Estava com muita vontade de assistir Shrek 2. Para você que está pensando que é um absurdo estar do outro lado do continente e fazer uma coisa que existe do lado de casa, deixe-me lembrar que há todo um aspecto cultural, já que o filme é traduzido em español (rs).

Na hora que fui comprar o ingresso, Lucimeire me convenceu a mudar os planos. Ao invés de ver o famoso ogro verde, fomos jogar boliche. Aí sim, uma coisa que já não tem mais em Goiânia, infelizmente. Já Rodrigo e Lorena não animaram a entrar no jogo e foram ao cinema assistir um outro filme que não me lembro. Fazia muito tempo que não jogava. O objetivo era jogar apenas uma partida, mas à medida que íamos melhorando, fomos estendendo. O preço não era caro, já que pagávamos em soles. Foram algumas horas muito divertidas, que fizeram com que eu me esquecesse que estava a 4.500 km de casa.

Lá para o meio da tarde, cansamos e saímos do shopping. Passamos em uma Lan House para dar uma olhada na Internet. Saindo de lá, a Lucimeire me convenceu, novamente, a ir até a praia. Não vou mentir que deu preguiça, mas acabei aceitando quando pensei que demoraria um pouco até ver o mar novamente. Descemos todos aqueles degraus até as pedras e lá sentamos. Já estava prestes a anoitecer. Foi muito bom ficar olhando para aquela imensidão azul a nossa frente, e pensando que a primeira terra firme que havia naquela direção ficava na Ásia.

Voltamos ao albergue e reencontramos os outros. Nosso avião sairia às vinte três horas e cinqüenta e nove minutos da noite, então tínhamos mais um tempo. Tomamos banho, nos aprontamos, deixamos tudo certo para ir embora e descemos até a sala de televisão para ver o primeiro tempo de Brasil X México, estréia da seleção na Copa América. O jogo começava as sete e cinqüenta, então no intervalo já era hora de pegarmos as nossas coisas, chamar um táxi e nos mandar para o aeroporto. Vale frisar que de Miraflores até lá é uma hora de carro, já que o terminal aéreo fica em Callao.

Lucimeire nos preparou uma sopa que havia comprado no supermercado. O Brasil, como de costume, estava jogando muito mal e tomou dois gols ainda na primeira etapa. Havia alguns gringos na nossa frente que ficaram agitando conosco, indiretamente, mas nem ligamos. Se formos nos vingar em cada derrota da seleção do Dunga estamos perdidos.

Fim do primeiro tempo, e fim de estada no Peru. Um dos funcionários do albergue nos chamou um táxi que logo estava na porta. Acertamos o preço e nos mandamos para Callao. Logo na primeira quadra, alguém lembrou que havia esquecido alguma coisa lá no albergue, e o taxista, muito simpático, não hesitou em dar a volta.

Aliás, que peruano gente boa àquele taxista. O Mario (nome fictício) era uma pessoa maravilhosa, que nos deu uma aula de Lima no caminho para o aeroporto. Lembrando que de Miraflores a Callao é necessário cruzar toda a cidade e passar por quase uma dúzia de municipalidades. No caminho, ele nos contou a história de cada lugar, pontos interessantes da cidade, onde começava e terminava cada municipalidad, o caminho para lugares famosos e etc... No meio da corrida ‘guiada’, ele ia encaixando histórias da sua vida, e tirando nossas dúvidas sobre o Peru. Fez questão de nos mostrar quando passou na frente da Embaixada Brasileira.

Que corrida longa. Se fosse em um táxi brasileiro, com a taxímetro rodando, tinha desistido no meio do caminho. Mario ia tocando tranqüilo, mostrando muita satisfação em nos ensinar tudo sobre a sua cidade. Lembro-me quando, já perto do aeroporto, passamos em uma grande rotatória e ele nos avisou que a pista que cortava a nossa rua era a rodovia Panamericana. “O Equador é para lá?”, perguntei apontando a direita. “É sim, é só seguir reto”, me informou. Se não fosse a imensa vontade de, naquele momento, voltar para casa poderia jurar que tive o incontrolável anseio de virar e seguir naquela direção.

Quase no aeroporto, vimos uma bifurcação na pista e Mario nos explicou que se pegássemos o outro caminho, pagaríamos um valor de pedágio, mas chegaríamos mais rápido. Como não estávamos com pressa, continuamos na pista mais lenta, porém de graça. Para entrar no Aeropuerto Internacional Jorge Chávez, passamos por uma barreira policial, onde Mario teve que mostra um documento para a polícia. “É um esquema de segurança que existe desde o tempo dos atentados terroristas”, explicou. Longa história dos problemas sociais peruanos do século XX.

Quando Mario encostou o carro, tivemos a certeza de que a corrida foi, na verdade, um passeio. Agradecemos muito e tocamos para o guichê da Aerolineas Argentinas. Tentei mudar minha passagem para uma poltrona de janela (estava no meio), mas não consegui. O vôo estava lotado. Esperamos uns quinze minutos e entramos para o embarque.

É duro ser principiante em vôos internacionais. Quando cruzamos a primeira porta do embarque é que fui perceber porque nos pedem para estar duas horas antes no aeroporto. A surpresa maior, porém, era que a taxa de embarque não estava inclusa no preço da passagem. A primeira fila era justamente para quitá-la. Não era barata (US$ 30,75) e, naquela hora, agradeci a DEUS por ter tirado um dinheirinho para me manter às oito horas de escala em Buenos Aires.

Bem explorados, digo, resolvidos, entramos na segunda fila que era a imigração. Como na primeira, demorou uns 15 minutos. O oficial de fronteira pegou o meu passaporte, olhou, recolheu a folha que havíamos preenchido na entrada, lá próximo ao Lago Titicaca, há alguns dias atrás, carimbou a saída e me liberou. Pronto, estava despatriado (rs). A última fila foi a maior, mais ou menos uns 30 minutos, e era para nos revistarem.

Comecei a ficar com uma sede incontrolável e cansado de permanecer de pé. Quando chegou a minha vez, agradeci, novamente, a DEUS por tudo aquilo ter acabado.

Antes, porém, mais imbróglios à frente. A policial que me revistou pediu que eu tirasse tudo. Isto mesmo, TUDO. Ou melhor, quase tudo. O grande problema é que estava com duas blusas de frio, câmera fotográfica, pochete e outras coisas que tive que ir tirando e colocando no detector de metais. Quando estava apenas com uma calça e uma blusa, dei um passo à frente, rumo ao detector de metais para pessoas, mas a policial encostou sua mão na minha barriga e disse: “Y su relojito....”. Pensei: “Não acredito que até isto vou ter que tirar!!”. Desabotoei o relógio de pulso, encaminhei como às outras coisas, lhe dei um sorrisinho e passei.

Ainda tínhamos meia hora na parte internacional do aeroporto. Encontramos um brasileiro já idoso na sala de embarque. Tinha vindo ao Peru sozinho para passear e quando percebi já estava contando sobre sua vida. Quanto mais ele falava, mas eu torcia para que chamassem logo para o embarque. Chamado este que atrasou uns vinte minutos, para meu desespero. Quando, enfim, anunciaram o embarque fui o primeiro a pular para a fila. Logo estaríamos sobrevoando os Andes, com destino ao Rio da Prata.

Mapa do Caminho - Dia 24

Data: 27/06/2007
Saída: Lima, Peru
Chegada: Buenos Aires, Argentina
Distância percorrida no dia: 3.150 km
Empresa aérea: Aerolineas Argentinas
Duração da viagem: pouco mais de 4h
Tarifa: +-R$ 720,00 (de Lima a São Paulo) + taxa de embarque (US$ 30,75)

quinta-feira, junho 26, 2008

Compras em um dia tranquilo

Mesmo gostando muito de viajar, há uma hora que a melhor jornada é para a nossa própria casa. Psicologicamente, a viagem já havia terminado assim que chegamos a Lima e a nossa estada na capital peruana serviu mais como uns dias de descanso do que propriamente uma visita turística. Conhecemos bem Miraflores e as suas atrações, mas Lima é muito grande e sem dúvida deixamos vários lugares para visitar em uma próxima oportunidade.

Era o nosso último dia ‘inteiro’ no Peru. O rapaz do albergue conseguiu nos realocar em um outro pequeno albergue próximo dali, já que ele não havia mais vagas para aquela noite. O nosso novo local de habitação era situado numa rua bem tranqüila, a algumas quadras da av. Larco. Era um lugar bem familiar, com pessoas muito simpáticas. Os quartos eram limpos e o ambiente amistoso. Muito bom.

Almoçamos novamente no Media Naranja. A mulher que nos atendeu acho estranho que no dia anterior uma outra funcionária tinha nos informado que não havia feijão. “O nosso estoque é bem grande e nunca falta”, esclareceu. Aliviados, pudemos degustar novamente mais um PF, que se destacava pelo feijão preto bem cozido.

À tarde já começamos a nos preparar para ir embora. Precisava comprar algumas lembranças para trazer, então fomos a um supermercado lá mesmo em Miraflores. Peguei uma Inka Kola, uma cerveja Cusqueña e um litro de Pisco. Quando fomos passar no caixa, a mulher me questionou sobre uma coisa que não estava no meu escasso vocabulário de espanhol. Como viu que eu não lhe entendia, passou a apontar para a cerveja. Só depois de algum tempo tentando imaginar o que seria é que finalmente caiu à ficha – ela queria um vasilhame, pois a garrafa da Cusqueña era de vidro. Como, certamente, eu não possuía, voltei para dentro e troquei a garrafa por uma lata.

Ao chegar no albergue, lembrei que precisava ir atrás de uma camisa oficial da seleção peruana. Não iria embora feliz sem uma, e tinha, inclusive, encomendas de amigos do Brasil. Fui a uma loja de departamento gigantesca, mas não achei. O vendedor me avisou que a original eu só acharia na loja de esportes do Larcomar. Saí de lá e segui para o shopping. Depois de uma boa caminhada, desci as escadas rolantes e dei de cara com a loja.

Eu sei que era uma terça à tarde e que a maioria dos peruanos deveriam estar trabalhando, mas mesmo assim me assustei com a falta de consumidores. As vendedoras estavam todas reunidas no centro da loja, conversando entre si. Pareceu que a minha entrada foi o acontecimento do dia. Antecipei-me a elas e logo fui perguntando pela camisa da seleção. Uma delas, bem simpática me levou até o cabideiro, onde havia várias camisas alvi-rubras. Peguei três delas nas mãos, me virei e perguntei: “Aceitam cartão de crédito?”. “Sim”, me respondeu sorridente. “Ah, então vou levar estas aqui”, emendei.

Chequei de volta ao albergue no final da tarde. Logo que entrei percebi uma movimentação na sala de televisão e fui lá conferir. Era a estréia do Peru contra o Uruguai na Copa América 2007, disputada na Venezuela. Sentei-me junto aos outros hóspedes para assistir um pouco. Um peruano que trabalhava no albergue estava hipnotizado pela televisão, vibrando a cada lance do jogo. Em toda jogada, do Peru ou do Uruguai, ele não titubeava em soltar um “carajo”. De “carajo” em “carajo” o Peru ia em frente e conseguiu surpreendentemente golear a Celeste por três a zero. Foi emoção para o ano inteiro.

Nos arrumamos e saímos para jantar e aproveitar a noite, praticamente a última antes de voltarmos ao Brasil. Fomos até a famosa Calle de las Pizzas (Rua das Pizzas), uma viela com vários restaurantes e casas de shows. Antes de chegar lá, na rua, várias vans contornavam uma praça buzinando, com torcedores do Peru gritando e exibindo bandeiras para fora das janelas. Pois é, não é só no Brasil que futebol é levado a sério (rs).

Jantamos em um bom restaurante quase no final da rua e depois seguimos para um barzinho brasileiro (outro), bem em frente. Tão bom quanto a comida do Media Naranja foi a caipirinha daquele outro lugar que não me lembro o nome. Forte e doce, do jeito que eu gosto. Para ‘animar’ a freguesia, uma jovem peruana dançava o ‘tcham’. Surpreendi-me com o seu gingado, claro, sem comparações com as brasileiras.

Apesar do bom drink, lá não estava animado, então partimos para um lugar mais agitado. Vale lembrar que na Calle de las Pizzas você não passa desapercebido. Desde o segundo que você entra lá, até ir embora, vários garçons disputam a sua atenção e tentam empurrá-lo para o seu próprio estabelecimento. Entramos em um lugar que era meio danceteria (nós, goianos, chamamos de boate, mas pode haver confusão de acordo com outras ‘culturas’), meio bar. Sentamos em uma mesa e tomamos uns drinks. Pedi um ‘Machu Picchu’, mas não gostei muito. Muito pouco de álcool e muito de um suco vermelho esquisito e enjoativo. Depois de semanas com horário para tudo, foi bom sair para beber sem ter nada marcado para o dia seguinte. A não ser, é claro, o nosso vôo, mas que era só à noite.

Mapa do Caminho - Dia 23

Data: 26/06/2007
Cidade: Lima, Peru

quarta-feira, junho 25, 2008

Andando por Lima Centro

O Peru possui diversas belezas naturais que hoje são exploradas pelo turismo. Contudo, o mais interessante em uma viagem pelo país é a comparação entre a população andina e o povo limeño. Nos altos dos Andes, os peruanos são quase na totalidade descendentes de índios e a maior parte leva uma vida financeiramente complicada pelas dificuldades econômicas da região. Já na capital, a população é caracterizada pelo biótipo europeu, com condições muito melhores por viverem em um grande centro urbano.

Miraflores é o grande exemplo da prosperidade limeña. Possui uma fileira imensa de prédios que acompanham o mar, na parte alta da cidade. Há também grandes avenidas, intenso comércio, grandes hotéis e pomposos cassinos. Isto mesmo, em Lima o jogo é uma atividade lucrativa e bem difundida. Por suas ruas, ‘cambiar’ dinheiro é uma profissão. Assim como em Goiânia há pessoas que ficam com um colete vendendo Sit-Pass (passe de ônibus), lá existem ‘cambistas’ que passam o dia trocando dinheiro a céu aberto.

Depois de uma noite de sono maior e um café da manhã tardio, saímos para andar pelo bairro. Diferentemente de todas as outras cidades que passamos, por lá não dá para visitar toda a cidade a pé, e para nos movermos a outras municipalidades é necessários utilizar os serviços de táxis ou ônibus (as vans também são bem populares).

Fomos almoçar no Media Naranja, o mesmo restaurante brasileiro onde havíamos comido no dia anterior, mas a garçonete nos informou, logo que entramos, que o restaurante estava sem feijão. Frustrados, saímos em busca de um outro lugar. Descemos até o Larcomar para comer e dar mais uma passada no shopping. O que mais de vinte dias longe de um grande centro não faz com a gente?

Voltamos ao albergue para descansar. Disputei um dos dois concorridos computadores no saguão e, pela primeira vez, reuni coragem para ligar o MSN. Vale lembrar que, naquela situação, o acessar do programa e a visualização dos meus contatos é inevitavelmente interpretado pelo cérebro como um começo de transição de volta à rotina. Estava com muita vontade de voltar para casa, mas sem entusiasmo para tornar a encarar o dia-a-dia.

Foi a partir daí que ocorreu uma confusão muito interessante entre nós quatro. Já era ponto passivo entre todos que iríamos visitar o centro de Lima. Para mim e mais uma pessoa o passeio seria naquela tarde, logo após o descanso pós-almoço. Para os outros dois só iríamos lá o dia seguinte. Isto estava tão certo na cabeça de cada um que nem discutimos. Eu deixei a Internet e comecei a conversar com o rapaz do hotel, perguntando qual era a melhor maneira de chegar lá, como fazer, qual linha de ônibus, se compensava pegar um táxi e etc..... Ele disse que com várias pessoas era melhor um táxi e continuou me explicando.

Nisto, os outros três apareceram prontos para sair e caminharam até a porta. Vendo a cena, fui ao encontro deles, ainda conversando com o peruano que me seguiu. Na porta do hotel, que dava para a av. Larco, o rapaz viu todos nós parados e pensou que estávamos pronto para irmos ao centro. Eu também imaginava isto.

O peruano não deu nem chance para qualquer reação, correu em direção à rua e parou um táxi. Eu e mais um entramos, enquanto os outros dois ficaram sem saber o que fazer. Só nesta hora que fui saber que eles iriam sair sim, mas para ir ao supermercado. O tempo era curto, porque o taxista estava fazendo fila dupla no trânsito. Não houve outro jeito a não ser todos nós partirmos para o centro.

O taxista saiu de Miraflores e logo pegou uma larga avenida, tipo uma marginal, e seguiu. Era umas quatro horas da tarde e o trânsito já começava a dar mostras de como se comportaria duas horas mais tarde. Lima Centro, o nome oficial da principal municipalidad de Lima, possui uma arquitetura muito européia, com suas praças grandes, palácios imponentes e catedrais enormes. O Centro Histórico de Lima é tombado como patrimônio histórico da humanidade desde 1988, pela Unesco.

Descemos na Plaza Mayor, local onde se situa o Palácio do Governo, sede do poder executivo peruano e residência oficial do presidente da República. O prédio é muito grande e toma toda a quadra. Possui um jardim médio e um gigantesco portão de ferro para impedir qualquer invasão. Assim como em Brasília, soldados uniformizados ficam à porta do Palácio o dia inteiro, sendo muito mais encarados como peças de ornamentação do que de segurança efetiva.

A praça é muito bonita. É o centro neurálgico da capital, fundada pelo conquistador Francisco Pizarro, em 1535. Durante os anos a praça foi utilizada para muitas funções. Já abrigou desde corridas de touros até execuções dos condenados à morte pelo Tribunal da Santa Inquisição. Também nesta praça ficam situados a Municipalidad de Lima e a Catedral.

Pegando uma rua paralela e andando praticamente um quarteirão chegamos a Plaza San Martín. Contemporânea, construída em 1921, a sua principal atração é um monumento em honra do general José de San Martín, decisivo na independência do país. Nesta praça também há varias construções histórias, tão importantes quanto belas. No centro histórico há vários calçadões que lembram um pouco São Paulo, com muito comércio e uma multidão andando de um lado para o outro.

O tempo passou rápido e quando começou a escurecer voltamos a Miraflores. Desta vez diversificamos e ao invés de descer a av. Larco até o mar, ou até o Larcomar, subimos até uma praça grande. Lá havia um McDonalds e, é claro, não poderíamos comemorar mais de vinte dias sem os prazeres das grandes cidades sem deixar marcas no mais famoso restaurante fast-food do mundo. Pedi um Quarteirão com Queijo, que lá se chama Cuarto de Libra con Quesso.

Na saída tive uma emoção intensa ao ver uma loja do Dunkin´ Donuts. Responsável pelas rosquinhas mais famosas do mundo, o Dunkin´ Donuts esteve presente durante muito tempo em Goiânia, quando eu virei freguês. Infelizmente, com o passar dos anos, o movimento decaiu e a loja fechou, não só na capital goiana como em todo o Brasil. Imagina como fiquei ao encontrar uma bem na minha frente, em Lima, há 4.500 km de casa?

Não deu outra, foi escala obrigatória depois do lanche. Não deixei a oportunidade escapar e comi várias rosquinhas (não pensem bobeira, hein? rs.). O local, na verdade, era um café muito agradável, com sofás, revistas e jornais. Uma das muitas surpresas que a capital dos peruanos ainda nos brindaria até a nossa partida de volta para casa.

Mapa do Caminho - Dia 22

Data: 25/06/2007
Cidade: Lima, Peru

terça-feira, junho 24, 2008

De volta à vida urbana

Acordei às sete da manhã e notei que estávamos parado. Do lado de fora do ônibus, três pessoas conversavam em círculo, todas com os braços cruzados e os músculos contraídos por causa do frio. Olhei ao redor, e observei um letreiro que anunciava: “Rodoviária de Nazca”. Enfim, já estávamos na famosa cidade vizinha às Linhas de mesmo nome. ‘Las Lineas de Nazca’ (As linhas de Nazca) são gigantescos desenhos de origem desconhecida que podem ser visto por meio de um vôo baixo pela região. Infelizmente não tivemos tempo para parar naquela cidade, mas quis o destino que eu, pelo menos, guardasse uma imagem do lugar.

Logo que o ônibus voltou a rodar, caí novamente no sono. Quando acordei já estávamos numa estrada de pista dupla, o que significava que nos aproximávamos de Lima. O cenário era incrível – com exceção do mar, ao lado esquerdo, tudo ao redor se resumia a areia. A paisagem parecia meio opaca, já que o céu insistia em permanecer nublado e os poucos raios de sol que rompiam a barreira de nuvens tentavam colorir os elementos.

Foi mais ou menos neste instante que a rodo-moça nos serviu o café da manhã. Logo em seguida, o tradicional bingo da Cruz del Sur, valendo uma passagem de Lima para Arequipa. Da mesma forma que na viagem anterior, ninguém de nós conseguiu fechar a cartela. Desta vez eu fui pior ainda. Vale lembrar, de novo, que de nada valeria esta passagem já que deixaríamos o país por vias aéreas dali a três dias.

Fiquei sentado no banco, vendo a rodovia e comemorando o fato de ser nossa última viagem de ônibus. Nem percebi quando a areia ao lado foi se transformando em casas e, depois, prédios indicando que já entrávamos na capital peruana. Não demorou e o ônibus pegou uma grande via expressa e seguiu em frente. Em poucos minutos, entrou em um terminal privado da própria empresa. Um passageiro, que conversava com a Lucimeire, nos alertou que era melhor descermos ali, ao invés da rodoviária, já que íamos para o bairro de Miraflores. Assim foi feito.

Depois de 21 dias tínhamos o prazer de chegar em uma grande cidade de fato. Lima tem aproximadamente oito milhões de pessoas, isto sem contar ‘El Callao’, uma ‘cidade’ conurbada com a capital e que possui quase um milhão de habitantes. As aspas na palavra cidade é porque Lima, na verdade, é o resultado de união de várias localidades que possui uma definição política entre ‘cidade’ e ‘bairro’. Explico. Lima é uma cidade sub-dividida em várias regiões chamadas de ‘municipalidades’. Podemos encarar cada uma delas como bairros, mas com algumas diferenças em relação as cidade brasileiras. Lá cada municipalidad tem a sua própria prefeitura. Mesmo assim, estas regiões não chegam a ser cidades, já que os ‘alcades’ ou ‘prefeitos’ não possuem autonomia e precisam se reportar a Municipalidad Metropolitana de Lima, que coordena toda a região metropolitana.

É muito interessante ver isto na prática. Assim como na teoria, as municipalidades são muito diferentes dos bairros das cidades brasileiras. As características próprias de cada uma são perceptíveis. Por exemplo, no Brasil você não percebe quando está mudando de um bairro para o outro. Lá tal distração é impossível. Isto porque quando você troca de municipalidade tudo muda – a cor do meio-fio, as placas em cada esquina, os tipos de jardins e etc... Além disto, toda divisão de municipalidad é muito bem sinalizada por meio de grandes letreiros, informando onde você está entrando.

Callao também é uma municipalidad, mas possui uma peculiaridade. Localizada nos limítrofes norte da capital, a cidade tem autonomia política de Lima. É em Callao que ficam as principais plataformas logísticas do Peru. O seu porto é o mais antigo das Américas e serviu como importante meio para o transporte das riquezas dos Incas a Europa. Hoje, Callao também é sede do principal aeroporto do Peru, o Internacional Jorge Chávez.

Como já disse, íamos para Miraflores, a municipalidad mais rica e famosa de Lima. A maioria dos restaurantes, hotéis, shoppings, cassinos, e outros lugares de diversão estão sediados lá. Conseqüentemente, Miraflores também tem bons albergues. De imediato fomos em um indicado por um costariqueño que conhecemos na Bolívia. Logo na entrada deu para ver que não era uma boa, já que a sua desorganização e falta de limpeza se destacavam. Além disto, eles não possuíam quartos ou banheiros privados. Como estávamos em quatro, para nós não compensava ficar lá já que poderíamos arrumar um lugar melhor por praticamente o mesmo preço. Deixamos nossa bagagem lá e saímos com a intenção de procurar outro.

Antes, porém, precisávamos almoçar. Foi então que agradeci a DEUS por estar em uma cidade cosmopolita. Em uma praça pertinho de onde estávamos, um grande cartaz anunciava “feijoada brasileira” a apenas uma rua de distância. Quase chorei ao ver aquilo, já que não comia bem há muito tempo. Ou melhor, a comida tanto da Bolívia quanto do Peru não é ruim, mas é diferente da nossa e eu estava enjoado de qualquer coisa que não fosse arroz e feijão.

Entramos no restaurante e logo vimos que era cheio de estereótipos brasileiros, com cartazes de morenas, praias do Rio de Janeiro, Cristo Redentor, e etc... Para mim isto não importava, pois estava com o foco voltado para a ‘bóia’. A feijoada era muito cara e tive medo de estragar o meu inconstante estômago. Assim, pedimos todos um PF, que vinha arroz, feijão preto, bife, ovo frito e farinha. Não há palavras para relatar a nossa emoção quando colocamos a primeira garfada na boca.

Com a barriga cheia em grande estilo, fomos procurar outro albergue. Na avenida Larco, a principal de Miraflores, havia algumas opções. Logo na primeira tentativa notei que não iríamos ficar no primeiro albergue, já que este aparentava ser muito melhor. O rapaz da recepção, muito esforçado e simpático, lamentou por não ter vagas para os três dias, mas garantiu que poderíamos ficar duas noites lá e que, depois, nos arranjaria outro albergue bom e barato. Foi o suficiente para a gente aceitar. O problema, então, foi voltar e dizer para o cara do outro albergue que não iríamos ficar lá. Sobrou para o bobão aqui enfrentar o peruano (rs).

Precisamente naquele momento, o nosso albergue tinha um problema que nos impedia de tirar um cochilo antes de sair para conhecer a cidade. Desde que pusemos o pé lá, o cheiro forte de detetização dominava o ambiente. O rapaz aconselhou a gente guardar as nossas coisas no quarto e ficarmos algumas horas na rua.

A minha vontade de descansar no início da tarde era grande, mas me contentei em ir até a costa ver o mar mais de perto. Saímos e caminhamos as dez quadras (mais ou menos) até lá. Todos estávamos com muita expectativa. Também fomos avisados que ali, bem ao lado do mar, havia um grande shopping center chamado Larcomar. Quando, enfim, chegamos ao final da avenida Larco tivemos uma pequena decepção. Para ter contato com o mar era necessário descer uns 30 metros, já que a praia ficava bem abaixo do restante da cidade, em um barranco.

Mesmo sem a altitude, os vários dias de viagem já me pesavam as costas. É claro, porém, que não deixaríamos de descer e conferir o mar de perto. Descemos uma avenida grande, que fazia o contorno por trás do barranco e descia até lá embaixo. Após meia hora de caminhada, atravessamos uma outra avenida, que contorna a parte baixa do litoral, e chegamos finalmente ao mar.

É bom enfatizar que havíamos chegado no mar, e não à praia. Mesmo porque não havia praia. A areia era mínima e as pedras pontudas dominavam a área, muito antes de onde morriam as ondas mais fortes. Além disto, o tempo nublado e o pouco de frio que fazia era suficiente para espantar qualquer pessoa dali, com exceção de alguns surfistas. Tivemos que fazer um malabarismo para ter contato com a água do mar.

Depois de uma boa caminhada pela costa, veio à hora de subir novamente para a parte alta. Não conheço Salvador, mas que falta faz, nestas horas, um elevador Lacerda. Desta vez fomos mais espertos e usamos uma escada construída, tipo passarela, para voltar. O esforço, contudo, não foi menor, e toda aquela caminhada fez com que pensássemos duas vezes antes de descer novamente até o mar. Mesmo porque se não dava para entrar, era melhor olhar de longe.

À noite decidimos conhecer o Larcomar e aproveitar para jantar. O detalhe interessante é que o shopping fica no final da avenida Larco, mas quem chega lá pensa que errou o lugar. Aconteceu conosco, já que não percebemos logo de cara que o shopping, na verdade, foi construído no meio do barranco, entre a parte alta e a baixa. Desta forma, ele fica inteiramente abaixo do nível da cidade. No local indicado pelo mapa há apenas as escadas rolantes que conduzem as pessoas para dentro do shopping.

A sua construção, porém, vale a visita. Totalmente aberto, o shopping é um local agradabilíssimo, tanto para fazer compras, comer, ou apenas ficar olhando as ondas do mar. A emoção veio à tona, novamente, quando chegamos na equipada praça de alimentação. Não deu outra, escolhi comer no Burger King. Apesar de toda a carga cultural que ganhamos nos últimos 21 dias, era muito bom estar diante de algo familiar.

Na volta ainda passamos em um bar que tinha como tema o futebol, com várias camisas expostas nas paredes e televisões passando programas esportivos em um ambiente bem agradável de pub. Local perfeito para brindarmos a chegada ao ponto derradeiro de nossa jornada.

Mapa do Caminho - Dia 21

Data: 24/06/2007
Cidade: Lima, Peru

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