segunda-feira, agosto 14, 2006

São Paulo, a cidade dos preconceitos

- Ei moço, quanto custa uma corrida até o Arouche?

No mesmo instante que a pergunta era feita, um inevitável sorrisinho sarcástico era proferido pela face do taxista. Assim ocorria toda vez que precisávamos de uma condução mais segura para o nosso hotel, localizado no centro da capital paulista.

A nossa sorte foi que logo viríamos a descobrir o porquê daquela cena se repetir. O Largo do Arouche é o centro do homossexualismo de São Paulo. E olha que isto não é apenas a “fama” do bairro – as redondezas do Arouche e da praça da República é um local assumidamente gay, e chega ao ponto de algumas casas e estabelecimentos usarem a bandeira do arco-íris no lado de fora.

O curioso é que aquele fato nos rendeu boas risadas em toda a nossa viagem. Começamos a testar os motoristas de táxis que nos guiava pela metrópole:

- Moço, é verdade que o Arouche é, o senhor sabe.....?

- Olha, aquele região só tem gay.....

Era só eles confirmarem para a gente cair na gargalhada. Mesmo porque se a vizinhança não era totalmente agradável, também não nos causava problema. A nossa maior preocupação era pela outra característica da região.

- As pessoas que andam pelo Arouche e pela República não prestam. Se eu ficasse ali o dia inteiro, o dia inteiro eu ficaria prendendo bandidos que assaltam no Largo do Arouche. Tem assalto o dia todo, naquela região.

Esta confirmação quem nos deu foi um policial da guarda municipal. Graças a DEUS não nos deparamos com nenhum problema desta natureza. Apesar das expressões fechadas e individualistas das pessoas que passavam por ali, aquela região não me pareceu, ora nenhuma, perigosa a ponto de haver crimes o dia inteiro.

O que vi por lá era vários mendigos. E por falar nisso, como tem mendigos em São Paulo. Se você der apenas um centavo para cada pessoa que te pedir dinheiro, no fim do mês pode ter certeza de que perdeu uma soma considerável. O pedinte que mais ficou na memória foi, surpreendentemente, o único que contribui com alguma coisa. Foram os R$0,50 que mais me arrependi de ter dado a alguém. Isto porque ele não ficou contente, veio atrás de nós e ainda me xingou pelas costas. Fazer o que?

Mas o que mais marcou nos quatro dias em que ficamos na região central de São Paulo foi a diversidade do povo e a segregação das diferenças. São Paulo é uma cidade de guetos. Além dos homossexuais, por ali havia guetos de nigerianos e de bolivianos. Apesar da grande metrópole ser, talvez, a cidade mais heterogênea do país, o preconceito é algo embutido nas pessoas.

- Vocês deviam ter ficado em outro lugar, por aqui não há nada que preste – disse um motorista de táxi.

A gente se divertia bastante naquela situação. A viagem não teria o mesmo valor sem notar as contradições daquele mini-universo que possui, ao mesmo tempo, pessoas que se juntam para terem forças a fim de lutar contra o preconceito, e de outras que não querem, nem mortas, passarem perto. E, no Arouche, nós éramos apenas testemunhas daquele processo. Na realidade, para nós o lugar significava apenas uma melhor localização e, assim, um menor valor na hora de pagar o táxi.

- Moço, vamos até a Vila Madalena, faz a corrida por R$20,00?

- Não dá, só por R$30,00!

- Mas um outro cara ontem fez para a gente por R$20,00. Faz por pelo menos R$25,00?

- Tudo bem, entra aí!

6 comentários:

Lorena Verli disse...

Passei pelo Largo do Arouche no sábado e me lembrei de vocês. Eu não conhecia tal região, mas descobri que fica mais para frente na Rua Consolação... Mas, aqui em Sampa, algumas regiões são realmente muito relegadas por todos... É mais fácil colocar os óculos escuros e tapar o nariz, não é mesmo... Nesse mesmo sábado eu fui para a Liberdade, jantar... aquilo, à noite é algo completamente diferente... nunca tive medo de andar à noite em Sampa... ali, eu tive. Engraçado isso!
Quanto ao preço da corrida... nunca ouvi falar nisso por aqui. É a primeira vez que vejo alguém combinar preço da corrida antes dela acontecer por aqui. Mesmo porque, com pouco trânsito, do Arouche à Madalena não dá 20 reais nem a pau. Eu pago 27 de Pinheiros à Tietê, que é do outro lado da cidade, com bandeira 2 e Marginal cheia de carros. E ainda acho um roubo...
Mas dá para perceber que você pegou um outro lado da cidade que poucos visitantes conseguem pegar... Eu só descobri essas nuances depois do meu primeiro mês aqui... Isso aqui é, como diria meu antigo chefe Ricardo, uma sucursal do inferno (rsrsrs).
Bjão, Sartora

Hebert Regis disse...

Tá combinado Eduardo. No Rio, a gente vai para a Rocinha. Nada de Copacabana, Leblon ou Botafogo. Afinal, a gente quer é diversão. Só não notamos a violência em Sampa. Por ser um bairro de gay, acho que os bandidos tem medo de chegar perto. Vô te contar. Ô povinho preconceituoso.
Mas falando sério, a gente se divertiu muito com as histórias do Arouche. Só depois víemos descobrir porque o Caco Antibes detestava o Arouche. Pensava que era de birra. Olha só!!! Abraço.

Ps: os barzinhos da Vila Madalena são bem legais. Melhor que os Arouche bear da vida!! eheheeheh

Rainer disse...

É...num lugar onde o flanelinha cobra 20,00 pra dar uma olhada na xaranga, o mendigo tinha mas era que te xingar mesmo...HEHEHE

Entrei pra essa máfia!

Abraço.

Ana Carolina disse...

Adorei quando você contou essas história do preconceito.

Boa Sorte!!! HOJe estou aqui com os dedinhos cruzados torcendo por você

Did disse...

uma graça, sartorato. Adoro me divertir com as histórias e impressões das outras pessoas. e esse seu modo de ver a viagem realmente me agrada. ao invés de acharmos ruim ou entrarmos na onda do preconceito temos mais eh que rir mesmo!!
Bjao
Did

Fellipe Fernandes disse...

Vc não vai matar nossa curiosidade nos contando como foi lá???????? pelo amor de Deus!!! já liguei no seu celular centenas de vezes! já tá me dando brotoejas! rsrsrs vai dar certo! vc vai ver. Um abraço.

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