domingo, junho 08, 2008

No meio do deserto

Talvez fosse o cansaço, ou o costume da nossa mente de insistir em se acostumar com a situação, o certo que já confiávamos mais nos serviços bolivianos. A prova era que, desta vez, despachamos a nossa bagagem no ônibus que tomamos para Oruro.Confesso que com a mão no coração, e com toda atenção para ver se ninguém iria mexer nelas antes do tempo.

Saímos de Cochabamba sabendo que seria mais quatro horas de subida. O detalhe era que, pela primeira vez, a viagem não se estenderia pela noite. Eu estava muito feliz por isto, já visualizando a minha caminha em Oruro. O meu cochilo matinal me deu forças e pude desfrutar a viagem de ônibus, sem me emergir em um sono obrigatório.

A noite caiu logo, o filminho tradicional começou e mais uma vez não deu para ficar observando os detalhes da estrada e das cidades que passávamos. Não demorou muito para que a estrada se acentuasse, e o que era alto ficou mais. Desta vez a nossa referência era Cochabamba, já que a subida da serra ficava perto da cidade. Era subida, curva, subida, curva, subida, e lá estavam as luzes da cidade, cada vez mais embaixo e distante.

Soroche. A partir deste momento o mal da altitude passou a fazer parte de nossas preocupações, até o último dia de viagem. Vou tentar explicar como funciona, de leigo para os possíveis leigos.

Cada vez que a gente sobe o ar fica rarefeito, ou seja, com menos oxigênio. Nosso organismo é acostumado com o nível de oxigênio do ar que respiramos na cidade em que moramos. Goiânia é aproximadamente 750 metros acima do nível do mar. Percebe-se que muito mais baixo que Oruro (cerca de 3.800 metros). Assim, quando saímos de uma região baixa, as nossas células estão carregadas de oxigênio, mas quando chegamos em um lugar alto a reposição não é efetiva. Pelo menos até que seu corpo acostume com a nova situação. Ou seja, dentro de alguns dias você vai começar a sentir os sintomas do soroche.

É claro que cada corpo reage de uma forma. Esta é uma regra geral. Tanto que os times de futebol, quando vão jogar na altitude, permanecem em uma cidade baixa até momentos antes da partida, para não sentir efeitos que possam debilitar os jogadores. Mas é claro que desde o primeiro minuto em uma região alta, qualquer pessoa já começa sentir as diferenças, mesmo que estas, a priori, não tenha interferência imediata na condição física.

Quando você ultrapassa os três mil metros, é inevitável sentir um maior cansaço resultante de qualquer esforço físico. Naquela noite descobrimos como era isto. O ônibus continuava subindo, e eu estava sentado com a cabeça escorada normalmente no encosto, na posição normal. Estava quase cochilando, quando senti que o ar não veio como deveria. A sensação não foi ruim, muito menos desesperadora (como muitos podem até pensar), mas diferente e com um pequeno desconforto. É claro que acordei do pseudo-sono e percebi que já estava mais alto do que o normal aceito pelo meu corpo.

Tive esta sensação duas vezes. Nas duas estava tentando dormir. Não tive mais durante toda a jornada. Acredito que foi apenas uma experiência de quem acabava de apresentar ao seu corpo uma situação diferente, de pouco oxigênio. Vale lembrar que, em estado de repouso, não há a mínima dificuldade de respiração. É a mesma coisa que estar respirando em casa. Reforço que não sou médico, e este é um relato de experiência prática. Quem quiser saber mais sobre o assunto, sugiro conversar com algum profissional de saúde, ou ler algum livro dedicado ao mal da altitude.

Durante a viagem até Oruro, passamos dos quatro mil metros. A última vez que vi Cochabamba, me lembro bem, a cidade parecia estar em câmera lenta, como na primeira experiência em subir a Cordilheira dos Andes. Era sinal de que estávamos muito alto em relação à cidade. A partir daí a estrada ficou mais plana, e rumamos para Oruro, de uma vez por todas. Me lembro quando o ônibus mudou de rumo em um trevo, já que, para Oruro, é necessário sair da estrada principal, que vai até La Paz, e pegar uma secundária. Faltava menos de uma hora para desembarcarmos.

Oruro apareceu logo, iluminada. Apesar de ser uma das principais cidades da Bolívia, é muito pobre. Isto foi instantaneamente perceptível, ao ver suas casas e ruas. A partir de Oruro, para o sul, a região é marcada pela forte atividade mineradora. Na cidade é comum dar de cara com várias casas de jóias e minérios. A partir de Oruro, se estende o caminho para Sucre e Potosí, as capitais bolivianas da mineração.

Saímos da rodoviária, já eram mais de dez horas da noite. Com a altitude veio também o frio intenso durante a noite. Rapidamente, procuramos um táxi com o nome do nosso próximo albergue nas mãos. Perguntamos ao primeiro que apareceu, se sabia onde era. Coçou a cabeça e se mostrou confuso. Tive que desmontar parte da minha mochila e pegar o roteiro, que continha o endereço completo. Quando viu o nome da ‘calle’, ele não titubeou. “Ah, esta rua é aquela”, apontou. Olhamos surpresos e vimos a entrada do nosso albergue bem ali, na nossa frente.

Que sorte, economizamos no táxi e no tempo, já que todos estávamos muito interessados em dormir. Adianto que este foi o melhor albergue de toda a viagem, sem dúvida. O curioso é que foi em uma das cidades mais pobres e feias que passamos. Pelo albergue, lamento que ficamos lá apenas uma noite.

O diferencial já era percebido desde a entrada. Todos os atendentes eram muito simpáticos e fizeram de tudo para serem agradáveis. O ambiente do hotel era muito bom. O saguão era todo decorado no tom madeira, e muito aconchegante. Nos quartos predominava o branco. Eram muito limpos e bem conservados. Perguntamos se havia algum lugar para comer, e eles se prontificaram a preparar um lanche e levar no nosso quarto. Um espetáculo.

Foi um momento de sonhos. Após dias, iríamos passar a noite dormindo na cama. O lanche chegou e era de primeiríssima qualidade. Sanduíche com leite quentinho. Muito gostoso. Inesquecível. Enfim, um pouco de conforto.

Sabe o que mais dava mais raiva nesta viagem? Ter que acordar todos os dias bem cedo. Além disto, a manhã de sexta, 8, estava bem gelada em Oruro. Às sete horas da matina já estava bem acordado, mas não conseguia deixar as cobertas. Era a hora de tomar coragem e agir por impulso.

Tínhamos que chegar bem cedo na estação de trem para comprar as passagens para Uyuni. Finalmente estávamos muito perto de chegar ao destino principal da primeira parte da jornada. Tomamos café (dispensei novamente o chá de coca), e pé na estrada, digo na rua. Nos informamos no saguão e descobrimos que a estação não ficava muito longe. Caminhar era o ideal para conhecer a cidade.

No caminho, chegamos em uma rua pitoresca. Ela era meio deserta, com muros beges nas duas margens e com poucas lojas. Era comprida, e tínhamos que ir até o final. No meio do caminho, duas vans (meio de transporte muito comum na Bolívia), se chocaram bem ao nosso testemunho. Uma descia em uma rua concorrente e acertou uma que passava um pouco atrás de nós. Paramos e ficamos esperando o ‘combate’. Os motoristas saíram do carro e, pela nossa total surpresa, se cumprimentaram e começaram conversar civilizadamente, como melhores amigos. É.

Não demoramos muito para chegar à estação, mesmo que a distância não fosse tão pequena como imaginava. No caminho, vi que meu pique já era inadequado à situação. Acostumado a andar rápido, tive que me conter várias vezes, com risco de ter que parar no meio para respirar. Era a altitude atormentando.

Os guichês de venda ainda não estavam abertos, mas muitas pessoas já faziam fila para comprar passagens. Assim como em vários estabelecimentos no Brasil, na estação de Oruro você pode pegar uma senha e esperar a sua vez sentado. Demorou quase uma hora até que começassem a emitir as passagens e que fossemos chamados. Compramos o bilhete para as três e meia da tarde, na classe intermediária.

Depois disto não tínhamos mais nenhum ‘compromisso’. Sobraram algumas horas para podermos explorar a cidade. O frio já se dissipava à medida que o sol ia tomando a posição central no céu. Prevenido, pensei em reduzir o sofrimento do dia seguinte e fui comprar um par de luvas. Chegando na loja, lembrei que não sabia dizer ‘luvas’ em español. O problema que já estava no meio da conversa com o vendedor. Em outras ocasiões, eu morreria de vergonha. Contudo, já há alguns dias tendo que conviver com aquela língua, não relutei. “Yo necessito ‘luvas’”, disse fazendo gestos. O rapaz olhou, pensou um pouco e disse: “Ah, sí, guantes!”. Nunca mais esqueci.

Fomos para o centro atrás de dinheiro. Ou melhor, ‘cambiar’ dinheiro. O problema foi que não achamos lojas de cambio tão facilmente como em Santa Cruz. Particularmente já estava cansado de andar. Naquela hora, já aproximávamos do meio-dia, o sol era escaldante, e a altitude atrapalhava. Subimos por uma rua movimentada, passamos ao lado de uma praça, onde alguém nos indicou um banco. Entramos e vimos que estava saindo gente pela janela. Meu humor já estava no fim e, diferente dos outros, preferi continuar procurando.

Saí sozinho e comecei passear pela cidade. Era uma situação nova, efetivamente a primeira vez que estava sozinho, já que fazíamos tudo em grupo. No início, me senti um pouco vulnerável, mas logo me acostumei.

Comecei a mirar as lojas para ver quem poderia fazer cambio. Passei pela rua de cima da praça e desci uma paralela. Logo encontrei uma loja da Western Union. Como eu sabia que ali se faz transações monetárias internacionais, experimentei. “Bom dia, vocês fazem cambio”, perguntei a uma moça que estava atrás do balcão. “Quanto?”, perguntou. “Uns X dólares (não me lembro, mas não era muito)”, respondi. Ela pensou um pouco, abriu o caixa, checou o dinheiro e disse: “Ah, tudo bem”. Não acreditava. Sem filas. Que maravilha.

Voltei ao albergue. Como não estava com o restante do grupo e já era tarde, decidi ir almoçar sozinho. Perguntei no saguão onde havia um restaurante. Eles me indicaram um logo na esquina. Cheguei, entrei e vi que só havia uma pessoa comendo. Fiquei me questionando se era uma boa idéia. Acabei indo com a cara do local e sentei.

O garçom, muito sorridente, logo me entregou o cardápio, mas demorei a me decidir. Em todos os pratos parecia que vinha muita comida, e minha fome não era tanta assim. Acabei me decidindo por um prato chamado ‘Lomo Saltado’, feito com pedacinhos de carne de porco, vegetais cortados e batatas fritas, tudo junto. E não é que já estava imaginando? Chegou um prato gigantesco de comida, por apenas Bs. 18 (R$ 5). Estava gostoso, bem que tentei, mas não consegui comer tudo. Saí de lá suspeitando que o garçom havia achado que não gostei da comida.

Com tudo pronto, pegamos um táxi e voltamos à estação. Preferimos não despachar nossas mochilas (de ônibus é uma coisa, a gente vê onde eles colocam, agora trem não dá segurança). Tomamos os nossos postos e pronto, era só o maquinista tocar. Soltaram os freio, e o trem começou a andar devagarzinho. Pensei que, em poucos minutos, eles acelerariam, mas não foi o que aconteceu. O trem já estava na sua velocidade final.

Foi uma experiência inesquecível - viajar a 50 km/h. Ele balançava de um lado para outro, fazia uns 30 barulhos diferente, mas não aumentava a velocidade. Tanto que para percorrer uma distância de pouco mais de 300 km, demoramos sete horas. O pior é que, com o passar das horas, as minhas costas começou a doer. O banco não era ruim, mas também não era confortável. O calor era grande. É preciso dizer que foram horas desagradáveis?

Logo deixamos Oruro para trás. Assim que saímos, testemunhamos algo interessante. Aos poucos, junto aos trilhos, começou a se formar um pequeno lago, que foi aumentando com o passar do tempo. Logo dominou tudo e a impressão que tivemos era de estar andando de trem no meio de um rio. A água refletia o céu inteiramente azul. O fenômeno era muito bonito.

Porém, logo acabou a água e o que ficou foi muita poeira, de uma paisagem cada vez mais desértica. Esta região é muito árida, só faltando os camelos e a areia para se tornar o emblemático deserto contido no imaginário de todo o brasileiro. Ali também era muito plano. Olha, que estou falando de mais plano que Goiânia, Brasília e o Planalto Central brasileiro. Interessante como uma região tão alta e montanhosa pode ter o horizonte tão nivelado.

Nem mesmo a oportunidade de viajar de dia e acompanhar as paisagens bolivianas me animou. O cenário era um tédio. O trem ia muito devagar. Mais uma vez tive que agüentar um filme chato na cabeça. A primeira cidade era Uyuni, ou seja, não havia nada de diferente para ver. Em quarenta minutos já havia decorado cada detalhe da região. Em três horas queria me ver livre dali. Só que tive que esperar mais quatro, com minhas costas ardendo e o tédio me matando, para, finalmente, aportar em Uyuni.

Mapa do Caminho - Dia 6

Data: 08/06/2007
Saída: Oruro, Bolívia
Chegada: Uyuni, Bolívia
Distância percorrida no dia: 353 km
Empresa de trem: FCA
Duração da viagem: +- 7h
Tarifa: Bs. 52 (+- R$ 14,65 à época)

sábado, junho 07, 2008

Fadigado

Não demorou muito para descobrir que viajar de ônibus pela Bolívia é tão seguro quanto em qualquer país sulamericano, inclusive o Brasil. No dia da viagem a Cochabamba, porém, ainda não estava certo disto. Foi assim que relutamos em despachar nossas mochilas no bagageiro do ônibus, e as levamos para dentro, junto conosco.

Descobri também que viajar em um ônibus de dois andares tem apenas a diferença de precisar subir as escadas, no caso da sua poltrona ficar no segundo andar. Era este o caso, então subimos em fila indiana, cada um com a sua respectiva mochila. Chegando na nossa poltrona, percebemos que seria inútil tentar espremê-las no compartimento de bagagem de mão. Como levaríamos mochilas tão volumosas dentro daquele ônibus?

Já que nossos lugares eram quase os últimos do ônibus, e no segundo andar não havia banheiro, atrás da última poltrona havia um espaço livre, suficiente para lotarmos com a nossa bagagem. Não pensamos duas vezes, descarregamos a carga e assumimos os nossos postos. O problema é que o primeiro banco imediatamente depois deste espaço não era nosso, e sim de uma velhinha boliviana. E é claro que esta senhora estava com vontade de deitar o seu encosto para dormir. Não conseguiu por causa das nossas mochilas.

Eu não entendi uma palavra do que ela dizia, já que falava para dentro e bem baixo. Hora nenhuma ela se queixou com a gente, mas ficava apertando o botão do banco e pressionando o encosto para deitar. Obviamente não iríamos ignorá-la. Levantei e tirei as mochilas detrás para que ela pudesse se acomodar. O problema voltou a ser onde colocar as benditas. Demorou uns dez minutos para conseguir chegar na única configuração de disposição da bagagem que poderia acomodar tudo sem incomodar ninguém.

O ônibus começou a se mover, e mais uma vez me veio à sensação de alegria. Apesar da minha garganta ainda não ter sarado - pensei bem, resolvi não dar bobeira e passei a tomar logo uns antibióticos que havia levado -, saber que à algumas horas eu estaria subindo os Andes era mais do que suficiente para me animar. Além disto, estávamos deixando aquela confusa estação para trás e havia dado tudo certo com a companhia de ônibus escolhida.

Nas disposições de lugar, havia ficado com uma poltrona de corredor. Nada mais do que justo, já que ocupei posições próximas à janela em todos os trechos, desde Goiânia. Contudo, o subir da cordilheira era um dos pontos altos da viagem, na minha opinião. Esperava muito por isto. Então, segui viagem bem atento.

Logo percebi que não era o fato de estar no corredor que iria prejudicar a minha visão, mas sim o filme que eles haviam ligado para os passageiros assistirem. Todos os ônibus que pegamos à noite na Bolívia faziam questão de passar filmes até onze horas, ou meia-noite. A verdade é que geralmente eram filmes sofríveis. Em todos os casos, a luminosidade da televisão refletia na janela e impedia que as pessoas de dentro visualizassem o que se passava fora. Um estorvo para pessoas que, como eu, estava muito mais interessadas em ver a Bolívia do que qualquer filme que eles pudessem passar naquele momento.

Como eu sou insistente, fui tentando acompanhar o nosso trajeto. Logo percebi que havíamos tomado a estrada para o norte, e permaneceríamos nesta direção até Monteiro, quando mudaríamos para o oeste até Vila Tunari, onde 'atacaríamos' a cordilheira de uma vez, já próximo a Cochabamba. Vale lembrar que há uma outra estrada (acredito que mais velha) que é mais direta; ao invés de ir para o norte, desde Santa Cruz ela segue para o oeste, chega na cordilheira mais cedo e passa mais tempo subindo e descendo montanhas.

Como notei que demoraria um pouco até Vila Tunari, tratei de relaxar. Apesar do grande cansaço que já me abatia, a excitação me impediu que dormisse. Sabia que teria um outro longo dia logo mais, e isto era o que mais me preocupava. Contudo, nada me convencia a desistir de ver o início da cordilheira, e cada vez mais lamentava por não ter planejado fazer este trecho de dia.

Algumas horas se passaram, e os Andes se aproximavam. Tentava perceber alguma modificação no relevo, mas a noite atrapalhava. À aquela altura o filme já havia terminado, e tudo estava escuro. Assim, não percebi onde estava quando chegamos a Vila Tunari. Mais tarde, quando já estava de volta a Goiânia, pesquisei sobre esta cidade e vi que havíamos passado em um lugar maravilhoso. Tunari na verdade é uma vila que fica no meio de uma mata com a Cordilheira dos Andes ao fundo. Sem palavras.

Não demorou muito quando notei que a estrada já não estava tão plana. Subimos um pouco, e logo depois descemos por um terreno íngreme até cruzarmos um rio. Foi então que percebí que aproximávamos de algo grande. Indiscritível mesmo foi dar de cara com um paredão, que só podia ser percebido já muito próximo de nós, e que só era visualizado pelo contraste, já que a sua tonalidade escura, à noite, era mais escura que o céu. Ao longo desde 'paredão' havia pequenas luzes amarelas em movimento, seguindo uma às outras como se fosse uma trilha. Esta 'trilha' desenhava uma reta diagonal no 'paredão' de pontinhos que não paravam. Era o caminho por onde iríamos passar no primeiro contato com os Andes.

Quando começamos a subir de fato, a visualização ficou tão mais interessante, quanto difícil. A estrada se transformou em um constante 'sobe-e-vira'. A cada virada, podíamos perceber que a trilha de pontinhos amarelos se dividia em duas: uma podia ser vista olhando para baixo, acompanhando a posição que acabávamos de passar, a outra seguia em frente, insistindo em continuar subindo na diagonal.

Quanto mais subíamos, mais tínhamos que subir. O que impressionava, realmente, era o tamanho daquilo e também o fato de que, mesmo depois de dezenas de minutos desde o início da subida, ainda podíamos ver o ponto inicial, quando a estrada vira uma plataforma cordilheira acima. Às vezes este ponto inicial sumia, já que dependia das curvas que o ônibus fazia, mas quando a visão dele voltava estava ainda mais baixo do que no último contato. Até que, de repente, a movimentação dos objetos na parte de baixo da montanha começou a ficar mais devagar, como uma verdadeira câmera lenta. Foi aí que notei que devíamos estar realmente muito alto.

A janela do ônibus era para mim verdadeiramente como um forno de frango para um cachorro faminto. O detalhe é que, como estava no corredor, ficava me debruçando sobre o Rodrigo, que dormia. Aliás, logo no início, ele acordou e acompanhou comigo uma boa parte da nossa escalada. Como esta era uma parte muito puxada da jornada, porém, ele voltou a dormir antes de mim. Mesmo com a taxa de emoção acima da média, o tempo foi passando e o sono chegou com tudo. Satisfeito, não me sobrou outra coisa a não ser dormir.

Abri os olhos e já era de dia. As casas de Cochabamba já passam ao meu lado muito antes de conseguir perceber onde estava. Meu cérebro estava embriagado pela fadiga, e meu corpo pedia uma boa noite de sono. Vamos recapitular: desde que havia deixado Goiânia, só havia dormido bem no albergue de Corumbá. Todas as outras noites passamos viajando. Até aquele momento, haviam sido 50 horas de estrada em três dias e meio, ou seja, em 84 horas. Eu precisa, urgentemente, de descanso.

Foi aí que percebi que não haveria outra saída, seriamos escravos do nosso próprio roteiro. Apesar da mobilidade de datas e destinos ter sido um dos meus objetivos, quando planejei aquela viagem, o roteiro havia ficado engessado. Precisávamos continuar firme no caminho, ou não chegaríamos a Uyuni a tempo do nosso passeio. O problema é que não aguentava mais pensar em ônibus, trem ou qualquer meio de transporte, e já tínhamos uma outra viagem marcada para à noite.

É difícil passar exatamente o que senti naquele dia, principalmente para uma pessoa que não estava lá com a gente. Vou tentar explicar. Quando a gente escreve contando uma viagem, só relatamos a parte interessante. Por razões óbvias, omitimos a parte burocrática, que só vivemos quando estamos no meio de uma jornada. Este fato atrapalha demais o planejamento de uma viagem, principalmente os novatos, já que, ao ler a narração de uma extensa jornada, a pessoa não percebe que em um roteiro apertado se cria uma rotina tão insuportável quanto qualquer semana de trabalho duro.

Esta rotina começa na hora de viajar por um trecho. Você pega as suas coisas, coloca na mala, arruma tudo certinho e checa um milhão de vezes para ver se não ficou nada no albergue. Já no saguão, você fecha a conta, pega a calculadora, faz as inúmeras conversões de moedas e paga. Sai, chama um táxi, pechincha o preço até a rodoviária. Lá, fica em dúvida na hora de escolher a melhor opção de companhia de ônibus, chega no atendente, pechincha o preço e paga. Quando se está em grupo, lembre-se que o rapaz não vai querer cobrar individualmente as passagens, o que gera uma dor de cabeça para acertar tudo depois entre todos. Vai, compra o bilhete de taxa de embarque (que na Bolívia e no Peru são vendidos separadamente). Com a mochila nas costas, você espera o seu ônibus, apresenta passagem e passaporte para o embarque (que muitas vezes está bem no fundo da sua pochete lotada). Chegando no local, você desce do ônibus, procura um táxi, pega o roteiro que muitas vezes está bem no fundo de uma mochila (impossível se organizar constantemente em uma viagem como esta), pechincha o táxi e explica onde você vai. Chegando no albergue, você pechincha o albergue, sobe até os quartos (fator de dificuldade: mal da altitude) abre a sua mochila, praticamente a desfaz para achar roupas limpas e todos os apetrechos para o banho. Toma banho, espera todo mundo, sai, almoça, anda pela cidade. A tarde, chega no albergue e é hora de arrumar tudo de novo e se mandar.

Multiplique isto por quatro, é mais ou menos o que a gente estava passando. Esta rotina estressa. Chega uma hora que você não aguenta mais abrir e fechar a mochila, não quer mais saber de subir em ônibus, não suporta mais ter que pechinchar e tão pouco pegar táxis. Ainda há outro fator de estresse: você não dormiu direito nas últimas quatro noites. E outro: quando está em grupo nem sempre a sua vontade prevalece e você precisa se adaptar aos costumes e ritmos dos outros companheiros. Desta forma cheguei a uma conclusão: precisava jogar tudo para o alto e descansar.

Descemos na rodoviária e fomos para o albergue que estava indicado no roteiro. Chegando lá, nem tentei pechinchar embasado no fato de que não passaríamos a noite, apenas queria saber se tinha alguma cama livre. A mulher da recepção disse que poderíamos tomar o café-da-manhã, já que não iríamos ficar até o outro dia. Que bom, pelo menos uma vantagem. Mal saberia nós que o café não estava incluso na diária (rs). A sala de café ficava no último andar. Subimos de elevador até o penúltimo, já que para lá só de escadas mesmo.

O assunto era o soroche, ou mal da altitude. Estávamos a 2.400 metros acima do nível do mar, mas até então não sentia nada diferente. Sentamos a mesa, mas não vimos comida alguma. Achamos estranho, principalmente porque éramos os únicos na sala. Depois de alguns minutos pensando que não havia café, eis que surge uma mulher perguntando o que a gente ia querer. Era uma opção de bebida, e outra de pão, mais algumas cositas. Nada muito farto. Foi quando deu saudades daqueles buffês de café-da-manhã dos hoteis brasileiros.

Foi a nossa primeira oportunidade de tomar o famoso e polêmico chá de coca. A garçonete, que também era a cozinheira, nos deu a escolha, só que ninguém quis. Estava cansado demais para pensar se queria, ou não, experimentar naquele momento.

Fim do café, finalmente hora do sono. Cochabamba? Sim, queria MUITO conhecer cada beco, mas cuidar da fadiga era prioridade. Lembro-me a resposta positiva de cada músculo quando me deitei. Era a melhor cama do mundo. Nem a claridade me tirou o ânimo de prosseguir com a minha soneca. Adormeci.

Dormir de dia não era o ideal. Acordei umas duas vezes durante o sono. Na primeira, me lembro de ver o Rodrigo fazendo anotações da viagem. Pensei: "Como ele consegue ficar acordad..... zzzzzz". Na segunda, me surpreendi com a versão em espanhol de "Os Padrinhos Mágicos", que passava na televisão.

Quando o Rodrigo me acordou já era próximo a uma da tarde. Lamentei não continuar, mas precisava tocar a jornada. Saímos eu, ele e a Lorena para almoçar, não me lembro onde. Ao passar pelas ruas, notei que Cochabamba não era tão mal como já havia ouvido falar. Era tranquila e, de certa forma, alegre. No meio da reflexão, optamos por fazer um passeio - subir até o Cristo de la Concordia.

A população de Cochabamba tem orgulho deste Cristo. Isto porque, segundo eles, é a maior estátua do Cristo de todo o mundo. Maior, inclusive, da famosa moradora do Corcovado. Só que para conhecê-la, precisávamos subir uma pequena (grande, na verdade) montanha. Podíamos pegar um táxi, subir as centenas de degraus ou (a melhor opção) ir de teleférico. Temia por este momento, já que tenho medo de altura. Porém, como já é costume desafiar este medo, acabei topando.

Não poderia ter tomado decisão melhor. Foi um passeio maravilhoso. Até a subida e descida do teleférico foi ótima. Tiramos várias fotos no alto da montanha. Lá tem uma vista maravilhosa da cidade, que é grande. Dá para ter noção também que Cochabamba fica em um ponto intermediário do lado leste dos Andes, pouco abaixo do altiplano que é cerca de 1.200 metros mais alto. A estátua do Cristo também é bonita, mas, sinceramente, eu prefiro a do Rio de Janeiro.

Voltamos a reunir o grupo já na hora de partirmos. O sono não chegou nem perto de me revigorar por completo, mas me deixou melhor. Recomeçamos o nosso martírio, arrumando as malas para a próxima etapa. Tocamos para a rodoviária, onde conseguimos passagem para Oruro em um ônibus que saía às 17h15. Era uma viagem curta, de mais ou menos quatro horas, subindo mais 1.400 metros e chegando a 3.800 acima do nível do mar. Daí sim, com certeza conheceríamos o soroche.

Oruro era uma cidade estratégica no nosso roteiro. Era de lá que saía o trem para Uyuni, no outro dia à tarde. O plano era chegar a cidade até às dez horas, arrumar um hotel e, enfim, ter uma noite descente, dormindo na cama. Esta idéia me dava forças para seguir em frente, sem reclamar muito. De qualquer forma, me despedi de Cochabamba com a certeza de não tê-la conhecido como queria.

Mapa do Caminho - Dia 5


Data: 07/06/2007
Saída: Cochabamba, Bolívia
Chegada: Oruro, Bolívia
Distância percorrida no dia: 227 km
Empresa de ônibus: Coral
Duração da viagem: +- 4h
Tarifa: bs. 15 (+- R$ 4,20)

sexta-feira, junho 06, 2008

Trem da Morte até Santa Cruz

A primeira hora de viagem no Trem da Morte foi de extrema felicidade. Era a realização de um sonho, juntamente com a excitação de descobrir algo novo. Sonho porque quando eu vim à fronteira pela primeira vez, em 2001, tudo o que queria era continuar a viagem até La Paz. A novidade era porque andava de trem e entrava de fato em um país estrangeiro pela primeira vez.

Depois da correria, vi o quanto custou não apostar na compra da passagem diretamente no guichê e sim de um 'agente' de turismo. Isto porque o 'agente' na verdade era um cambista (sem aspas). A passagem na ferroviária custava bs. 115 (cento e quinze bolivianos), uns R$ 30 na cotação da época (R$ 1,00 = +- bs. 3,55), enquanto que Alberto nos cobrou R$ 50. Quase o dobro. Mas, confessemos, foi honesto em tudo que prometeu.

Estávamos na classe Super Pullman, a melhor do tipo de trem disponível naquele dia. Os bancos eram bons, aparentavam uma reforma há pouco tempo. Já as janelas eram velhas, difíceis de abrir e fechar. Tinha um bom ar condicionado e televisões que passaram filmes à noite. Pela tarde ligaram uma musiquinha instrumental tipicamente boliviana. Muito bom. Apesar de ser um trem, não havia cabines e, consequentemente, não era muito diferente que um ônibus brasileiro, exceto pela velocidade vagarosa.

O melhor de tudo era o nível de ocupação do nosso vagão. Quando comparei o preço do bilhete e vi que tínhamos pagado mais, a priori fiquei um pouco desapontado. Contudo, depois de perceber que não iria quase ninguém conosco, meu ânimo melhorou - pagamos mais, mas viemos sosegados, cada um em dois bancos.

Então? Dormir? Eu não, meu caro. Se já gostava de ficar acordado a noite em viagens de ônibus por estradas que eu já havia passado mais de 50 vezes, imagina no famoso Trem da Morte, em um lugar que nunca estive? Ou melhor, na primeira atração de uma sonhada viagem?

Logo que o trem deixou a estação de Puerto Quijarro, dentro de mim se misturavam a emoção descomunal pelo momento, a adrenalina forte por tudo que haviamos passado minutos atrás e o medo de ter deixado alguma coisa importante para trás. Graças a DEUS, este medo não foi conformado. Peguei o meu celular para ver às horas e notei que ainda havia sinal. Para me tranquilizar de tudo, tive a idéia - por que não gastar um pouco dos créditos e ligar para casa? Será que este sinal completa uma ligação? A lista de emoções ficou completa quando meu pai atendeu do outro lado.

Não acreditava. O trem lentamente ia se movendo entre os trilhos. Não muito longe, via Corumbá (MS) e o Rio Paraguai, que se afastavam lentamente. Neste cenário de entardecer, conversa com o pessoal lá de casa na última oportunidade que tinha de ligar de meu próprio telefone.

Comecei a seguir o caminho por meu mapa de estradas da Bolívia, comprado de uma loja virtual inglesa, já que não encontrei no Brasil. Até o anoitecer havíamos passado por uns quatro vilarejos, que naquela região podíamos considerá-los cidades. Eram pequenos conjuntos de casas bem simples, com ruas de terra, geralmente com mato em volta. Percebi que algumas vilas não possuiam iluminação pública e, por isto, com exceção de algumas lâmpadas das casas, ficavam escuras à noite.

A fome apertou quando a noite caiu. A comida faltou (rs). Sem dinheiro boliviano (apenas com dólares e reais), não tivemos muitas alternativas. Dois de nós foram até o vagão restaurante e conversaram com o atendente. Voltaram dizendo que ele toparia trocar reais, mais por uma cotação BEM inferior ao câmbio normal. Negamos. Como minha comida reservada para a viagem faria a festa da imigração boliviana no dia seguinte, percebi que passaria a noite comendo algumas bolacha Negresco, que havia comprado ainda na rodoviária de Goiânia.

Aquelas bolachas me salvaram a vida . Caíram muito bem no meu estômago, depois de um dia intenso. O meu problema maior era água. Comecei a filar um pouco dos outros, mas notei que todos estavam com a mesma necessidade. O engraçado é que no meio da nossa mobilização alimentícia, o rapaz que havia proposto o mal negócio do câmbio desvalorizado passou entre as nossas poltronas e gozou: ya has cenado? (já jantaram?). Rodrigo, perspicaz, apenas apontou um tubo de batatas fritas importadas, compradas na Zona Franca, que estava aberto e preso ao banco da frente.

Na poltrona ao lado da minha (da que estava marcado na minha passagem, não na que eu fui de fato, já que, como disse, o vagão estava vazio), viajava uma brasileira. A Isabela (nome fictício) era paranaense e estava indo se encontrar com um grupo de israelenses que viajavam pela Bolívia. Era financiada pelos pais. Me deu a impressão que seus pais pagavam a viagem para se verem livres dela. Mesmo assim, era muito gente boa. Como a noite caiu e atrapalhou o meu passatempo predileto, que era ficar acompanhando os vilarejos, me juntei a conversa que ela já estava tendo com outros de nós, e ficamos horas ali. Tinha muita experiência com os judeus, nos explicou alguns detalhes da cultura hebraica e contou alguns casos.

Não posso deixar de relatar dois detalhes da minha noite no trem. Já no meio da noite (umas duas da manhã), paramos em uma cidade que, de vista, parecia maior do que a maioria. Lá subiram umas mulheres oferecendo pastéis. A recomendação era não comprar comida de fora do trem, já que poderia não fazer muito bem. Porém, os pastéis cheiravam TÃO bem, que a única coisa que me barrou foi à falta de bolivianos. Naquela hora não aguentei e decidi me arriscar no espanhol. Perguntei qual era aquela cidade. "Ro-o-rê, ro-o-rê", respondeu. Agradeci, mas fiquei na mesma. Peguei meu mapa e descobri que aquilo que ela havia regurgitado era certamente 'Roboré', dito muito rápido.

Não sabia direito aonde que era, mas não gostaria de dormir sem ver o Chochis. Então fiquei mais um pouco acordado, olhando pela janela, procurando-o. Em menos de meia hora comecei a ver sinais. O trem passou a fazer mais curvas e começou a cortar uns pequenos morros ao meio. Não tardou muito para eu vê-lo. Bom, para quem não conhece o Chochis é uma montanha no meio da planície do Pantanal boliviano. Ou melhor, não é uma montanha comum, é um retângulo em pé no meio do nada, parecendo que seus lado foram cortados com uma faca. Uma caixa de fósforo em pé. O detalhe é que ele é MUITO alto, ultrapassando os 800 metros desde o chão. Ver o Chochis de dentro do trem, a noite, no meio da província de Santa Cruz foi de arrepiar.

Depois disto não tive forças para mais nada. Dormi. Perdi quando o trem passou pela cidade de San José de los Chiquitos, a maior da região, fora Santa Cruz. Acordei e já era dia, quando senti algo incomum. Minha garganta estava muito inflamada. Que tragédia. Tentei não desanimar, e comecei a chupar umas pastilhas. De cochilo em cochilo forçado, lembro-me que vi os primeiros sinais de Santa Cruz logo depois das oito da manhã. Me impressionou o fato da cidade ter o mesmo número de habitantes que Goiânia, mas, aparentemente, sem prédios. Mais tarde eu os achei, mas não são tão grandes e tão numerosos como na nossa capital.

Chegamos a estação. Hora do quê? De mais confusão. A falta de bolivianos ainda nos causava dor-de-cabeça. Não tínhamos um bolivianito sequer. Como ninguém estava a vontade em fazer câmbio na rodoviária (ou ferroviária, já que era uma estação bimodal), o jeito foi recorrermos a quem estava mais perto de nós. Na ocasião era Isabela. A menina também não tinha muitos bolivianos, mas o seu israelense estava lá para buscá-la.

Conversa vai, conversa vem, consegui que ela nos vendesse 20 bolivianos, o suficiente para tomarmos um taxi até o centro, onde o israelense nos indicou uma pousada. Não iríamos passar a noite, mas os demais queriam um lugar para tomar banho. Eu não ligava tanto para a sujeira, mas concordei, já que lamentaria andar o dia inteiro com aquela mochila pesada nas costas.

Saindo da estação, me lembrei de um conselho. "Na Bolívia tudo é negociável. Antes de pegar um táxi, pechinche, que você certamente terá um preço melhor", era o que mais ou menos estava escrito no meu guia de mochileiros. Então tá, enchi o peito e fui conversar com o motorista. Ele veio todo animado, começou a colocar nossas mochilas no bagageiro. A Lucimeire até já estava sentada no banco, quando fui negociar o preço. Fiz uma oferta (não me lembro bem, mas acho que era bs. 10). O rapaz nem olhou para a minha cara, na mesma hora começou a tirar nossas mochilas de seu carro e passou a indicar o ponto de ônibus. Falava que lá nós poderíamos pegar vans que nos levaria ao centro a baixo custo. Tudo bem, os cruceños são famosos mesmo por suas aptidões capitalistas em um país com simpatia socialista.

Logo depois, veio outro táxi e este conseguimos convencê-lo a nos levar por bs. 20. Foi então que comecei a perceber o tanto que estava cansado. A dor de garganta me tirava o ânimo, e toda aquela empolgação do dia anterior começou a virar agonia. O trânsito da cidade, assim como o de toda a Bolívia, era uma droga, ninguém respeita ninguém.

Se a derrota para o motorista de táxi não fosse o bastante, logo que chegamos na pousada indicada, levamos outro direto na cara. Novamente fui convencer o rapaz do estabelecimento que não era justo cobrar uma diária inteira da gente, já que não iríamos dormir lá. Não consegui. Também não estava com paciência, tão pouco com criatividade para inventar desculpas. Topamos pagar os bs. 80 para passamos a tarde em um quarto com duas camas. Era uma pousada BEM modesta. Se fosse para ficar, certamente buscaríamos algo melhor. Para tomar banho e descansar bastava.

Com banho tomado, saímos para, finalmente, 'cambiar las nuestras monedas'. Logo depois, outra necessidade básica - comer. As duas refeições que tivemos em Santa Cruz fizemos em chiques cafés da cidade, que servem as classes média e alta. Que bom nosso dinheiro valer tanto por aqui. No almoço, conversamos sobre a grande novidade, que era resolver a vida falando en español. Já em Santa Cruz, notamos a diferença na comida. Nada de arroz e feijão no cardápio. Nos contentamos com sanduíches, omeletes e outros pratos. No final, como se pede a conta, seu garçom? Vendo a nossa dúvida, perguntou: "La cuenta?". "Sí, gracias!".

A tarde, nos dividimos em dois grupos. Como eu tinha que ir ao banco (isto mesmo, até na Bolívia) para depositar a grana da reserva do passeio do Salar de Uyuni, e como eu vi que seria perca de tempo convencer as meninas a irem comigo, pedi ao Rodrigo para se juntar a esta missão inglória. Principalmente porque iríamos perder preciosos minutos, enquanto havia uma cidade inteira a se conhecer. No banco foi tranquilo. Esperamos muito, e o depósito foi feito imediatamente. O que me chamou a atenção era um aviso em uma das pilastras do prédio: "Zona segura em caso de terremoto". Algo difícil de ver no Brasil.

Perdemos mais um tempo em uma Lan House, já que precisávamos scanear o comprovante e mandá-lo via e-mail. Depois, separamos alguns minutos para tirar fotos, principalmente da maravilhosa catedral. Tudo feito, era a hora de nos preparar para voltar à estação. Naquela noite, viajaríamos até Cochabamba, famosa cidade universitária. Decidimos ir de uma vez a estação, onde arrumaríamos uma companhia de ônibus descente e ficaríamos por lá até o embarque.

Ao entardecer, pegamos novamente um táxi de volta a estação. Desta vez, conseguimos negociar um preço menor (viva! rs). No decorrer da jornada perceberíamos que a regra estava certa mesmo - é fundamental pechinchar - e o que ocorreu na estação havia sido pura falta de sorte. Eu, que ia sempre na frente, ao lado do taxista, por causa do meu tamanho, passei a puxar papo com os motoristas. Este era um cara muito simpático. Natural de Cochabamba, nos alertou para os efeitos do mal da altitude.

Só a título de informação, apesar do nome, Santa Cruz de la Sierra fica na planície do Pantanal (mesmo que já não seja mais Pantanal, de fato), a pouco mais de 300 metros acima do nível do mar. Para chegar a Cochabamba, é necessário subir a primeira parte da Cordilheira dos Andes. A cidade fica a 2.400 metros. Podemos compará-la com Campos do Jordão (SP), a cidade mais alta do Brasil, e que fica bem mais baixo, a cerca de 1.600 metros do nível do mar.

No meio da conversa, o taxista nos disse que gostava muito de música brasileira. "É mesmo, mas qual tipo?", perguntamos. Ele pegou uma fita e enfiou no rádio. Aumentou o som, e para a nossa surpresa começou a tocar uma música do goiano Amado Batista. Sem explicação.

Já na estação, começamos a pesquisar empresas de ônibus. A informação que eu tinha é que, nesta hora, muitos bolivianos viriam atrás de nós insistentemente oferecer os serviços de sua companhia. Não foi o que ocorreu. Muitos gritavam os destinos pelos corredores da estação, mas ficavam na deles. Assim, pudemos escolher com tranquilidade. O que não adiantou muito, já que não conhecíamos nenhuma empresa. Todas pareciam do mesmo nível. Fechamos com uma que parecia boa, pelo menos segundo às fotos.

A estação de Santa Cruz é uma verdadeira lástima. Muito movimentada, não há nada para fazer até o embarque. Até aí tudo bem. Mas, infelizmente também é bem insegura. Enquanto estávamos escolhendo a empresa, duas das nossas colegas foram abordadas por homens que se diziam policiais. Lembrando que na Bolívia é comum falsos policiais pararem turistas, pedirem o passaporte, levá-los até uma sala, onde exigiam uma boa quantia em dinheiro em troca da devolução do passaporte. Por sorte, uma delas disse que estavam em mais três, e os pilantras logo desistiram.

Subimos e ficamos tranquilamente em uma lanchonete até se aproximar a hora do embarque. Estava ansioso. Primeiro porque havia ouvido que os ônibus na Bolívia atrasam muito, são de péssima qualidade, não param em um lugar certo na rodoviária e vendem mais de uma passagem para uma mesma poltrona. Como era a nossa primeira viagem de ônibus lá, queria entrar logo no ônibus e checar item por item.

Descemos e entramos na área de embarque para encararmos o horror. Havia uma calçada bem estreita para o grande número de pessoas que circulavam naquele local. Vários bolivianos estavam esparramados pelo chão, comendo comida de rua e conversando uns com outros. Ali, começou a dar insegurança. Então cada um de nós mirou para um lado deixando que nossas mochilas ficassem todas viradas umas para outras, formando uma cruz. Estratégia para não sermos surpreendidos.

Demoramos um pouco ali. Não porque o ônibus estava atrasado, mas porque realmente havíamos chegado mais cedo. Estava preocupado em perder o ônibus. No bilhete não havia indicação de plataforma, mas o atendente que nos vendeu indicou aquela onde paravam os ônibus da companhia. Detalhe: Para economia de papel, o nosso bilhete era apenas um, indicando que havíamos comprado cinco poltronas.

Também pensava se o ônibus seria mesmo um bus-cama, de dois andares, que o rapaz da empresa havia garantido para nós. Só via ônibus velhos em toda a grande extensão da estação. No horário certo, um grande ônibus apontou na plataforma indicada. Esperou um pouco, até que um outro da mesma empresa deixasse o lugar, e assumiu o posto. Era o nosso. E de dois andares. A primeira vez que viajaria em um destes. Eram os últimos lugares do segundo andar. Foi só agradecer a DEUS por dar tudo certo. Cochambamba, aí vamos nós.

Mapa do Caminho - Dia 4

Data: 06/06/2007
Saída: Santa Cruz de la Sierra, Bolívia
Chegada: Cochabamba, Bolívia
Distância percorrida no dia: 552 km
Empresa de ônibus: Renacer
Duração da viagem: +- 11h
Tarifa: Bs. 60 (+- R$ 17,15 na época)

quinta-feira, junho 05, 2008

Dia confuso

Nunca um beliche de albergue foi tão confortávle quanto o que eu dormi em Corumbá (MS), depois de aproximadamente 24 horas de ônibus, praticamente seguidas. O rodízio no dia anterior não havia causado nenhum efeito colateral (graças a DEUS), mas era apenas a minha primeira experiência com pizzas naquela jornada. Mais tarde eu iria lamentar ter colocado este maravilhoso prato como uma das primeiras alternativas de comida em uma viagem que mexe tanto com o nosso estômago como esta.

A minha grande lamentação era não ter conseguido apresentar aos meus colegas o famoso 'Pintado à Urucum', prato muito famoso no Pantanal e extremamente saboroso. No nosso quarto coletivo (não havia quartos privados neste albergue), havia apenas um rapaz hospedado. Na verdade era um portuguê-californiano. Estranho não? Foi o que eu pensei quando ele começou a falar o português, e eu não conseguia me decidir se eu deixava ele continuar ou pedia para ele prosseguir em inglês.

De família portuguesa, o nosso companheiro de quarto tinha uma empresa de importação nos Estados Unidos. Ele importava iguarias portuguesas, tal como azeite, olivas e etc..., de uma empresa de sua família, em Portugal. Parecia ganhar bem. Estava em férias de seis meses pela América do Sul. O interessante foi a sua cara quando apresentamos o nosso roteiro e informamos que iríamos percorrer toda aquela distância em apenas 24 dias. "Um pouco apertado, não?", perguntou. A vontade era responder: "É porque existe uma coisa que se chama trabalho e que nós precisamos voltar a praticá-lo no início do mês que vem". Enfim, ficou na vontade.

Dei a idéia a todos de irmos até a Bolívia pela manhã. Em Puerto Quijarro há uma Zona Franca (um pequeno shopping), onde se vende muito produto interessante (importados e locais) por preço geralmente reduzido. E nós precisávamos nos preparar para as 16 horas de viagem no Trem da Morte, até a cidade boliviana de Santa Cruz de la Sierra. Com quatro de nós optando pela visita à fronteira (a Lorena preferiu ir tirar fotos no porto), partimos rumo a praça principal para tomarmos o ônibus até a alfândega.

Como demorou este ônibus! Lembrei do transporte coletivo de Goiânia, os incontáveis problemas e a falta de vontade de resolvê-los, tanto pelo poder público como pelas empresas que monopolizam o sistema. A cada minuto que passava, a minha ansiedade aumentava, já que o trem sairia às 16:30 e até lá tínhamos ainda muitas coisas para fazer. Depois de mais meia hora de espera, um ônibus anunciando "Fronteira" parou em nosso ponto e várias pessoas entraram.

A viagem foi rápida. Em no máximo 15 minutos estávamos diante da ponte que demarca oficialmente a divisão política entre Brasil e Bolívia. Era o primeiro marco na nossa viagem. Enquanto eu pensava isto, notei que um grupo de três meninas bolivianas desembarcaram junto com a gente e caminhavam rumo a Bolívia. Todas estavam muito bem trajadas, com um impecável uniforme escolar. Os livros embaixo dos braços não deixavam dúvidas - estavam vindo da escola. Detalhe: as três moravam na Bolívia e estudavam em uma escola brasileira. Cruzavam aquela fronteira todos os dias. Foi o suficiente para contem minha empolgação (rs).

A rotina das graciosas gurias pode até passar a impressão de que a fronteira é um lugar tranquilo, mas, acreditem, não é. Por ali todo o cuidado é pouco, principalmente para quem está levando quantias consideráveis em dinheiro. Contudo, também não é necessário se preparar para um campo de batalha. É só evitar dar bons argumentos para que alguém possa ver você como uma boa alternativa de vítima de saque.

Já em solo boliviano pegamos um táxi. Um carro velho, dirigido por um rapaz com feições tipicamente bolivianas. Por dentro havia bajulaques de todas as espécies, presos aonde nem se imagina. A felicidade imperava na cara do taxista. Ele nos explicou que naquele dia, nem um antes, nem um depois, naquele MESMO DIA QUE ESTÁVAMOS PASSANDO POR LÁ, o presidente da Bolívia, Evo Morales, iria visitar a região. Visivelmente era o evento do ano na cidade, já que durante todo o caminho, o motorista buzinava para moradores que estavam nas ruas e balançava uma bandeira em apoio ao presidente. Era perceptível que Morales era querido por lá, pelo menos pela maioria.

Andamos pela Zona Franca, compramos e comemos uma comida muito boa, em um restaurante por quilo. Dias depois ninguém me tiraria da cabeça que esta cozinheira era brasileira. Na volta pegamos mais um táxi boliviano, que nos levou de volta até a fronteira (eles possuem um acordo com os taxistas brasileiros - eles não trabalham no Brasil e os brasileiros não fazem corridas na Bolívia). Desta forma, cruzamos a ponte a pé e pegamos um outro táxi, já em solo brasileiro. É claro, todas estas corridas tiveram antes uma grande sessão de negociações, para fechar um preço fixo. Vale lembrar que o preço boliviano é MUITO menor do que o brasileiro.

Dentro do táxi brazuca, pudemos ver que a diferença ia muito além do preço. Além do carro ser bem novo, internamente era muito bem organizado. O motorista guiava tranquilamente o seu táxi, diferentemente da festa que fez o nosso ex-motorista boliviano. Para fechar a comparação com chave de ouro, no táxi boliviano tocava uma música típica alta, enquanto que no brasileiro um sambinha tranquilo dava o tom do ambiente. Perfeito. É exatamente este contraste que caracteriza a diferença de dois países com culturas tão distintas e evidenciados tão claramente naquela região, já que fisicamente estes dois universos estão muito próximos.

Chegamos ao albergue. Pronto. A partir daqui foi uma correria tão grande que se for contar todos os detalhes, pode apostar que vou amanhecer escrevendo. Então, vamos resumir. Na portaria, ficamos sabendo que o rapaz de quem compramos as passagens ainda não as havia deixado no albergue, conforme combinado. Tudo bem, precisávamos ir no centro, passar no banco, antes de arrumar as coisas e partir para a fronteira. Nosso medo era atrasar na imigração boliviana, onde teríamos que carimbar os passaportes.

Demorou um pouco, mas Alberto chegou com as nossas passagens em mãos. Tudo certo (graças a DEUS, novamente), exceto que ainda precisava chegar o nosso transporte de volta a fronteira, combinado na hora da compra. Enquanto isto, terminamos de arrumar as malas e partimos para o centro, rumo ao banco. Na volta, uma caminhonete velha, acoplada em uma carreta-leva-turista (aquelas que possuem bancos para que os turistas possam fazer city tour sentindo o vento no rosto), estava estacionada na porta. Quando vi, não acreditei que iriam nos levar naquilo. Aff. Mas enfim fiquei quieto. O que eu mais queria era embarcar rápido no trem e relaxar depois de toda a correria.

Subimos todos com as suas respectivas mochilas e o jeito foi aguentar a vergonha da exposição. Para piorar, quando chegamos na estrada, uma operação tapa-buracos estava atrasando o trânsito que seguia sentido fronteira. Pra quê? Nesta hora, o motorista do caminhão ('terceirizado') começou xingar tudo, falou que estava atrasado e nos ameaçou deixar no meio do caminho. Ainda bem que o Alberto estava com a gente e acalmou o homem. Para relaxar, o motorista colocou uma música velha dos anos 70 (não me lembro qual, mas era famosa). Foi o suficiente para que duas de nossas companheiras começassem a dançar, mesmo que timidamente, na carreta aberta. Pararam logo que foram saudadas pelo pessoal que fazia a obra na estrada.

Chegamos na imigração. Tudo certo? Que nada, mais problemas. Por causa da visita de Evo Morales, a imigração não abriu no período da tarde. A situação nos deixou em um dilema - ou esperávamos para ver se alguém viria nos acudir, ou então entrávamos ilegal na Bolívia. Com todo o respeito que a Bolívia merece, não me agradava esta última idéia. Contudo, estava disposto a colocá-la em prática, principalmente porque todos os bolivianos ao redor da imigração nos dizia que não teria problema algum. "Vocês carimbam quando chegarem em Santa Cruz. Expliquem que o presidente estava aqui, não vão fazer nada", falou um boliviano com quem conversei uns vinte minutos, esperando alguma ação das autoridades de fronteira.

O relógio se aproximava das quatro horas da tarde (lembrando que o nosso trem sairia às quatro e meia). Uma fila já estava formada frente a imigração, com brasileiros e outros gringos. Quando faltavam apenas cinco minutos para a hora cheia, decidimos que quatro horas seria o nosso 'deadline'. Faltando um minuto para o horário, eis que surge a notícia - iriam abrir a imigração para carimbarem nossos passaportes.

A partir daí foi uma correria. Isto porque tínhamos que preencher uma ficha longa e, em seguida, o policial batia o carimbo. Tanto nós (que íamos pegar o trem), quanto eles (que queriam ver o Evo) estávamos loucos para sair dali. Na correria eu esqueci uma sacola com a comida para a viagem, que havia comprado na Zona Franca, mas só iria notar mais tarde. Certamente serviu de lanche para as autoridades bolivianas, no dia seguinte. Combinamos com duas gringas para dividir o táxi até a estação. Desta forma, pegamos dois táxis. Quanto já estava prestes a escalar as escadas da estação (e realizar um sonho antigo de embarcar no Trem da Morte), eis que surge uma voz pedindo ajuda.

Me virei e vi a Lorena discutindo com um dos taxisistas. Não vou entrar no mérito, mas via que um não entendia o outro. Cheguei e vi que era apenas um mal entendido. Contudo, os dois não pararam com a troca de palavras acusatórias. Foi quando o motorista levantou a mão como se fosse dar um tapa na nossa amiga. Parou no ar, principalmente porque um amigo boliviano fez o 'deixa disso'.

Novamente me coloco em posição, e começo a subir as escadas. Nos últimos degraus levo um tropeção e quase caio de boca no chão. Penso: "DEUS, quem poderia imaginar que seria tão conturbado assim?". Mas ainda era pouco. Chegando na porta de embarque (uns 5 minutos para a partida), mais um problema. Tínhamos que pagar a taxa de embarque, de dois bolivinos por pessoa, mas, nesta hora, lembramos que, com a confusão, não havíamos feito câmbio. Não titubeei. Vi que o total daria dez bolivianos e passei a minha nota de estimação (que havia trocado uma outra vez que havia estado por aquelas bandas). A falta de dinheiro boliviano, porém, iria nos render uma noite sem comida no trem, o que descobríriamos apenas mais tarde. Foi nesta hora que percebi que a sacola com as minhas provisões já não estava em minhas mãos.

Mapa do Caminho - Dia 3

Data: 05/06/2007
Saída: Corumbá (MS), Brasil
Chegada: Santa Cruz de la Sierra, Bolívia - no dia sequinte
Distância percorrida no dia: 662 km
Empresa de trem: Ferroviaria Oriental
Duração da viagem: +- 16h
Tarifa: R$ 50,00

quarta-feira, junho 04, 2008

Na Fronteira

No post anterior eu acabei escrevendo mais do que planejava. Contudo, não há como falar da viagem de Goiânia a Campo Grande sem contar que fomos ao lado de um grupo de pagodeiros nordestinos, que iam fazer um show em Dourados (MS). Aliás esta é uma característica da linha Brasília - Assunção. Por ser muito longa, acaba atraindo passageiros com destinos e propósitos completamente diferentes.

Se você for para Campo Grande, minha sugestão é que não pegue este ônibus, mas sim a linha direta entre Goiânia e Campo Grande, da Expresso São Luiz. Já viajei neste também, e digo que é mais sossegado. A turma do pagode não foi um problema tão grande, mas acabou estorvando um pouco, principalmente de manhã. Quando a viagem passou das dez horas, as intermináveis conversas entre os membros e o vai-e-vem entre as poltronas do ônibus fizeram com que eu desejasse chegar a capital sul-matogrossense o mais rápido possível.

Vale lembrar que o grupo ocupou grande parte das poltronas e entupiu o bagageiro inferior (um dos motivos do nosso atraso, em Goiânia). Como se não fosse o bastante, alguns integrantes falavam por meio de ecos. Não ficavam feliz em chamar uma pessoa pelo nome, como, por exemplo: "Ei, Vladimir!". O faziam desta maneira: "Ei, Vladimir-ir-ir-ir". Mas também ganharam um ponto extra de paciência comigo por terem se comportado bem durante a noite.

Chegamos a Campo Grande por volta das oito da manhã. Como nosso próximo ônibus saía apenas às 10:30, resolvemos procurar algum lugar para tomar café-da-manhã. Foi então que tive o primeiro contato com o peso da minha mochila. Engraçado que quando vemos fotos de mochileiros carregando suas mochilas, não pensamos o tanto que é desagradável carregá-la cheia de coisas (rs). Colocamos a dita cuja nas cotas (suspiro) e deixamos a rodoviária.

Para quem não conhece Campo Grande, é bom explicar que a sua rodoviária parou no tempo. É resultado de um projeto velho de rodoviárias, onde os ônibus se movimentam embaixo (tipo um sub-solo, mas aberto às ruas), enquanto que os guixês ficam na parte de cima. Soma-se ainda o precário estado de conservação que o prédio se encontra, multiplicando pelo fato que não há nenhuma lanchonete ou restaurante que valha a pena.

Desta forma, fomos procurar algum lugar decente nos arredores. Encontramos uma boa padaria, não muito longe dali. O problema foi carregar a bagagem. Era o primeiro dia, e os meus músculos ainda não estavam acostumados com o esforço. Além disto, andamos mais que o dobro do necessário, perguntando daqui, procurando dali. Após alguns salgados na barriga, voltamos.

Quando chegamos novamente na rodoviária, já eram dez horas. O nosso ônibus já esperava na plataforma. Que bom! Corri em sua direção, não vendo a hora de despachar a mochila. Apenas o primeiro 'sofrimento' de muitos, rs. Entramos, e ficamos esperando a partida, rumo aos últimos quilômetros de Brasil.

Foi muito bom me deparar com um ônibus mais novinho e limpinho do que o da Nacional Expresso. Aliás, tenho um pouco de birra com esta empresa. Pela sua grandeza, deveria ser bem melhor. A minha opinião foi justificada no Peru, mas esta é outra história que conto nos próximos capítulos.

A medida que deixávamos Campo Grande para trás, o Pantanal começava a mostrar a sua cara. Não foi um dia muito feliz para ver animais pela janela do ônibus, mas deu para observar alguns tucanos e outros tuiuius. Fora isto, a estrada de Campo Grande a Corumbá causa ansiedade. Não há grandes cidades e a distância de uma para outra é muito grande. Paramos em Miranda, pra lá das duas da tarde, para almoçar.

Foi a primeira (e última) vez que minha mãe me ligou (porque o telefone não pegou mais depois da fronteira). Queria saber se eu já havia chegado a Corumbá. Estávamos na metade do caminho ainda. A sua previsão, porém, não era absurda. Isto porque o planejado era pegar um ônibus mais cedo, em Campo Grande, mas o atraso do primeiro trecho nos impediu. E mais um atraso no segundo trecho, fez com que chegássemos à fronteira já no cair da noite.

Só para constar, toda vez que estou chegando a Corumbá me impressiono com algumas montanhas que há ao lado da estrada, há poucas dezenas de quilômetros da cidade. Acho muito bonitas. Descemos do ônibus e o clima de Bolívia já começou a dominar o ambiente. Vários 'operadores turísticos' nos abordaram perguntando se iríamos pegar o famoso Trem da Morte, até Santa Cruz de la Sierra. É claro que o tamanho das nossas mochilas entregava que éramos turistas, e isto fez com que a insistência crescesse. Não dei moral para nenhum deles e distribuí vários: "Não, obrigado!".

Só que ao chegar ao albergue, não pudemos mais disfarçar. Precisávamos das passagens para a cidade boliviana e, naquele momento, tinhámos duas opções. Ou esperávamos até o dia seguinte, para ir a Puerto Quijarro (cidade fronteiriça, de onde saem os trens) comprá-las, ou íamos atrás dos 'agentes'. Dois fatos acabaram pesando na nossa decisão em optar pelo segundo caminho - se deixássemos para o dia seguinte podería não sobrar mais nenhum bilhete, e isto seria fatal para o nosso planejamento já que perderíamos um dia inteiro na fronteira e, certamente, não chegaríamos a Uyuni a tempo para o nosso passeio (já reservado) no Salar. Além disto a recepcionista do albergue nos garantiu que indicaria uma pessoa de confiança para fazer a venda.

Fomos até a 'agência de turismo', uma salinha que não cabia mais do que quatro pessoas. Lá encontramos o Alberto (nome fictício) que tirou uma cópia de nossos passaportes e cobrou R$ 50,00 por cada passagem. Como éramos um grupo grande, ficou de nos arrumar um meio de transporte até a fronteira de fato (uns 5 km de Corumbá). Enquanto fazia as cópias, começou a nos contar histórias do caminho que íamos fazer. Nos recomendou cautela: "Cuidado com os bolivianos que oferecem serviços". E eu lhe disse: "Não dou bola, digo 'não', viro a cara e sigo o meu caminho". E ele emendou: "Que nem você fez comigo lá na rodoviária, né?". Foi daí que me lembrei que tinha passado por Alberto na nossa chegada a cidade e aprendi uma coisa - em Corumbá, turista nenhum passa despercebido.

Mapa do Caminho - Dia 2

Data: 04/06/2007
Saída: Campo Grande (MS), Brasil
Chegada: Corumbá (MS), Brasil
Distância percorrida no dia: 435 km
Empresa de ônibus: Viação Andorinha
Duração da viagem: +- 6h30
Tarifa: R$ 64,00

terça-feira, junho 03, 2008

Largada

Não me lembro do que pensei quando acordei, só me vejo rapimente arrumando as coisas com uma grande dose de ceticismo. Não conseguia compreender que o dia realmente havia chegado. Como seria? O que passaria? Quando eu voltaria a ver minha casa novamente? Procurei não pensar nisso e me concentrei em checar se tudo estava em seus devidos lugares.

Preferi dar um até logo a minha casa, como se fosse voltar dali a três horas. Não é confortável pensar que você vai passar tanto tempo sem poder desfrutar da tranquilidade do lar. Ainda mais, embarcando para um destino onde não sabía ao certo o que me esperava. Nesta hora o melhor é focar na parte positiva. Era o meu segundo dia de férias, e eu iria poder gozar de uma noite inteira viajando dentro de um ônibus, ouvindo músicas e pensando na vida. Tem horas que não há nada melhor.

Na rodoviária, o desafio era manter a calma. O que não foi difícil porque aos poucos foram chegando as pessoas. A primeira foi Lucimeire, amiga que deu o empurrãozinho necessário para que a viagem ocorresse. Ao seu lado, o seu irmão ainda em dúvida se a irmã estava fazendo realmente a melhor opção de encarar aquela jornada.

Aos poucos a plataforma foi ficando cheia. Rodrigo chegou com a Erika. O Fagner trouxe a Marina. Meus pais ficaram na espera até a saída do ônibus. A Lorena chegou por último, contrastando com o fato de que foi a primeira que comecei a combinar a viagem. O Hebert também apareceu para nos desejar boa viagem. Também havia outras pessoas, mas como tenho dúvidas não arriscarei nomeá-las. Enfim, uma pequena multidão. Lembro da foto tirada do grupo, que nunca chegou às minhas mãos (quem tiver, por favor, me envie, rs!).

A anciedade diminuiu com as conversas. Nem lembrava para onde estava embarcando quando entrei no ônibus. O certo é que até a natureza conspirou para que o momento fosse único. Tanto que foi difícil acreditar que, logo que o ônibus deu partida, começou a cair uma chuva fina que durou uns 15 minutos. Quem conhece Goiânia sabe que é um fato quase impossível para a época do ano.

Era só comemorar. Durante algumas horas o papo foi animado entre a gente. A capital goiana foi ficando para trás, na mesma proporção que a noite ficava mais densa. A primeira parada foi em Indiara (GO), em um posto da região, onde a atendente serviu um 'capuccino' muito peculiar para a Lucimeire - colocou café, leite e, já que estava correndo para atender todo mundo, entregou o copinho e pediu para a nossa companheira ficar mexendo até dar consistência. Certamente uma nova forma de interação entre cliente-empresa, onde ambos participam das etapas de produção do produto final.

Mapa do Caminho

Data: 03/06/2007;
Saída: Terminal Rodoviário de Goiânia (GO), Brasil;
Chegada: Campo Grande (MS), Brasil - no dia seguinte;
Distância percorrida no dia: 906 km, no percurso total entre as duas cidades;
Empresa de ônibus: Nacional Expresso (linha Brasília (DF), Brasil - Assunção, Paraguai)
Duração da viagem: +- 15 horas
Tarifa: R$ 121,38 + R$ 1,98 (Taxa de Embarque)

A Jornada - 366 dias depois

Relembrar é viver. Enquanto preparo novos projetos, nada melhor que lembrar feitos bem sucedidos. Faz exatamente um ano que coloquei um plano de viagem em prática, o qual preparei durante muito tempo. Tropecei em alguns pontos, já que me faltou experiência, mas é impossível dizer que cada segundo não tenha valido a pena.

A viagem foi uma jornada terrestre de Goiânia até Lima, no Peru. O ponto alto foi a visita às ruinas de Machu Picchu, a cidade perdida dos Incas. Tive ajuda de quatro amigos, que toparam participar da jornada. Juntos vivemos experiências como uma família - vibramos nas partes boas, ajudamos uns aos outros nas difíceis e batemos boca nas horas mais quentes. Ou seja, foram 24 dias de um emaranhado de sentimentos distintos. No final, a certeza de que vivemos um banquete completo de novas experiências, tanto físicas como mentais.

Logo no início, mudei meus planos. Anteriormente decidido a relatar os principais fatos, já nos primeiros dias de estrada desisti de tomar notas e preferi mergulhar na essência daquilo que vivia, sem me preocupar em escrever. Apesar de ser simpático da idéia de gastar folhas e folhas de caderno em narrações de viagens, escrever, naquele período, significava não dar férias a minha mente, já que se confundiria com a minha profissão. E era justamente disto que precisava me afastar por uns dias. Não me arrependi.

Contudo, depois de 366 dias da largada no Terminal Rodoviário de Goiânia, por que não tentar passar para o papel (no caso, virtual) algumas das minhas impressões? Além de compartilhar um momento muito interessante da minha vida, aproveito a oportunidade para treinar, pois espero ter muito o que relatar nos próximos anos. Meu objetivo é escrever pequenos textos diários, fazendo um acompanhamento em 'tempo-real', exatamente um ano depois de que tudo ocorreu.

Se eu falhar algum dia, por favor me perdoem. Atualização diária é um desafio na vida de qualquer pessoa, mesmo aquelas que possuem na palavra o seu meio de sustento. Mas é um desafio que, a partir de agora, eu aceito.

Boa leitura a todos!

domingo, abril 27, 2008

13 sinais da necessidade de férias


Você está precisando de
férias quando:

1 - Começa a achar que sua vida é uma irritante repetição;

2 - Liga o carro e, quando percebe, já está a caminho do serviço;

3 - No domingo já passa a mirar o próximo final de semana;

4 - Tudo que você faz é pensando no próximo feriado;

5 - Tem a lista de feriados decorada na cabeça;

6 - Acorda de manhã e pensa: “Que bom será quando me deitar a noite”;

7 - Acha que todo o final de semana precisa ter de três a cinco dias;

8 - Passa a se empolgar com ‘viagens’ a Trindade, Senador Canedo ou Aparecida de Goiânia (para quem mora em Goiânia);

9 - Faz contagem regressiva até as próximas férias;

10 - Calcula que faltam X meses para as férias e, depois de uma semana, refaz os cálculos e fica revoltado por ter chegado no mesmo resultado;

11 - Seus sites preferidos são agências de turismo, páginas que contêm informações de outras cidades, estados e países e empresas aéreas;

12 - Fica com vontade de arrumar as malas;

13 - Entra em êxtase quando chega o dia do vencimento das suas férias, mesmo que, na prática, você só poderá tirá-las seis meses depois;

quinta-feira, abril 17, 2008

Rotina, não-rotina e liberdade

Estava longe. Ah, que isto, para falar a verdade era ali mesmo. O que difere é apenas o assunto e, creio, o público alvo. Mas em termos de distância, os meus dois blogs estão ali, um ao lado do outro.

Estava atualizando o meu blog de futebol e pensei em dar uma passada por aqui. Mesmo porque, como disse, são duas coisas diferentes. Aqui a liberdade é muito maior. E lá? Ah, lá a gente tenta seguir uma forma, aquelas coisas chatas que aprendemos na faculdade e que aplicamos no mercado de trabalho para sobreviver. É claro que é muito bom escrever lá também. Como aqui. Mas, como coisas diferentes, são prazeres diferentes.

Aqui o texto corre mais solto. Posso ficar teclando para o eterno sempre. Risos. Pera lá, tá bom, não vou fazer isto. Mas a liberdade é muito maior.

Até por isto, muitas vezes, fico sem assunto. É engraçado que, quanto mais temos liberdade, mais as coisas entram na rotina e daí.... Daí já era. Entrar na rotina é o primeiro pré-requisito para alguma coisa não existir mais. Você até faz esta coisa, mas fica tudo mecânico, sem nenhum prazer.

Fugir da rotina também não é solução. O nosso corpo precisa da rotina. Rotina é sinônimo de segurança. Não ter rotina é não ter segurança e cria uma insegurança no nosso ser. E viver inseguro, lhe garanto, não é nada bom. Então a vida tem de ser um misto de rotina com uma dose cautelosa de aventuras fora da rotina.

Vixe, olha só onde cheguei. Acabei deixando para o final aquilo que queria dizer. Na verdade, não foi o motivo principal deste post, mas já que estamos aqui.... Ah não é nada de importante. Enfim, to pensando em algumas séries para este blog. Penso em passar algumas experiências que tive até o momento na minha vida. Será legal registrar aqui e comparar depois. Para breve.

domingo, abril 06, 2008

Divagações

Já é tão tarde e eu que quero levantar cedo amanhã (hoje) para ver a Fórmula 1. Pelo visto vai ser melhor emendar. Tudo porque resolvi mexer com isto agora. Agora não, há três horas atrás, rsrs. Mas também, pega mais leve, eu não estava com sono mesmo. Então foi tempo bem gasto. E, além do mais, amanhã não tenho nada o que fazer.

Foi bom mesmo ter que esperar um pouco para me deitar. Eu que pensei que não ia comer mais nada hoje, acabei tendo que fazer uma boquinha. E, sabe né, pessoa com gastrite é aquele drama: comeu e deitou antes da hora pode preparar o espírito para aguentar a azia.

Cá entre nós, foi uma boquinha para lá de 'meia-boca'. Leite com pão-de-queijo duro, ninguém merece. Sabia que ia ficar com fome. Também depois daquele pão envenenado, que me impediu de me esbaldar na picanha. Raios de quem tacou a mão no bicabornato de sódio. Nunca mais como aquele pão.

O positivo é que enquanto tentava engolir o pão-de-queijo (que tava mais para quebra-queijo), fiquei pensendo em um nome para completar o projeto. Mas só quando fui para o quarto é que meu cérebro concluiu: "É este!!". Taí, agora já não falta mais nada. Ok, falta escrever, mas isto a gente vai fazendo aos poucos. Já cansei de não ter o que falar. Agora já não há mais desculpas mesmo.... Ah, decidi.... Vou mesmo ver a Fórmula 1!!
powered by Blogger | WordPress by Newwpthemes | Converted by BloggerTheme