domingo, agosto 16, 2009

Aviso aos navegantes

To sem inspiração (para não falar outra coisa, rsrs) para atualizar o blog. Uma dor de dente (ciso) horrível me ataca desde de sexta-feira. Espero estar bem logo para escrever, já que não me faltam assuntos. No início da fila está a visita à belíssima cidade de Lucca.

sexta-feira, agosto 07, 2009

As regras do jogo

Eu sei que já comparei a minha saga pelo reconhecimento da cidadania italiana com o Big Brother, mas a cada dia que passa as semelhanças são tantas que é inevitável voltar ao assunto. As vezes me deito na cama e fico olhando para o alto, a procura das camaras. Não é possível que ninguém esteja assistindo isto. Que desperdício, rs.

Mesmo podendo sair de casa, ver novas pessoas e entrar em novas aventuras, a situação do jogo atual não nos poupa da rotina de não ter nada de produtivo para fazer. Há praga pior para o cérebro do que isto? As vezes acordo angustiado e o sentimento só vai passando com o desenrolar do dia. É, a pior espera é aquela que voce não sabe quando vai terminar.

Menos mal que há toda uma política de relacionamento entre os participantes deste jogo, o que não o deixa tanto monótono. Os sentimentos, porém, muitas vezes, parecem mergulhados em um bojo de liquidificador, pronto para bater. Pode ir do insuportável ao maravilhoso em poucos minutos.

O jogo, enfim, é assim. As regras são estas, o caminho é este. Quando mais chego perto do final, mais ele espicha. É como um labirinto, que voce não sabe quando conseguirá sair. A palavra por aqui é controlar os sentimentos e torcer para que o tempo passe rápido. Espero que consiga atingir a linha de chegada antes que o liquidificador estrague e a massa vaze sobre a pia e respingue no chão.

PS: A série Roma ainda terá outros capítulos por vir. Este post foi só um intervalo.

sábado, agosto 01, 2009

Roma II - O metro

Roma tem duas linhas de metro. A principal é a vermelha, que liga a Estação Termini a pontos estratégicos da cidade, como a Piazza Spagna ou o Vaticano. A secundária é a azul, que cruza com a primeira no Termini e liga os romanos a outros marcos da cidade, como as Estação Tiburtina e Ostiense, o Colisseu e o Circo Massimo.

As linhas C e D já estão planejadas. A C-verde, inclusive, já está em construção, cruzará a linha A nas estações Otaviano e San Giovanni, e a B na estação Colosseo.

Para uma cidade de quase 3 milhões de pessoas, Roma tem uma rede de metro pequena, em comparação às outras cidades da Europa. O fator complicador é que toda a capital italiana é zona arqueológica, e antes de fazer qualquer construção subterranea é necessário estudos e mais estudos. Com isto, é claro, o quilometro do metro fica muito mais caro.

No domingo, 26, utilizei pela primeira vez a metropolitana de Roma, juntamente com um grupo de amigos. Saimos da estação Vittorio Emmanuelle rumo ao Vaticano, estação San Pietro. Entre a primeira e a terceira estação (Repubblica) fiz um pequeno video dentro do trem. Confiram!

quarta-feira, julho 29, 2009

Roma I - A ode

Muito antes deste escriba resolver ir para a Europa, ou até mesmo antes de saber o que era lead ou agenda setting, durante uma aula de cursinho, um professor empolgado disse uma frase que nunca esqueceria: "Roma foi grande!".

Não deixaria aquela frase escapar da minha mente porque foi repetida umas 2.000 vezes durante a aula de história. O cara era pra lá de empolgado com Roma, e achava que a aula dele era a oitava maravilha do mundo. A aula foi legal, mas a frase, sem dúvida, melhor.

Ela, porém, tinha uma falha. Roma não foi grande, Roma é grande. Ou melhor, Roma é surpreendente. Mesmo com tudo o que a gente estuda durante 20 anos de ensino fundamental, médio, e outros, a cidade consegue te causar surpresas a cada esquina. É só virar em uma rua e pode ter certeza que Roma vai te surpreender.

Roma é a expressão do mundo ocidental. Uma cidade que virou império e que depois voltou a ser cidade. Não tem monumentos. A própria cidade é um grande centro histórico cheio de aspectos do mundo. Não só a capital da Itália, mas da nossa própria cultura.

Um labirinto imprevisível. Mesmo com um mapa na mão a probabilidade de voce se perder é grande. E que se perca. Porque se não chegar onde previa, vai se surpreende com outra parte da cidade que nem pensava em ver naquele momento. Roma é assim. Imprevisível. É Roma.

quarta-feira, julho 22, 2009

O bruxo em italiano

Em Goiania já era tradição: segunda-feira, dia de ir ao cinema. Quando fixei a data de vinda para a Itália sabia que não manteria este costume, mas tinha certeza de que o primeiro filme que veria na telona era Harry Potter e o Enigma do Príncipe, ou Harry Potter and the Half-Blood Prince.

Aqui na Itália, porém, o correto não é o primeiro e nem o segundo nome. Naturalmente, se chama Harry Potter e il Principe Mezzosangue. Só que a tradução para o italiano não para por aí. Diferente do Brasil, os filmes exibidos aqui são todos traduzidos. Nada de língua original e de legenda.

Já que moro em um centro pequeno, há apenas dois cinemas na minha cidade. Um deles, acreditem, está fechado devido às férias de verão. Coisa de italiano. O outro só está exibindo um filme em um única sessão diária, às 22:00. Por minha sorte o filme da vez é o do bruxo. Hoje criei coragem e encarei.

Logo na entrada um ponto positivo em relação ao Brasil. O ingresso inteiro custa 6,5 euros, ou seja, bastante acessível para os cidadãos daqui. Na Itália não tem meia, mas sim um preço reduzido que, se não me engano, era de 4,5 euros.

O cinema só tem uma sala, grande e confortável. Tá, o espaço entre filas é pequeno, mas para o meu tamanho sempre é e sempre será, independente do local. A poltrona não tem um encosto muito grande, mas é de veludo e bem fofa.

Notei que era, talvez, a única pessoa que havia ido sozinho. Casais de namorados, famílias, mãe e filho. O cinema por aqui é lazer para grupos. Não diferente do Brasil, é verdade. Antes do filme, música. Não fugindo a atual regra, um repertório inteiro de Michael Jackson.

Queria avaliar a pontualidade. Não estou na Inglaterra, mas mesmo na Itália as pessoas são muito mais pontuais do que no Brasil. Ponto positivo. Exatamente às 21:59 mais 30 e alguns segundos a iluminação abaixou e o filme começou.

Nada de traillers, nem dos famigerados comerciais. A primeira imagem que veio foi o símbolo da Warner Brothers e daí já prosseguiu-se. A tela não era grande e as cortinas para os corredores não foram fechadas, deixando entrar iluminação para dentro da sala. Ponto negativo.

Exatamente na metade do filme a projeção parou. Hora do intervalo. Todos de pé para irem no banheiro, ou comprar mais pipoca.

O meu maior temor era em relação à língua. Ver algo em outro idioma sem legenda não é fácil. A história foi amadurecendo e, se eu não entendia 100%, pelo menos não fiquei perdido em nenhuma parte. É claro que já tinha lido o livro duas vezes, e já conhecia bem a história, mas até mesmo nos trechos que foram enxertados pelo roteirista não tive maiores problemas. Nas piadas a minha moral só aumentava, já que eu conseguia compreender e rir juntamente com a platéia italiana.

Não vou avaliar o filme, até porque estava tão rodeado de coisas novas que preferi me divertir ao invés de 'caçar defeitos'. Aliás, na minha humilde opinião, este foi o melhor livro de todos os sete. Achei falta de uma batalha mais ampla no final, como é narrado por J.K. Rowling. Saí do cinema satisfeito, pronto para a próxima. Desde que, é claro, o enredo não seja tão profundo que meu italiano não de conta do recado.

PS.: Estive um pouco ocupado nos últimos dias, por isto não atualizei. Continuarei com as novidades constantes. Tenho muita coisa para escrever, sobre a minha ida a Pisa, o festival latino-americano em Milão, os banheiros públicos na Itália, as minhas primeiras experiencias como motorista, além das clássicas, como andar de trem na Itália e quanto custa para morar por aqui. Aguardem!!

terça-feira, julho 07, 2009

Manchetes do dia

Já não sou mais um prisioneiro. O vigile passou e agora posso tocar a vida sem restrições aqui na Itália (Se você não entendeu, explico em posts futuros). Para comemorar, fui dar um giro pela cidade. Passei por uma feira semanal, que tem aqui toda a terça-feira, com muita roupa e produtos do tipo 'made in Paraguay'. Só olhei, já que tenho que controlar os meus euros.

Depois do almoço fui na biblioteca. Toda cidade aqui na Itália tem uma biblioteca pública e de qualidade. À disposição para empréstimos tem até filmes em DVD. O acervo não é muito grande, mas de graça até injeção na testa, não é? rsrsrsrs.

Me sentei um pouco para ler o Corriere della Sera, jornal diário milanês, um dos mais respeitados da Itália. Na 'pauta do dia' a principal notícia é a reunião de cúpula do G-8 na cidade de L'Aquila, capital da região de Abruzzo, que em abril último sofreu uma série de infelizes abalos sísmicos que matou centenas de pessoas.

A crise financeira e a interação entre os países deveriam ser os assuntos mais ventilados antes da reunião, mas uma série de novos terremotos, de menores proporções, é verdade, colocou a segurança do próprio evento como prioridade. Por aqui se brinca que só falta o Berlusconi ser o anfitrião de um fim trágico dos maiores líderes do planeta. Enfim, depois de todos os escândalos.....

Um novo pacote que dificulta ainda mais a vida dos imigrantes também é assunto no jornal. Um protesto de 'bandantis' (pessoas que trabalham tomando conta de idosos) abriu uma de suas páginas. Na foto, uma mulher com um cartaz que dizia: "Se eu não trabalho a sua avozinha vai para o hospício". Isto porque um dia antes um dos ministros deu uma entrevista falando que algumas badantis, que são badantis de verdade, vão ter que pagar o preço por aquelas mentem e acabam como prostitutas ou receptoras de drogas. Enfim, o eterno problema de imigração na Europa.

No fim ainda tinha uma reportagem sobre a intenção da Ryanair (maior empresa aérea low-cost da Europa) de transportar pessoas em pé, em seu novo plano de transporte barato. A idéia já é antiga, mas que ninguém se surpreenda se isto realmente vingar. Para aumentar o nível de esquisitice da página, o jornal ainda trouxe, em uma correlata, a história de um passageiro que ajudou a consertar o avião de uma companhia inglesa e evitou um atraso que seria de quase oito horas em seu vôo. Ele, é claro, era engenheiro aeronáutico e foi recebido com aplausos pelo restante dos passageiros. Imaginem só.

sábado, julho 04, 2009

Big Brother..... Itália

Sempre tive uma opinião pouco republicana sobre o Big Brother, programa criado na Holanda e comercializado em todo o mundo pela Endemol. Enquanto vários ‘diplomados’ e politicamente corretos não se cansam de pichar o reality-show, eu vou na contra-mão e consigo enxergar aspectos interessantes.

Você deve estar pensando que falo das bundas estrategicamente bem focadas, ou do prêmio de R$1 milhão, bolada levada pelo último vencedor da versão brasileira. Não. É claro que as ‘traseiras’ das participantes são desejadas, assim como o dinheiro me viria bem a calhar, mas me refiro a algo mais profundo.

A convivência diária e intensiva com pessoas, até então, desconhecidas, e a necessidade da criação de toda uma política de interação e sobrevivência, sempre me cativou. Não escondo que tenho um lado de interesses psicológicos intensos e que uma experiência deste tipo é desejada.

Ainda não fui selecionado para o Big Brother Brasil, Itália, Argentina ou Fim-do-Mundo, mas ando tendo uma experiência interessante aqui no velho continente. Já que não conhecia pessoalmente nenhuma das pessoas das quais estou compartilhando o mesmo espaço, sinto-me no meio de um jogo como o da TV.

Para deixar a coisa ainda mais ‘realista’, há cerca de 15 dias estou meio que confinado em casa, à espera do vigile (tipo de um policial municipal) para a confirmação da minha residência. Não posso sair nos dias úteis, no horário comercial. Quando o relógio chega às 18:30 me sinto como se tivesse terminado o ‘castigo’ do dia.

Por enquanto não tenho enlouquecido. Principalmente porque as pessoas aqui ‘da casa’ são muito gente boa e eu já vim preparado psicologicamente para toda esta situação. Sinto que esta é a primeira, mas não será a última vez que passarei por uma situação deste tipo. Tomara, já que são ocasiões ricas e de aprendizagem. Talvez, sei lá, no futuro, esta experiência possa ser realmente rica, literalmente, rsrs.

quarta-feira, julho 01, 2009

Duas semanas

Completei duas semanas na Italia. Eis alguns aprendizados e observações:

- Mudar de país não quer dizer, necessariamente, revolucionar a sua vida. Mesmo em um local distante a sua rotina pode permanecer quase a mesma;
- Em resumo: a Itália não é tão diferente do Brasil assim. Isto, é claro, analisando o contesto geral;
- Deixar um lugar onde você mora, a sua casa, onde você conhece muita gente, para ir morar em um local desconhecido com um monte de gente que você não conhece pode ser interessante;
- Fazer novas amizades é interessante. É difícil imaginar o quanto é rica a convivência diária com novas pessoas;
- Morar perto da praia não muda muito a vida;
- A melhor maneira de aprender a língua morando em outro país é sair bastante de casa;
- A espera é a pior das angústias;
- Verão na Itália é quente. Troppo quente.
- Uma garrafa de Jack Daniels acaba rápido;
- Lambrusco de 1,5 litro por 1,5 euro é maravilhoso;

quinta-feira, junho 25, 2009

Por que eu não vi o Coliseu?

Depois de uma noite mal dormida eu já sabia que teria que sacrificar algum dos meus planos. Chegaria em torno de uma da tarde em Roma e poderia me mandar para a Toscana apenas no final da tarde. Passaria algumas horas na cidade, tempo suficiente para conferir o seu maior monumento, o Coliseu. Pelo menos este era o meu plano principal.

A viagem entre Lisboa e Roma foi torturante. Desde a decolagem eu só pensava em chegar à capital italiana e não ter que embarcar em mais nenhum avião. Do alto eu vi a linda Sardenha, com suas praias maravilhosas. Senti um alívio gigantesco quando um dos comissários anunciou o pouso.

Demorou para mim pegar as malas. Aliás, o sistema de entrega de bagagens do Aeroporto Internacional Leonardo da Vinci deixa um pouco a desejar. Estava receoso em relação ao meu italiano e já sentia um pequeno medo por estar, pela primeira vez, sozinho em um país que não fala a minha língua.

Logo fui descobrir que meu italiano estava bom. Pouco antes do desembarque fui parado por um policial que me fez as perguntas básicas. Deu uma boa olhada para as minhas malas, mas não as abriu. Me virei bem.

Na saída mais uma prova de que podia ficar um tanto quanto sossegado em relação ao novo idioma. Um motorista de táxi veio me oferecer uma corrida e eu, logo após negar, já emendei: “Dovè la stazione? (Onde é a estação)”. E não é que ele me explicou direitinho, tanto que nem errei o caminho? Comprei uma passagem para o Leonardo Express (que liga o aeroporto a Roma Termini, principal estação da cidade), e embarquei.

Neste momento eu percebi que logo teria um fardo a carregar, literalmente. Levar mais de 30 quilos de bagagem não é brincadeira. Fui descobrir isto na pior hora possível. Não havia outro remédio.

Além da mochila que levava nas costas (com 15 quilos), carregava mais uma mala (14 quilos) e uma mochila (7 quilos) nas mãos. Com o tempo as alças da mala foram ferindo os meus dedos e meus músculos começaram a doer. Imaginem a cena: eu, em Roma Termini, não conseguindo carregar a minha bagagem.

A vontade era largar tudo em um canto e ir embora. Como não era possível, e eu muito apegado às minhas coisas, continuei a carregá-las. Foi inevitável. Quem passou do meu lado, sem dúvida, teve um pouco de dó. Eu carregava as malas durante uns 30 segundos e parava para descansar. Não conseguia ir além. Na somatória dos problemas eu não sabia onde tinha que ir para comprar a passagem de trem e a estação era enorme. Me perguntei mais de uma vez: “o que estou fazendo aqui?!”

Nesta hora já sabia que minha visita ao Coliseu (há alguns quarteirões dali) era inviável. Mesmo se deixasse a bagagem no guarda-volumes, estava esgotado fisicamente. Resolvi economizar alguns euros (oito só para deixar as malas lá na estação), esperar o trem e me mandar para a Toscana. Aliás, da onde eu iria ficar até Roma eram apenas 15 euros, e eu poderia voltar em uma outra oportunidade, com mais calma. Assim deixei a capital italiana, rumo ao norte do país.

sábado, junho 20, 2009

Como irritar um português

Após uns 20 minutos de espera, foi a minha vez de apresentar os documentos. Um novo guichê foi aberto bem na minha vez. Logo após a mulher da minha frente se dirigir ao seu próprio, me dirigi a esta nova porta. Olhei para o oficial português e disse “bom dia!”, mas ele estava entretido conversando com o seu colega ao lado e não respondeu. Apenas pegou o meu passaporte e começou a olhar.

- Bom dia (falou seco, ríspido e rápido), qual é o motivo da viagem (com o mesmo tom)?

- Vou para a Itália reconhecer a cidadania italiana.

Logo fez uma cara de quem comeu e não gostou, e respondeu – Mas isto não se faz aqui, você tem que fazer lá no consulado (já com um humor de quem tinha acabado de acertar o dedão na cama, acentuando o sotaque português).

- Não, eu tenho que apresentar o pedido ao comune italiano – respondi.

- Mas para que você quer a cidadania? (com o mesmo tom)

Neste momento não acreditei que teria que responder aquela questão cretina. Antes, porém, de eu poder pensar em algo educado para responder, ele prosseguiu.

- Você quer a cidadania para vir morar aqui?

- Não sei o que vou fazer com a cidadania. Posso vir. Talvez estudar, mas não sei ainda. (tentei dar um tom de ‘não é da sua conta’).

- Mas por que você pode ter esta cidadania – questionou levantando um pouco a voz.

- Porque meu avô era italiano.

- De onde?

- Treviso, Itália – queria falar ‘Treviso, Vêneto’ mas estava com um misto de nervosismo e muita raiva.

Baixou o olho, esperou uns segundos - Vai ficar quanto tempo?

- Até dia 10 de setembro.

- Até dia 10 de setembro? repetiu com tom de desdenho – Onde vai ficar?

- Em Livorno.

- Você tem parentes aqui?

- Não, vou ficar na casa de um amigo – Desta vez eu antecipei – Eu tenho uma carta, o sr. quer ver?

Ele franziu a testa e, sem olhar para mim, respondeu – Sim, dê-me.

Peguei calmamente a carta na minha mochila e lhe entreguei. Ele começou a analisá-la quando o seu rosto começou a mudar de expressão.

- Mas isto aqui não vale para nada – com olhos cheios de cólera e começando a gritar – Esta em italiano, como que o sr. apresenta uma carta em italiano a um oficial português? Isto serve lá na Itália, mas aqui não. E blá, blá, blá... (começou a falar pelos cotovelos e me dar um sermão monumental).

Eu tinha dois caminhos: esnobar a raiva dele e falar que estou indo para Itália, então a carta tem que estar mesmo em italiano, ou admitir que isto tinha sido um erro. Já que as coisas não estavam boas para o meu lado, preferi a segunda opção.

- É, realmente foi um erro. Eu iria pegar um vôo direto e acabei mudando de última hora.

Mas o oficial não me escutava, continuava reclamando, falando e não me deixava explicar. Sem mais nada o que fazer, olhei para a cara dele, e o esperei terminar.

- Blá, blá, blá, e esta carta não vale nada – parou.

Contorci os lábios para abaixo e abri as mãos como dizendo “o que o sr. quer que eu faço”. Ele respirou fundo, e, pela primeira vez desde que eu havia lhe dado a carta, falou sem gritar.

- O que o sr. faz no Brasil?

A-há, ponto para mim! Desde o início estava esperando esta pergunta.

- Sou jornalista.

- Ah, é jornalista? – questionou novamente fazendo descaso.

- Sim, sou jornalista – E com um só movimento peguei a minha carteira internacional de jornalista e a coloquei entre os seus olhos e o meu passaporte, já que neste momento ele estava analisando o meu documento de viagem.

- Ele a abriu, verificou e não falou mais nada. Olhou para o meu passaporte. Encheu os pulmões de ar, fazendo menção de que falaria algo, mas desistiu. Pegou o carimbo e bateu no meu passaporte.

- Passe – resumiu, com tom de ressentimento e entregando de volta meus documentos, sem voltar a olhar para os meus olhos.

Peguei todos eles e prossegui. Estava dentro.
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