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sábado, maio 08, 2010

E quem ganhou? Ninguém.....

Prometo escrever menos do que no outro post. Sei que política britânica não é um assunto muito interessante para nós, brasileiros, mas acho importante escrever um outro post, já que o jogo ficou embolado. Quem gosta de política vai gostar de fazer um paralelo entre o processo eleitoral aqui e no Brasil. De qualquer forma, meu objetivo é deixar registrado como é, mais ou menos, as eleições britânicas. Se alguém quiser pesquisar no futuro, pode usar estas informações como uma fonte em português, já que vi muito pouco escrito sobre o assunto na nossa lingua materna.

As eleições acabaram, mas a polêmica não. Quem será o primeiro-ministro? Ninguém sabe ainda. O trabalhista e atual líder de governo, Gordon Brown, pode continuar mesmo que seu partido não tenha conseguido o maior número de cadeiras (258). O seu sucessor também poderá ser o conservador David Cameron, que conseguiu o maior número de parlamentares (306), mas não suficiente para chegar à maioria (326).

Neste ponto, peço licença para corrigir uma informação do texto anterior. Os parlamentares eleitos não votam para eleger o primeiro-ministro, mas a rainha Elizabeth II convida o líder do partido que conseguiu a maioria do parlamento a compor um novo governo. Como ninguém conseguiu, o jogo continua em aberto.

O que ocorrerá então? Como havia comentado, o Partido Liberal Democrata (LibDem) será o fiel da balança. O seu líder Nick Clegg (foto) não tem chances de assumir a Downing Street, 10, mas é a peça política mais importante do momento. Isto porque o partido conquistou 57 cadeiras e pode fechar um governo de coalização tanto com conservadores, como com trabalhistas.

Clegg já começou a conversar com o conservador Cameron, para tentar chegar a um acordo. Uma aliança entre os dois partidos é a única opção viável para se ter um governo de maioria, já que juntos eles possuiriam 363 cadeiras. O problema é a diferença de idéias (ideais políticos e sociais) entre os dois. Por exemplo, Clegg e os LibDem querem uma reforma política, a mudança do voto distrital para proporcional, o que fortaleceria o seu partido em futuras eleições. Os conservadores são contra.

Gordon Brown ligou para Clegg e se pôs a disposição para conversar, se eles não chegarem a um acordo com os conservadores. Juntos, trabalhistas e democratas possuem 315 cadeiras, não conseguiriam a maioria, mas poderiam tentar formar um governo de minoria com alguns partidos menores. Os nanicos conquistaram 28 cadeiras, mas não marcharão unidos, já que as diferenças entre eles são muito grandes. São constituídos desde radicais separatistas, até partidos mais progressistas, como o Partido Verde, que conseguiu o seu primeiro assento em toda a história política britânica.

Um governo de minoria, tanto por parte de conservadores, quanto por trabalhistas, também pode governar discutindo para a aprovação de cada matéria, separadamente. Guardadas as proporções, isto ocorreu no governo Alcides Rodrigues (PP), em Goiás, onde o pepista enfrentou uma oposição 'às escuras' na Assembléia Legislativa, já que a maioria sempre foi do PSDB. A cada matéria o governador tinha que dialogar com os deputados e buscar o consenso sobre uma coisa ou outra. É mais democrático, mas muito mais devegar e desgastante.

Até chegarem a um concenso, Gordon Brown continuará como primeiro-ministro. Não há prazo para atingirem um acordo, mas muitos por aqui apontam 25 de maio como o dia D, quando a rainha fará um pronunciamento à nação e falará sobre as prioridades do novo governo. Veremos o que ocorrerá.

terça-feira, maio 04, 2010

Eleições britânicas: labours or conservatives?

Como diria o meu amigo Fellipe Fernandes, texto devido é texto pago. Estou aqui para falar sobre as eleições britânicas, que ocorrem no próximo dia 6, quinta-feira.

A exemplo de qualquer sistema eleitoral no mundo, o britânico também é bem complicado. Morro de rir das matérias que saem nos portais brasileiros com a seguinte explicação: "blá blá blá, e isto ocorre devido ao complicado sistema eleitoral britânico", e não explica o porquê. Acho que, pelo menos por cima, poderiam dar uma luz para o leitor.

No Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte (ou apenas Reino Unido-RU) o sistema de governo é monarquia parlamentarista. Isto significa que há uma rainha, Elizabeth II, que é a chefe de Estado e um primeiro-ministro, atualmente o trabalhista Gordon Brown, que é o chefe de governo.

Isto é difícil para nós, brasileiros, entendermos, já que nascemos e crescemos no presidencialismo arraigado. Neste sistema o chefe de Estado e governo é um só, o presidente, eleito pela população, em eleições diretas. Já no parlamentarismo, o chefe de Estado fica com a função de representar e unir o Estado, enquanto que o chefe de governo, é claro, governa.

No parlamentarismo também não há uma divisão muito clara entre executivo e legislativo, já que o primeiro-ministro, chefe do executivo, é membro do parlamento. Vou explicar melhor: é como se no Brasil um dos deputados federais, depois de eleito, se tornasse presidente por ter a maioria de apoio da Casa. Daí o nome parlamentarismo.

Quatro nações fazem parte do Reino Unido: Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte. Para chefe de Estado não há eleições, já que a mandatária é a rainha Elizabeth II e seu cargo é hereditário. O seu reino, inclusive, é um dos mais longos da história - são 58 anos à frente do cargo - e só perde para a legendária rainha Victória.

O cargo de primeiro-ministro, que representa a chefia de governo, é renovado a cada cinco anos. Na próxima quinta-feira os eleitores britânicos vão as urnas escolher os seus 650 representantes na chamada Câmara dos Comuns (que equivale a nossa Câmera dos Deputados).

Diferentemente do Brasil, por aqui o voto é distrital, e não proporcional. Qual a diferença? No nosso país, o número de cadeiras de cada partido é proporcional ao número total de votos, enquanto que por aqui cada distrito tem uma eleição própria, direta, e o vencedor ganha a cadeira. O problema dos métodos é saber qual é melhor e o assunto é polêmico. Inclusive isto é um dos pontos de debate destas eleições, já que existe uma ala política que defende a troca. No Brasil há quem defenda a mudança pelo voto distrital.

Como no Brasil, no RU há dezenas de partidos, mas, como nos Estados Unidos, dois deles dominam a política britânica. Os conservadores (chamados também de Tories) e os trabalhistas são as duas faces do jogo político. Há uma terceira força, os liberais democratas, que vem crescendo muito nestas eleições e que promete ter uma importância grande no próximo governo.

A disputa é assim: depois de eleitos, os membros do parlamento votam internamente para a escolha do primeiro-ministro. Isto serve apenas para ratificar a escolha popular, já que o partido que tem o maior número de cadeiras vai indicar o seu líder como chefe de governo. Este assume o prédio oficial do governo na Downing Street, 10, em Londres.

Os líderes dos três partidos e, assim, candidatos ao cargo de primeiro ministro são o trabalhista Gordon Brown, o conservador David Cameron e o liberal democrata Nick Clegg. O detalhe é que no RU o mandato não é da pessoa, e sim do partido, ou seja, quem alcançar a maioria na Casa escolherá o primeiro ministro pelos próximos cinco anos, ou até que o congresso seja dissovido. Isto é importante em caso de renúncia, como ocorreu em 2007, com Tony Blair. Não houve novas eleições, e o novo líder trabalhista, Gordon Brown, foi conduzido ao cargo.

A campanha começou oficialmente no dia 6 de abril, quando Gordon Brown foi até a rainha Elizabeth II pedir a dissolução da Câmara. A corrida começou com David Cameron um pouco à frente nas pesquisas, vantagem fruto do desgaste trabalhista. É bom lembrar que o partido já controla o governo há 12 anos (dez com Tony Blair e dois com Gordon Brown). Nestes anos, problemas como o apoio às guerras do Afeganistão e Iraque e a recessão criada rescentemente com a crise econômica fizeram com que o partido perdesse credibilidade junto ao eleitor.

Nas primeiras semanas, porém, Brown cresceu e deu mostras de que passaria Cameron para mais uma vitória trabalhista. Então vieram os debates, para desespero do primeiro-ministro. Pela primeira vez na história, o Reino Unido teve debates transmitidos ao vivo pela televisão. Foram três, todos temáticos. O primeiro abordou a política interna, o segundo os assuntos externos e o terceiro a economia e os impostos. Foi então que Nick Clegg decolou.

Declarado vencedor dos dois primeiros debates, o liberal democrata embolou a disputa com os seus adversários. As pesquisas, inclusive, lhe deram uma pequena liderança entre o primeiro e segundo confronto. No terceiro, porém, David Cameron, foi melhor e reassumiu o favoritismo.

O problema é que o jogo continua embolado, o que começa a preocupar investidores e ameaçar um futuro governo. Explico. Vamos imaginar que existam 100 cadeiras e que elas fiquem divididas assim: candidato A, 40, candidato B, 30, candidato C, 30. O candidato A vence as eleições, assume o governo, mas não consegue a maioria. Isto porque os outros dois partidos, unidos, contam com 60 e conseguiriam travar o seu governo. É isto que está ocorrendo atualmente, o que certamente dará força ao partido de Nick Clegg, na composição futura.

O que tenho reparado nestas eleições é que aqui também existe 'vale-tudo' político, como no Brasil. Os britânicos, diferentemente dos brasileiros, não se incomodam. O partido conservador, por exemplo, estampou por Londres um monte de outdoors com a imagem de Gordon Brown e com dizeres contrários ao primeiro-ministro. Existe um que é mais ou menos assim: "eu aumentei os impostos e vou subir a taxa do seguro social. Vote em mim". Embaixo, em letras minúsculas, um outro dizer: "ou vote por mudanças, vote Partido Conservador". Gostaria de ter a foto, para ilustrar, porque achei isto muito interessante. Imagino em Goiânia, por exemplo, se o PMDB colocasse um montão de outdoors com a foto gigantesca de Marconi Perillo com a frase: "Eu prometi X e não cumpri. Vote em mim outra vez". Daria o que falar.

Esta eleição também ficará marcada pelas gafes. A maior delas, indiscutivelmente, foi de Gordon Brown. O trabalhista estava em campanha, quando foi convidado a conversar com uma eleitora histórica de seu partido. A velhinha, que tinha algumas críticas sobre a política interna e economia, começou a fazer questionamentos e a debater com o primeiro-ministro. Depois de muito conversar, Brown despediu-se com sorrisos, entrou no carro e dialogou com um assessor:

- Foi um desastre. Eles nunca deveriam ter me colocado para falar com aquela mulher. De quem foi a idéia? - disse o premier.

O assessor diz alguma coisa e Brown emenda:

- Acho que foi da Sue. Foi ridículo.

- O que foi que ela disse? - insistiu o assessor.

- Ah, tudo! Ela é um tipo de mulher bitolada (radical). Ela disse que é trabalhista. Foi ridículo.

O que Gordon Brown não sabia é que o seu microfone estava ligado e o diálogo, claro, foi gravado e divulgado. O mais engraçado foi a reporter, depois do ocorrido, ir atrás da mulher para contar o que passou e pedir o que ela achava. Eles colocaram o audio do primeiro-ministro para ela ouvir. A velhinha, assustada, arregalou os olhos e disse: "Eu não posso acreditar nisto". Uma dica, se você me aguentou até agora, por favor, veja o video aqui. É muito engraçado, não irá se arrepender.

Esperaremos, então, a próxima quinta-feira, para ver qual futuro os britânicos decidirão para o seu país. Se trabalhistas terão mais alguns anos de poder, ou se os consevadores realmente estarão de volta.
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