sexta-feira, junho 06, 2008
Trem da Morte até Santa Cruz
Depois da correria, vi o quanto custou não apostar na compra da passagem diretamente no guichê e sim de um 'agente' de turismo. Isto porque o 'agente' na verdade era um cambista (sem aspas). A passagem na ferroviária custava bs. 115 (cento e quinze bolivianos), uns R$ 30 na cotação da época (R$ 1,00 = +- bs. 3,55), enquanto que Alberto nos cobrou R$ 50. Quase o dobro. Mas, confessemos, foi honesto em tudo que prometeu.
Estávamos na classe Super Pullman, a melhor do tipo de trem disponível naquele dia. Os bancos eram bons, aparentavam uma reforma há pouco tempo. Já as janelas eram velhas, difíceis de abrir e fechar. Tinha um bom ar condicionado e televisões que passaram filmes à noite. Pela tarde ligaram uma musiquinha instrumental tipicamente boliviana. Muito bom. Apesar de ser um trem, não havia cabines e, consequentemente, não era muito diferente que um ônibus brasileiro, exceto pela velocidade vagarosa.
O melhor de tudo era o nível de ocupação do nosso vagão. Quando comparei o preço do bilhete e vi que tínhamos pagado mais, a priori fiquei um pouco desapontado. Contudo, depois de perceber que não iria quase ninguém conosco, meu ânimo melhorou - pagamos mais, mas viemos sosegados, cada um em dois bancos.
Então? Dormir? Eu não, meu caro. Se já gostava de ficar acordado a noite em viagens de ônibus por estradas que eu já havia passado mais de 50 vezes, imagina no famoso Trem da Morte, em um lugar que nunca estive? Ou melhor, na primeira atração de uma sonhada viagem?
Logo que o trem deixou a estação de Puerto Quijarro, dentro de mim se misturavam a emoção descomunal pelo momento, a adrenalina forte por tudo que haviamos passado minutos atrás e o medo de ter deixado alguma coisa importante para trás. Graças a DEUS, este medo não foi conformado. Peguei o meu celular para ver às horas e notei que ainda havia sinal. Para me tranquilizar de tudo, tive a idéia - por que não gastar um pouco dos créditos e ligar para casa? Será que este sinal completa uma ligação? A lista de emoções ficou completa quando meu pai atendeu do outro lado.
Não acreditava. O trem lentamente ia se movendo entre os trilhos. Não muito longe, via Corumbá (MS) e o Rio Paraguai, que se afastavam lentamente. Neste cenário de entardecer, conversa com o pessoal lá de casa na última oportunidade que tinha de ligar de meu próprio telefone.
Comecei a seguir o caminho por meu mapa de estradas da Bolívia, comprado de uma loja virtual inglesa, já que não encontrei no Brasil. Até o anoitecer havíamos passado por uns quatro vilarejos, que naquela região podíamos considerá-los cidades. Eram pequenos conjuntos de casas bem simples, com ruas de terra, geralmente com mato em volta. Percebi que algumas vilas não possuiam iluminação pública e, por isto, com exceção de algumas lâmpadas das casas, ficavam escuras à noite.
A fome apertou quando a noite caiu. A comida faltou (rs). Sem dinheiro boliviano (apenas com dólares e reais), não tivemos muitas alternativas. Dois de nós foram até o vagão restaurante e conversaram com o atendente. Voltaram dizendo que ele toparia trocar reais, mais por uma cotação BEM inferior ao câmbio normal. Negamos. Como minha comida reservada para a viagem faria a festa da imigração boliviana no dia seguinte, percebi que passaria a noite comendo algumas bolacha Negresco, que havia comprado ainda na rodoviária de Goiânia.
Aquelas bolachas me salvaram a vida . Caíram muito bem no meu estômago, depois de um dia intenso. O meu problema maior era água. Comecei a filar um pouco dos outros, mas notei que todos estavam com a mesma necessidade. O engraçado é que no meio da nossa mobilização alimentícia, o rapaz que havia proposto o mal negócio do câmbio desvalorizado passou entre as nossas poltronas e gozou: ya has cenado? (já jantaram?). Rodrigo, perspicaz, apenas apontou um tubo de batatas fritas importadas, compradas na Zona Franca, que estava aberto e preso ao banco da frente.
Na poltrona ao lado da minha (da que estava marcado na minha passagem, não na que eu fui de fato, já que, como disse, o vagão estava vazio), viajava uma brasileira. A Isabela (nome fictício) era paranaense e estava indo se encontrar com um grupo de israelenses que viajavam pela Bolívia. Era financiada pelos pais. Me deu a impressão que seus pais pagavam a viagem para se verem livres dela. Mesmo assim, era muito gente boa. Como a noite caiu e atrapalhou o meu passatempo predileto, que era ficar acompanhando os vilarejos, me juntei a conversa que ela já estava tendo com outros de nós, e ficamos horas ali. Tinha muita experiência com os judeus, nos explicou alguns detalhes da cultura hebraica e contou alguns casos.
Não posso deixar de relatar dois detalhes da minha noite no trem. Já no meio da noite (umas duas da manhã), paramos em uma cidade que, de vista, parecia maior do que a maioria. Lá subiram umas mulheres oferecendo pastéis. A recomendação era não comprar comida de fora do trem, já que poderia não fazer muito bem. Porém, os pastéis cheiravam TÃO bem, que a única coisa que me barrou foi à falta de bolivianos. Naquela hora não aguentei e decidi me arriscar no espanhol. Perguntei qual era aquela cidade. "Ro-o-rê, ro-o-rê", respondeu. Agradeci, mas fiquei na mesma. Peguei meu mapa e descobri que aquilo que ela havia regurgitado era certamente 'Roboré', dito muito rápido.
Não sabia direito aonde que era, mas não gostaria de dormir sem ver o Chochis. Então fiquei mais um pouco acordado, olhando pela janela, procurando-o. Em menos de meia hora comecei a ver sinais. O trem passou a fazer mais curvas e começou a cortar uns pequenos morros ao meio. Não tardou muito para eu vê-lo. Bom, para quem não conhece o Chochis é uma montanha no meio da planície do Pantanal boliviano. Ou melhor, não é uma montanha comum, é um retângulo em pé no meio do nada, parecendo que seus lado foram cortados com uma faca. Uma caixa de fósforo em pé. O detalhe é que ele é MUITO alto, ultrapassando os 800 metros desde o chão. Ver o Chochis de dentro do trem, a noite, no meio da província de Santa Cruz foi de arrepiar.
Depois disto não tive forças para mais nada. Dormi. Perdi quando o trem passou pela cidade de San José de los Chiquitos, a maior da região, fora Santa Cruz. Acordei e já era dia, quando senti algo incomum. Minha garganta estava muito inflamada. Que tragédia. Tentei não desanimar, e comecei a chupar umas pastilhas. De cochilo em cochilo forçado, lembro-me que vi os primeiros sinais de Santa Cruz logo depois das oito da manhã. Me impressionou o fato da cidade ter o mesmo número de habitantes que Goiânia, mas, aparentemente, sem prédios. Mais tarde eu os achei, mas não são tão grandes e tão numerosos como na nossa capital.
Chegamos a estação. Hora do quê? De mais confusão. A falta de bolivianos ainda nos causava dor-de-cabeça. Não tínhamos um bolivianito sequer. Como ninguém estava a vontade em fazer câmbio na rodoviária (ou ferroviária, já que era uma estação bimodal), o jeito foi recorrermos a quem estava mais perto de nós. Na ocasião era Isabela. A menina também não tinha muitos bolivianos, mas o seu israelense estava lá para buscá-la.
Conversa vai, conversa vem, consegui que ela nos vendesse 20 bolivianos, o suficiente para tomarmos um taxi até o centro, onde o israelense nos indicou uma pousada. Não iríamos passar a noite, mas os demais queriam um lugar para tomar banho. Eu não ligava tanto para a sujeira, mas concordei, já que lamentaria andar o dia inteiro com aquela mochila pesada nas costas.
Saindo da estação, me lembrei de um conselho. "Na Bolívia tudo é negociável. Antes de pegar um táxi, pechinche, que você certamente terá um preço melhor", era o que mais ou menos estava escrito no meu guia de mochileiros. Então tá, enchi o peito e fui conversar com o motorista. Ele veio todo animado, começou a colocar nossas mochilas no bagageiro. A Lucimeire até já estava sentada no banco, quando fui negociar o preço. Fiz uma oferta (não me lembro bem, mas acho que era bs. 10). O rapaz nem olhou para a minha cara, na mesma hora começou a tirar nossas mochilas de seu carro e passou a indicar o ponto de ônibus. Falava que lá nós poderíamos pegar vans que nos levaria ao centro a baixo custo. Tudo bem, os cruceños são famosos mesmo por suas aptidões capitalistas em um país com simpatia socialista.
Logo depois, veio outro táxi e este conseguimos convencê-lo a nos levar por bs. 20. Foi então que comecei a perceber o tanto que estava cansado. A dor de garganta me tirava o ânimo, e toda aquela empolgação do dia anterior começou a virar agonia. O trânsito da cidade, assim como o de toda a Bolívia, era uma droga, ninguém respeita ninguém.
Se a derrota para o motorista de táxi não fosse o bastante, logo que chegamos na pousada indicada, levamos outro direto na cara. Novamente fui convencer o rapaz do estabelecimento que não era justo cobrar uma diária inteira da gente, já que não iríamos dormir lá. Não consegui. Também não estava com paciência, tão pouco com criatividade para inventar desculpas. Topamos pagar os bs. 80 para passamos a tarde em um quarto com duas camas. Era uma pousada BEM modesta. Se fosse para ficar, certamente buscaríamos algo melhor. Para tomar banho e descansar bastava.
Com banho tomado, saímos para, finalmente, 'cambiar las nuestras monedas'. Logo depois, outra necessidade básica - comer. As duas refeições que tivemos em Santa Cruz fizemos em chiques cafés da cidade, que servem as classes média e alta. Que bom nosso dinheiro valer tanto por aqui. No almoço, conversamos sobre a grande novidade, que era resolver a vida falando en español. Já em Santa Cruz, notamos a diferença na comida. Nada de arroz e feijão no cardápio. Nos contentamos com sanduíches, omeletes e outros pratos. No final, como se pede a conta, seu garçom? Vendo a nossa dúvida, perguntou: "La cuenta?". "Sí, gracias!".
A tarde, nos dividimos em dois grupos. Como eu tinha que ir ao banco (isto mesmo, até na Bolívia) para depositar a grana da reserva do passeio do Salar de Uyuni, e como eu vi que seria perca de tempo convencer as meninas a irem comigo, pedi ao Rodrigo para se juntar a esta missão inglória. Principalmente porque iríamos perder preciosos minutos, enquanto havia uma cidade inteira a se conhecer. No banco foi tranquilo. Esperamos muito, e o depósito foi feito imediatamente. O que me chamou a atenção era um aviso em uma das pilastras do prédio: "Zona segura em caso de terremoto". Algo difícil de ver no Brasil.
Perdemos mais um tempo em uma Lan House, já que precisávamos scanear o comprovante e mandá-lo via e-mail. Depois, separamos alguns minutos para tirar fotos, principalmente da maravilhosa catedral. Tudo feito, era a hora de nos preparar para voltar à estação. Naquela noite, viajaríamos até Cochabamba, famosa cidade universitária. Decidimos ir de uma vez a estação, onde arrumaríamos uma companhia de ônibus descente e ficaríamos por lá até o embarque.
Ao entardecer, pegamos novamente um táxi de volta a estação. Desta vez, conseguimos negociar um preço menor (viva! rs). No decorrer da jornada perceberíamos que a regra estava certa mesmo - é fundamental pechinchar - e o que ocorreu na estação havia sido pura falta de sorte. Eu, que ia sempre na frente, ao lado do taxista, por causa do meu tamanho, passei a puxar papo com os motoristas. Este era um cara muito simpático. Natural de Cochabamba, nos alertou para os efeitos do mal da altitude.
Só a título de informação, apesar do nome, Santa Cruz de la Sierra fica na planície do Pantanal (mesmo que já não seja mais Pantanal, de fato), a pouco mais de 300 metros acima do nível do mar. Para chegar a Cochabamba, é necessário subir a primeira parte da Cordilheira dos Andes. A cidade fica a 2.400 metros. Podemos compará-la com Campos do Jordão (SP), a cidade mais alta do Brasil, e que fica bem mais baixo, a cerca de 1.600 metros do nível do mar.
No meio da conversa, o taxista nos disse que gostava muito de música brasileira. "É mesmo, mas qual tipo?", perguntamos. Ele pegou uma fita e enfiou no rádio. Aumentou o som, e para a nossa surpresa começou a tocar uma música do goiano Amado Batista. Sem explicação.
Já na estação, começamos a pesquisar empresas de ônibus. A informação que eu tinha é que, nesta hora, muitos bolivianos viriam atrás de nós insistentemente oferecer os serviços de sua companhia. Não foi o que ocorreu. Muitos gritavam os destinos pelos corredores da estação, mas ficavam na deles. Assim, pudemos escolher com tranquilidade. O que não adiantou muito, já que não conhecíamos nenhuma empresa. Todas pareciam do mesmo nível. Fechamos com uma que parecia boa, pelo menos segundo às fotos.
A estação de Santa Cruz é uma verdadeira lástima. Muito movimentada, não há nada para fazer até o embarque. Até aí tudo bem. Mas, infelizmente também é bem insegura. Enquanto estávamos escolhendo a empresa, duas das nossas colegas foram abordadas por homens que se diziam policiais. Lembrando que na Bolívia é comum falsos policiais pararem turistas, pedirem o passaporte, levá-los até uma sala, onde exigiam uma boa quantia em dinheiro em troca da devolução do passaporte. Por sorte, uma delas disse que estavam em mais três, e os pilantras logo desistiram.
Subimos e ficamos tranquilamente em uma lanchonete até se aproximar a hora do embarque. Estava ansioso. Primeiro porque havia ouvido que os ônibus na Bolívia atrasam muito, são de péssima qualidade, não param em um lugar certo na rodoviária e vendem mais de uma passagem para uma mesma poltrona. Como era a nossa primeira viagem de ônibus lá, queria entrar logo no ônibus e checar item por item.
Descemos e entramos na área de embarque para encararmos o horror. Havia uma calçada bem estreita para o grande número de pessoas que circulavam naquele local. Vários bolivianos estavam esparramados pelo chão, comendo comida de rua e conversando uns com outros. Ali, começou a dar insegurança. Então cada um de nós mirou para um lado deixando que nossas mochilas ficassem todas viradas umas para outras, formando uma cruz. Estratégia para não sermos surpreendidos.
Demoramos um pouco ali. Não porque o ônibus estava atrasado, mas porque realmente havíamos chegado mais cedo. Estava preocupado em perder o ônibus. No bilhete não havia indicação de plataforma, mas o atendente que nos vendeu indicou aquela onde paravam os ônibus da companhia. Detalhe: Para economia de papel, o nosso bilhete era apenas um, indicando que havíamos comprado cinco poltronas.
Também pensava se o ônibus seria mesmo um bus-cama, de dois andares, que o rapaz da empresa havia garantido para nós. Só via ônibus velhos em toda a grande extensão da estação. No horário certo, um grande ônibus apontou na plataforma indicada. Esperou um pouco, até que um outro da mesma empresa deixasse o lugar, e assumiu o posto. Era o nosso. E de dois andares. A primeira vez que viajaria em um destes. Eram os últimos lugares do segundo andar. Foi só agradecer a DEUS por dar tudo certo. Cochambamba, aí vamos nós.
Mapa do Caminho - Dia 4
Data: 06/06/2007
Saída: Santa Cruz de la Sierra, Bolívia
Chegada: Cochabamba, Bolívia
Distância percorrida no dia: 552 km
Empresa de ônibus: Renacer
Duração da viagem: +- 11h
Tarifa: Bs. 60 (+- R$ 17,15 na época)
quinta-feira, junho 05, 2008
Dia confuso
A minha grande lamentação era não ter conseguido apresentar aos meus colegas o famoso 'Pintado à Urucum', prato muito famoso no Pantanal e extremamente saboroso. No nosso quarto coletivo (não havia quartos privados neste albergue), havia apenas um rapaz hospedado. Na verdade era um portuguê-californiano. Estranho não? Foi o que eu pensei quando ele começou a falar o português, e eu não conseguia me decidir se eu deixava ele continuar ou pedia para ele prosseguir em inglês.
De família portuguesa, o nosso companheiro de quarto tinha uma empresa de importação nos Estados Unidos. Ele importava iguarias portuguesas, tal como azeite, olivas e etc..., de uma empresa de sua família, em Portugal. Parecia ganhar bem. Estava em férias de seis meses pela América do Sul. O interessante foi a sua cara quando apresentamos o nosso roteiro e informamos que iríamos percorrer toda aquela distância em apenas 24 dias. "Um pouco apertado, não?", perguntou. A vontade era responder: "É porque existe uma coisa que se chama trabalho e que nós precisamos voltar a praticá-lo no início do mês que vem". Enfim, ficou na vontade.
Dei a idéia a todos de irmos até a Bolívia pela manhã. Em Puerto Quijarro há uma Zona Franca (um pequeno shopping), onde se vende muito produto interessante (importados e locais) por preço geralmente reduzido. E nós precisávamos nos preparar para as 16 horas de viagem no Trem da Morte, até a cidade boliviana de Santa Cruz de la Sierra. Com quatro de nós optando pela visita à fronteira (a Lorena preferiu ir tirar fotos no porto), partimos rumo a praça principal para tomarmos o ônibus até a alfândega.
Como demorou este ônibus! Lembrei do transporte coletivo de Goiânia, os incontáveis problemas e a falta de vontade de resolvê-los, tanto pelo poder público como pelas empresas que monopolizam o sistema. A cada minuto que passava, a minha ansiedade aumentava, já que o trem sairia às 16:30 e até lá tínhamos ainda muitas coisas para fazer. Depois de mais meia hora de espera, um ônibus anunciando "Fronteira" parou em nosso ponto e várias pessoas entraram.
A viagem foi rápida. Em no máximo 15 minutos estávamos diante da ponte que demarca oficialmente a divisão política entre Brasil e Bolívia. Era o primeiro marco na nossa viagem. Enquanto eu pensava isto, notei que um grupo de três meninas bolivianas desembarcaram junto com a gente e caminhavam rumo a Bolívia. Todas estavam muito bem trajadas, com um impecável uniforme escolar. Os livros embaixo dos braços não deixavam dúvidas - estavam vindo da escola. Detalhe: as três moravam na Bolívia e estudavam em uma escola brasileira. Cruzavam aquela fronteira todos os dias. Foi o suficiente para contem minha empolgação (rs).
A rotina das graciosas gurias pode até passar a impressão de que a fronteira é um lugar tranquilo, mas, acreditem, não é. Por ali todo o cuidado é pouco, principalmente para quem está levando quantias consideráveis em dinheiro. Contudo, também não é necessário se preparar para um campo de batalha. É só evitar dar bons argumentos para que alguém possa ver você como uma boa alternativa de vítima de saque.
Já em solo boliviano pegamos um táxi. Um carro velho, dirigido por um rapaz com feições tipicamente bolivianas. Por dentro havia bajulaques de todas as espécies, presos aonde nem se imagina. A felicidade imperava na cara do taxista. Ele nos explicou que naquele dia, nem um antes, nem um depois, naquele MESMO DIA QUE ESTÁVAMOS PASSANDO POR LÁ, o presidente da Bolívia, Evo Morales, iria visitar a região. Visivelmente era o evento do ano na cidade, já que durante todo o caminho, o motorista buzinava para moradores que estavam nas ruas e balançava uma bandeira em apoio ao presidente. Era perceptível que Morales era querido por lá, pelo menos pela maioria.
Andamos pela Zona Franca, compramos e comemos uma comida muito boa, em um restaurante por quilo. Dias depois ninguém me tiraria da cabeça que esta cozinheira era brasileira. Na volta pegamos mais um táxi boliviano, que nos levou de volta até a fronteira (eles possuem um acordo com os taxistas brasileiros - eles não trabalham no Brasil e os brasileiros não fazem corridas na Bolívia). Desta forma, cruzamos a ponte a pé e pegamos um outro táxi, já em solo brasileiro. É claro, todas estas corridas tiveram antes uma grande sessão de negociações, para fechar um preço fixo. Vale lembrar que o preço boliviano é MUITO menor do que o brasileiro.
Dentro do táxi brazuca, pudemos ver que a diferença ia muito além do preço. Além do carro ser bem novo, internamente era muito bem organizado. O motorista guiava tranquilamente o seu táxi, diferentemente da festa que fez o nosso ex-motorista boliviano. Para fechar a comparação com chave de ouro, no táxi boliviano tocava uma música típica alta, enquanto que no brasileiro um sambinha tranquilo dava o tom do ambiente. Perfeito. É exatamente este contraste que caracteriza a diferença de dois países com culturas tão distintas e evidenciados tão claramente naquela região, já que fisicamente estes dois universos estão muito próximos.
Chegamos ao albergue. Pronto. A partir daqui foi uma correria tão grande que se for contar todos os detalhes, pode apostar que vou amanhecer escrevendo. Então, vamos resumir. Na portaria, ficamos sabendo que o rapaz de quem compramos as passagens ainda não as havia deixado no albergue, conforme combinado. Tudo bem, precisávamos ir no centro, passar no banco, antes de arrumar as coisas e partir para a fronteira. Nosso medo era atrasar na imigração boliviana, onde teríamos que carimbar os passaportes.
Demorou um pouco, mas Alberto chegou com as nossas passagens em mãos. Tudo certo (graças a DEUS, novamente), exceto que ainda precisava chegar o nosso transporte de volta a fronteira, combinado na hora da compra. Enquanto isto, terminamos de arrumar as malas e partimos para o centro, rumo ao banco. Na volta, uma caminhonete velha, acoplada em uma carreta-leva-turista (aquelas que possuem bancos para que os turistas possam fazer city tour sentindo o vento no rosto), estava estacionada na porta. Quando vi, não acreditei que iriam nos levar naquilo. Aff. Mas enfim fiquei quieto. O que eu mais queria era embarcar rápido no trem e relaxar depois de toda a correria.
Subimos todos com as suas respectivas mochilas e o jeito foi aguentar a vergonha da exposição. Para piorar, quando chegamos na estrada, uma operação tapa-buracos estava atrasando o trânsito que seguia sentido fronteira. Pra quê? Nesta hora, o motorista do caminhão ('terceirizado') começou xingar tudo, falou que estava atrasado e nos ameaçou deixar no meio do caminho. Ainda bem que o Alberto estava com a gente e acalmou o homem. Para relaxar, o motorista colocou uma música velha dos anos 70 (não me lembro qual, mas era famosa). Foi o suficiente para que duas de nossas companheiras começassem a dançar, mesmo que timidamente, na carreta aberta. Pararam logo que foram saudadas pelo pessoal que fazia a obra na estrada.
Chegamos na imigração. Tudo certo? Que nada, mais problemas. Por causa da visita de Evo Morales, a imigração não abriu no período da tarde. A situação nos deixou em um dilema - ou esperávamos para ver se alguém viria nos acudir, ou então entrávamos ilegal na Bolívia. Com todo o respeito que a Bolívia merece, não me agradava esta última idéia. Contudo, estava disposto a colocá-la em prática, principalmente porque todos os bolivianos ao redor da imigração nos dizia que não teria problema algum. "Vocês carimbam quando chegarem em Santa Cruz. Expliquem que o presidente estava aqui, não vão fazer nada", falou um boliviano com quem conversei uns vinte minutos, esperando alguma ação das autoridades de fronteira.
O relógio se aproximava das quatro horas da tarde (lembrando que o nosso trem sairia às quatro e meia). Uma fila já estava formada frente a imigração, com brasileiros e outros gringos. Quando faltavam apenas cinco minutos para a hora cheia, decidimos que quatro horas seria o nosso 'deadline'. Faltando um minuto para o horário, eis que surge a notícia - iriam abrir a imigração para carimbarem nossos passaportes.
A partir daí foi uma correria. Isto porque tínhamos que preencher uma ficha longa e, em seguida, o policial batia o carimbo. Tanto nós (que íamos pegar o trem), quanto eles (que queriam ver o Evo) estávamos loucos para sair dali. Na correria eu esqueci uma sacola com a comida para a viagem, que havia comprado na Zona Franca, mas só iria notar mais tarde. Certamente serviu de lanche para as autoridades bolivianas, no dia seguinte. Combinamos com duas gringas para dividir o táxi até a estação. Desta forma, pegamos dois táxis. Quanto já estava prestes a escalar as escadas da estação (e realizar um sonho antigo de embarcar no Trem da Morte), eis que surge uma voz pedindo ajuda.
Me virei e vi a Lorena discutindo com um dos taxisistas. Não vou entrar no mérito, mas via que um não entendia o outro. Cheguei e vi que era apenas um mal entendido. Contudo, os dois não pararam com a troca de palavras acusatórias. Foi quando o motorista levantou a mão como se fosse dar um tapa na nossa amiga. Parou no ar, principalmente porque um amigo boliviano fez o 'deixa disso'.
Novamente me coloco em posição, e começo a subir as escadas. Nos últimos degraus levo um tropeção e quase caio de boca no chão. Penso: "DEUS, quem poderia imaginar que seria tão conturbado assim?". Mas ainda era pouco. Chegando na porta de embarque (uns 5 minutos para a partida), mais um problema. Tínhamos que pagar a taxa de embarque, de dois bolivinos por pessoa, mas, nesta hora, lembramos que, com a confusão, não havíamos feito câmbio. Não titubeei. Vi que o total daria dez bolivianos e passei a minha nota de estimação (que havia trocado uma outra vez que havia estado por aquelas bandas). A falta de dinheiro boliviano, porém, iria nos render uma noite sem comida no trem, o que descobríriamos apenas mais tarde. Foi nesta hora que percebi que a sacola com as minhas provisões já não estava em minhas mãos.
Mapa do Caminho - Dia 3
Data: 05/06/2007
Saída: Corumbá (MS), Brasil
Chegada: Santa Cruz de la Sierra, Bolívia - no dia sequinte
Distância percorrida no dia: 662 km
Empresa de trem: Ferroviaria Oriental
Duração da viagem: +- 16h
Tarifa: R$ 50,00
quarta-feira, junho 04, 2008
Na Fronteira
Se você for para Campo Grande, minha sugestão é que não pegue este ônibus, mas sim a linha direta entre Goiânia e Campo Grande, da Expresso São Luiz. Já viajei neste também, e digo que é mais sossegado. A turma do pagode não foi um problema tão grande, mas acabou estorvando um pouco, principalmente de manhã. Quando a viagem passou das dez horas, as intermináveis conversas entre os membros e o vai-e-vem entre as poltronas do ônibus fizeram com que eu desejasse chegar a capital sul-matogrossense o mais rápido possível.
Vale lembrar que o grupo ocupou grande parte das poltronas e entupiu o bagageiro inferior (um dos motivos do nosso atraso, em Goiânia). Como se não fosse o bastante, alguns integrantes falavam por meio de ecos. Não ficavam feliz em chamar uma pessoa pelo nome, como, por exemplo: "Ei, Vladimir!". O faziam desta maneira: "Ei, Vladimir-ir-ir-ir". Mas também ganharam um ponto extra de paciência comigo por terem se comportado bem durante a noite.
Chegamos a Campo Grande por volta das oito da manhã. Como nosso próximo ônibus saía apenas às 10:30, resolvemos procurar algum lugar para tomar café-da-manhã. Foi então que tive o primeiro contato com o peso da minha mochila. Engraçado que quando vemos fotos de mochileiros carregando suas mochilas, não pensamos o tanto que é desagradável carregá-la cheia de coisas (rs). Colocamos a dita cuja nas cotas (suspiro) e deixamos a rodoviária.
Para quem não conhece Campo Grande, é bom explicar que a sua rodoviária parou no tempo. É resultado de um projeto velho de rodoviárias, onde os ônibus se movimentam embaixo (tipo um sub-solo, mas aberto às ruas), enquanto que os guixês ficam na parte de cima. Soma-se ainda o precário estado de conservação que o prédio se encontra, multiplicando pelo fato que não há nenhuma lanchonete ou restaurante que valha a pena.
Desta forma, fomos procurar algum lugar decente nos arredores. Encontramos uma boa padaria, não muito longe dali. O problema foi carregar a bagagem. Era o primeiro dia, e os meus músculos ainda não estavam acostumados com o esforço. Além disto, andamos mais que o dobro do necessário, perguntando daqui, procurando dali. Após alguns salgados na barriga, voltamos.
Quando chegamos novamente na rodoviária, já eram dez horas. O nosso ônibus já esperava na plataforma. Que bom! Corri em sua direção, não vendo a hora de despachar a mochila. Apenas o primeiro 'sofrimento' de muitos, rs. Entramos, e ficamos esperando a partida, rumo aos últimos quilômetros de Brasil.
Foi muito bom me deparar com um ônibus mais novinho e limpinho do que o da Nacional Expresso. Aliás, tenho um pouco de birra com esta empresa. Pela sua grandeza, deveria ser bem melhor. A minha opinião foi justificada no Peru, mas esta é outra história que conto nos próximos capítulos.
A medida que deixávamos Campo Grande para trás, o Pantanal começava a mostrar a sua cara. Não foi um dia muito feliz para ver animais pela janela do ônibus, mas deu para observar alguns tucanos e outros tuiuius. Fora isto, a estrada de Campo Grande a Corumbá causa ansiedade. Não há grandes cidades e a distância de uma para outra é muito grande. Paramos em Miranda, pra lá das duas da tarde, para almoçar.
Foi a primeira (e última) vez que minha mãe me ligou (porque o telefone não pegou mais depois da fronteira). Queria saber se eu já havia chegado a Corumbá. Estávamos na metade do caminho ainda. A sua previsão, porém, não era absurda. Isto porque o planejado era pegar um ônibus mais cedo, em Campo Grande, mas o atraso do primeiro trecho nos impediu. E mais um atraso no segundo trecho, fez com que chegássemos à fronteira já no cair da noite.
Só para constar, toda vez que estou chegando a Corumbá me impressiono com algumas montanhas que há ao lado da estrada, há poucas dezenas de quilômetros da cidade. Acho muito bonitas. Descemos do ônibus e o clima de Bolívia já começou a dominar o ambiente. Vários 'operadores turísticos' nos abordaram perguntando se iríamos pegar o famoso Trem da Morte, até Santa Cruz de la Sierra. É claro que o tamanho das nossas mochilas entregava que éramos turistas, e isto fez com que a insistência crescesse. Não dei moral para nenhum deles e distribuí vários: "Não, obrigado!".
Só que ao chegar ao albergue, não pudemos mais disfarçar. Precisávamos das passagens para a cidade boliviana e, naquele momento, tinhámos duas opções. Ou esperávamos até o dia seguinte, para ir a Puerto Quijarro (cidade fronteiriça, de onde saem os trens) comprá-las, ou íamos atrás dos 'agentes'. Dois fatos acabaram pesando na nossa decisão em optar pelo segundo caminho - se deixássemos para o dia seguinte podería não sobrar mais nenhum bilhete, e isto seria fatal para o nosso planejamento já que perderíamos um dia inteiro na fronteira e, certamente, não chegaríamos a Uyuni a tempo para o nosso passeio (já reservado) no Salar. Além disto a recepcionista do albergue nos garantiu que indicaria uma pessoa de confiança para fazer a venda.
Fomos até a 'agência de turismo', uma salinha que não cabia mais do que quatro pessoas. Lá encontramos o Alberto (nome fictício) que tirou uma cópia de nossos passaportes e cobrou R$ 50,00 por cada passagem. Como éramos um grupo grande, ficou de nos arrumar um meio de transporte até a fronteira de fato (uns 5 km de Corumbá). Enquanto fazia as cópias, começou a nos contar histórias do caminho que íamos fazer. Nos recomendou cautela: "Cuidado com os bolivianos que oferecem serviços". E eu lhe disse: "Não dou bola, digo 'não', viro a cara e sigo o meu caminho". E ele emendou: "Que nem você fez comigo lá na rodoviária, né?". Foi daí que me lembrei que tinha passado por Alberto na nossa chegada a cidade e aprendi uma coisa - em Corumbá, turista nenhum passa despercebido.
Mapa do Caminho - Dia 2
Data: 04/06/2007
Saída: Campo Grande (MS), Brasil
Chegada: Corumbá (MS), Brasil
Distância percorrida no dia: 435 km
Empresa de ônibus: Viação Andorinha
Duração da viagem: +- 6h30
Tarifa: R$ 64,00
terça-feira, junho 03, 2008
Largada
Preferi dar um até logo a minha casa, como se fosse voltar dali a três horas. Não é confortável pensar que você vai passar tanto tempo sem poder desfrutar da tranquilidade do lar. Ainda mais, embarcando para um destino onde não sabía ao certo o que me esperava. Nesta hora o melhor é focar na parte positiva. Era o meu segundo dia de férias, e eu iria poder gozar de uma noite inteira viajando dentro de um ônibus, ouvindo músicas e pensando na vida. Tem horas que não há nada melhor.
Na rodoviária, o desafio era manter a calma. O que não foi difícil porque aos poucos foram chegando as pessoas. A primeira foi Lucimeire, amiga que deu o empurrãozinho necessário para que a viagem ocorresse. Ao seu lado, o seu irmão ainda em dúvida se a irmã estava fazendo realmente a melhor opção de encarar aquela jornada.
Aos poucos a plataforma foi ficando cheia. Rodrigo chegou com a Erika. O Fagner trouxe a Marina. Meus pais ficaram na espera até a saída do ônibus. A Lorena chegou por último, contrastando com o fato de que foi a primeira que comecei a combinar a viagem. O Hebert também apareceu para nos desejar boa viagem. Também havia outras pessoas, mas como tenho dúvidas não arriscarei nomeá-las. Enfim, uma pequena multidão. Lembro da foto tirada do grupo, que nunca chegou às minhas mãos (quem tiver, por favor, me envie, rs!).
A anciedade diminuiu com as conversas. Nem lembrava para onde estava embarcando quando entrei no ônibus. O certo é que até a natureza conspirou para que o momento fosse único. Tanto que foi difícil acreditar que, logo que o ônibus deu partida, começou a cair uma chuva fina que durou uns 15 minutos. Quem conhece Goiânia sabe que é um fato quase impossível para a época do ano.
Era só comemorar. Durante algumas horas o papo foi animado entre a gente. A capital goiana foi ficando para trás, na mesma proporção que a noite ficava mais densa. A primeira parada foi em Indiara (GO), em um posto da região, onde a atendente serviu um 'capuccino' muito peculiar para a Lucimeire - colocou café, leite e, já que estava correndo para atender todo mundo, entregou o copinho e pediu para a nossa companheira ficar mexendo até dar consistência. Certamente uma nova forma de interação entre cliente-empresa, onde ambos participam das etapas de produção do produto final.
Mapa do Caminho
Data: 03/06/2007;
Saída: Terminal Rodoviário de Goiânia (GO), Brasil;
Chegada: Campo Grande (MS), Brasil - no dia seguinte;
Distância percorrida no dia: 906 km, no percurso total entre as duas cidades;
Empresa de ônibus: Nacional Expresso (linha Brasília (DF), Brasil - Assunção, Paraguai)
Duração da viagem: +- 15 horas
Tarifa: R$ 121,38 + R$ 1,98 (Taxa de Embarque)
A Jornada - 366 dias depois
A viagem foi uma jornada terrestre de Goiânia até Lima, no Peru. O ponto alto foi a visita às ruinas de Machu Picchu, a cidade perdida dos Incas. Tive ajuda de quatro amigos, que toparam participar da jornada. Juntos vivemos experiências como uma família - vibramos nas partes boas, ajudamos uns aos outros nas difíceis e batemos boca nas horas mais quentes. Ou seja, foram 24 dias de um emaranhado de sentimentos distintos. No final, a certeza de que vivemos um banquete completo de novas experiências, tanto físicas como mentais.
Logo no início, mudei meus planos. Anteriormente decidido a relatar os principais fatos, já nos primeiros dias de estrada desisti de tomar notas e preferi mergulhar na essência daquilo que vivia, sem me preocupar em escrever. Apesar de ser simpático da idéia de gastar folhas e folhas de caderno em narrações de viagens, escrever, naquele período, significava não dar férias a minha mente, já que se confundiria com a minha profissão. E era justamente disto que precisava me afastar por uns dias. Não me arrependi.
Contudo, depois de 366 dias da largada no Terminal Rodoviário de Goiânia, por que não tentar passar para o papel (no caso, virtual) algumas das minhas impressões? Além de compartilhar um momento muito interessante da minha vida, aproveito a oportunidade para treinar, pois espero ter muito o que relatar nos próximos anos. Meu objetivo é escrever pequenos textos diários, fazendo um acompanhamento em 'tempo-real', exatamente um ano depois de que tudo ocorreu.
Se eu falhar algum dia, por favor me perdoem. Atualização diária é um desafio na vida de qualquer pessoa, mesmo aquelas que possuem na palavra o seu meio de sustento. Mas é um desafio que, a partir de agora, eu aceito.
Boa leitura a todos!
domingo, abril 27, 2008
13 sinais da necessidade de férias
Você está precisando de férias quando:
1 - Começa a achar que sua vida é uma irritante repetição;
2 - Liga o carro e, quando percebe, já está a caminho do serviço;
3 - No domingo já passa a mirar o próximo final de semana;
4 - Tudo que você faz é pensando no próximo feriado;
5 - Tem a lista de feriados decorada na cabeça;
6 - Acorda de manhã e pensa: “Que bom será quando me deitar a noite”;
7 - Acha que todo o final de semana precisa ter de três a cinco dias;
8 - Passa a se empolgar com ‘viagens’ a Trindade, Senador Canedo ou Aparecida de Goiânia (para quem mora em Goiânia);
9 - Faz contagem regressiva até as próximas férias;
10 - Calcula que faltam X meses para as férias e, depois de uma semana, refaz os cálculos e fica revoltado por ter chegado no mesmo resultado;
11 - Seus sites preferidos são agências de turismo, páginas que contêm informações de outras cidades, estados e países e empresas aéreas;
12 - Fica com vontade de arrumar as malas;
13 - Entra em êxtase quando chega o dia do vencimento das suas férias, mesmo que, na prática, você só poderá tirá-las seis meses depois;
quinta-feira, abril 17, 2008
Rotina, não-rotina e liberdade
Estava atualizando o meu blog de futebol e pensei em dar uma passada por aqui. Mesmo porque, como disse, são duas coisas diferentes. Aqui a liberdade é muito maior. E lá? Ah, lá a gente tenta seguir uma forma, aquelas coisas chatas que aprendemos na faculdade e que aplicamos no mercado de trabalho para sobreviver. É claro que é muito bom escrever lá também. Como aqui. Mas, como coisas diferentes, são prazeres diferentes.
Aqui o texto corre mais solto. Posso ficar teclando para o eterno sempre. Risos. Pera lá, tá bom, não vou fazer isto. Mas a liberdade é muito maior.
Até por isto, muitas vezes, fico sem assunto. É engraçado que, quanto mais temos liberdade, mais as coisas entram na rotina e daí.... Daí já era. Entrar na rotina é o primeiro pré-requisito para alguma coisa não existir mais. Você até faz esta coisa, mas fica tudo mecânico, sem nenhum prazer.
Fugir da rotina também não é solução. O nosso corpo precisa da rotina. Rotina é sinônimo de segurança. Não ter rotina é não ter segurança e cria uma insegurança no nosso ser. E viver inseguro, lhe garanto, não é nada bom. Então a vida tem de ser um misto de rotina com uma dose cautelosa de aventuras fora da rotina.
Vixe, olha só onde cheguei. Acabei deixando para o final aquilo que queria dizer. Na verdade, não foi o motivo principal deste post, mas já que estamos aqui.... Ah não é nada de importante. Enfim, to pensando em algumas séries para este blog. Penso em passar algumas experiências que tive até o momento na minha vida. Será legal registrar aqui e comparar depois. Para breve.
domingo, abril 06, 2008
Divagações
Foi bom mesmo ter que esperar um pouco para me deitar. Eu que pensei que não ia comer mais nada hoje, acabei tendo que fazer uma boquinha. E, sabe né, pessoa com gastrite é aquele drama: comeu e deitou antes da hora pode preparar o espírito para aguentar a azia.
Cá entre nós, foi uma boquinha para lá de 'meia-boca'. Leite com pão-de-queijo duro, ninguém merece. Sabia que ia ficar com fome. Também depois daquele pão envenenado, que me impediu de me esbaldar na picanha. Raios de quem tacou a mão no bicabornato de sódio. Nunca mais como aquele pão.
O positivo é que enquanto tentava engolir o pão-de-queijo (que tava mais para quebra-queijo), fiquei pensendo em um nome para completar o projeto. Mas só quando fui para o quarto é que meu cérebro concluiu: "É este!!". Taí, agora já não falta mais nada. Ok, falta escrever, mas isto a gente vai fazendo aos poucos. Já cansei de não ter o que falar. Agora já não há mais desculpas mesmo.... Ah, decidi.... Vou mesmo ver a Fórmula 1!!
sexta-feira, março 28, 2008
Jogo Diplomático
O detalhe é que do início do ano para cá eu postei apenas um texto. Foi sobre a imigração na Espanha, assunto bastante discutido na mídia durante o mês de fevereiro. Para mim tudo relacionado a isto é interessantíssimo, já que aprecio muito as relações internacionais. É intrigante notar como que as eleições de um país distante podem mudar a vida (no caso leia-se atrapalhar) de brasileiros que querem ir para a Europa (ou espanhóis vindo ao Brasil).
O engraçado é que ninguém costuma levar muito a sério a fiscalização de fronteiras nos aeroportos. A excessão, talvez, seja os Estados Unidos da era Bush, com o medo contínuo do chamado "terrorismo". Apesar do caso recente, os países europeus são menos rigorosos, e às vezes pegam alguns "bodes" espiatórios. Basta ver o relato de um monte de pessoas que vão sem os requisitos mínimos para adentrar a União Européia e passam numa boa.
No caso da Espanha, a eleição marcada pelo polêmico debate sobre a imigração no país fez com que o governo espanhol endurecesse o jogo. Mais engraçado de tudo, foi ver o Brasil ativar a política de reciprocidade e barrar espanhóis que vinham ao nosso país sem possuírem os minímos necessários para passar pela imigração.
Não há como condenar quando pessoas são barradas por não cumprirem a lei, seja onde for. O difícil é ver que dezenas de pessoas (brasileiros e espanhóis) foram usados como peões em um jogo político mais complexo. Passadas as eleições espanholas e a vitória de Zapatero, é inevitável notar que tudo voltou ao normal. E o assunto 'imigração' saiu da pauta da imprensa (principalmente televisiva) tão rápido como entrou.
segunda-feira, março 10, 2008
Folha manda repórter 'testar' imigração espanhola
Creio que o motivo incial da reportagem era mostrar como os brasileiros barrados no aeroporto de Barajas, em Madrid, eram tratados, já que o repórter nem mesmo preencheu corretamente a ficha de imigração. A reportagem é bastante interessante, confira o início: (o conteúdo completo só está disponível para assinantes Folha ou UOL)
"Entrei na Espanha e já consegui emprego"
Repórter da Folha teve de responder a uma só pergunta da imigração ("o que veio fazer aqui?") para entrar no país
Menos de 24 horas bastaram para conseguir um emprego de garçom na Espanha, ganhando cerca de 800 euros mensais (R$ 2.032)
ANDRÉ CARAMANTE
ENVIADO ESPECIAL A MADRI
Sem declarar o endereço do lugar onde pretendia ficar hospedado e mesmo sem informar se tinha um local para ficar, sem preencher corretamente a ficha de imigração exigida pela Espanha para os estrangeiros que tentam entrar em seu território, sem dizer quanto portava em dinheiro e sem o obrigatório cartão de seguro de saúde para turistas.
Foi dessa maneira, sem esclarecer todos os requisitos exigidos pela Espanha para liberar a entrada de estrangeiros em seu território, que a reportagem da Folha, sem se identificar como tal, entrou sábado no país. Mais do que isso: conseguiu emprego em menos de 24 horas.
O desembarque ocorreu no aeroporto internacional de Barajas, em Madri, por volta das 10h30 (6h30 no horário de Brasília), no vôo JJ 8064, da TAM, que deixou São Paulo sexta-feira à noite.Para conseguir o carimbo de autorização de entrada na Espanha, bastou a reportagem responder a uma única pergunta ao agente de "La Migra" espanhola que ocupava, no sábado, o guichê número sete da imigração em Barajas. "O que o senhor veio fazer aqui?", foi a dúvida do agente. "Turismo."
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