quarta-feira, junho 11, 2008

Chá de coca

Acordei com a certeza de que precisaria de muitos dias sem fazer nada para me recuperar da primeira parte da viagem. O pior era o cansaço físico que teimava em não ir embora. Mesmo com as viagens menos freqüentes, com mais tempo para permanecermos em um mesmo local e, conseqüentemente, termos menos desgastes, parecia que eu levava o mundo nas costas. O mal da altitude começava a mostrar os seus piores sintomas.

Depois do café da manhã, descemos ao centro da cidade para ‘cuidar da vida’. Em uma viagem longa, lembre-se bem, não é só visitar, caminhar e conhecer. Precisamos investir um bom tempo para cuidarmos de assuntos referentes a nossa estrutura pessoal. Ou seja, mais hora ou menos hora, tínhamos que ir a lavanderia deixar nossas roupas, no supermercado comprar comida, na loja de fotos descarregar nossas máquinas, no banco tirar dinheiro e assim por diante.

Naquela manhã, nosso objetivo principal era encontrar a agência do Banco do Brasil (isto mesmo, na Bolívia), já que precisávamos tirar dinheiro. Eu, pessoalmente, tinha levado uma quantia em dólares suficiente até a capital boliviana, deixando para sacar lá no BB de La Paz mais uma leva de verdinhas. Identificar pontos de saques ao longo do roteiro é uma forma de se planejar para não precisar levar muito dinheiro em mãos desde o início da viagem, aumentando assim a segurança. Mais à frente, vi que nem é preciso se preocupar tanto com isto, já que hoje já é possível fazer saques nas milhões de máquinas automáticas espalhadas por outros países.

No caminho encontramos uma loja fotográfica e aproveitei para descarregar as fotos da minha máquina. Como é bom a tecnologia que permite você, rapidamente, passar todas as fotos da máquina para um CD e continuar fotografando normalmente. Lembro do martírio que era quando tínhamos que ficar entupindo a mala com aquelas dezenas de filmes.

Mais um pouco de caminhada, descendo a avenida, encontramos o Banco do Brasil. Não sei em relação os demais, mas para mim foi muito estranho entrar numa agência do BB e ter que conversar com os funcionários em espanhol. Fiquei com aquela impressão: “Putz, da última vez meu banco falava a minha língua”. Ah sim, desculpe-me pelo trocadilho, rs.

Os funcionários foram extremamente atenciosos. Gastaram mais de hora fazendo a papelada toda para que cada um de nós realizasse saques. Foi interessante notar que apesar de ser o mesmo banco do Brasil, há uma imensa burocracia para tirarmos dinheiro no exterior. Primeiro, o rapaz do banco passou o nosso cartão e mostrou o saldo da conta na tela (em reais). Depois ele pegou a calculadora e transformou para reais a quantia em dólar que queríamos sacar. Vale lembrar que podíamos sacar em dólares ou bolivianos.

No meu caso, que tinha pouco dinheiro e queria sacar tudo, tive que achar um valor em dólar que equivalesse a maior parte de meus reais. Havia também uma pequena taxa para o saque, que nem me lembro quanto era. Em seguida, o atendente pegou um calhamaço de formulários e foi preenchendo várias e várias guias. No meu caso fiquei pensando se valia à pena para o banco gastar tanto em papel para um saque tão pequeno.

Depois de centenas de autógrafos, era a vez de pegar a fila do caixa e por a mão na grana. Parece que o BB de La Paz não é muito popular entre os bolivianos, pois em todo o tempo que ficamos lá foram poucas as pessoas que passaram pelo caixa. Acredito que a filial do banco deva ter o foco voltado a assuntos maiores, como as tantas refinarias de petróleo e unidades de extração de gás natural que a Petrobrás possui por lá.

No fim de todo este processo comecei sentir alguma coisa por dentro e não era amor. Meu estomago começou a reclamar de alguma coisa que não sabia o que era. A sensação começou a aumentar e, quando deixamos o banco, decidi não prosseguir o passeio com o restante da turma. Foi então que a Marina me lembrou do chá de coca, muito bom para problemas estomacais. Numa situação de ‘urgência’, qualquer coisa é válida.

A Marina me acompanhou até um pequeno restaurante ali perto, onde pedi uma um copo de chá. Era a minha primeira vez diante do polêmico mate de coca. No primeiro gole senti o gosto que já imaginava (lembre-se que já tinha mascado folhas no Salar de Uyuni). Fui tomando aos poucos para não ter nenhuma reação adversa.

O chá me deu um pequeno alívio momentâneo, mas preferi voltar para o hotel. Marina se ofereceu para me acompanhar, mas lhe disse que não era necessário. O caminho era formado por várias ladeiras, já que nós tínhamos só descido até o momento. Pensei em pegar um táxi, ou uma vanzinha, mas a dor começou a amenizar e subi a pé mesmo. No hotel, segui para o quarto e repousei o resto da tarde.

Era e não era o que queria. Mesmo muito cansado e com todo a cama para mim, lamentava o tempo que estava perdendo lá, ao invés de conhecer a cidade. Contudo, não havia nada a se fazer. Dormi um pouco e acordei no final da tarde. Já melhor, decidi fazer valer pelo menos o final do meu dia e sai para comprar a camisa do The Strongest. Rodei a ladeira das lojas esportivas em busca da camisa original, mas me recomendaram voltar até a rua do hotel e procurar numa loja grande que lá havia.

Modéstia à parte, como bom reconhecedor de camisas piratas, não me empolguei com a que eles me ofereceram. Nesta hora, porém, percebi que talvez não encontraria uma 100% oficial em nenhum lugar, já que a realidade boliviana permite que eles comprem apenas as genéricas. Como a camisa era boa(a melhor que achei) e barata, resolvi não arriscar e levei.

Não conseguimos reunir o ‘grupão’ de novo para jantarmos a noite. Alguns já haviam ido embora e os outros haviam sumido. Tentamos seguir a sugestão de restaurante dada por um deles no dia anterior, mas acabamos nos perdendo. Com fome, arriscamos ao entrar em um que não estava com cara muito boa. Me arrependi o resto da viagem.

Como meu estômago não havia se comportado bem, decidi comer algo leve, e escolhi uma omelete. O problema é que veio com tanto óleo que era melhor não ter comido. Já bem recuperado, arrisquei. O restaurante era tão desestruturado, que os garçons eram duas crianças. Esqueceram o pedido da Marina, e ela acabou não comendo lá (por sua sorte). No final, as crianças se reuniram e ficaram uns vinte minutos preparando a conta do nosso lado. Preciso dizer que não tinha ninguém mais além de nós?

Voltamos ao hotel para dormir mais cedo. Logo de manhã visitaríamos as ruínas de Tiahuanacu (Tiwanacu), uma civilização muito antiga, ascendente dos incas. O plano inicial era irmos embora de La Paz logo após esta visita, já que as ruínas ficavam no caminho para Copacabana, nossa próxima parada. Contudo, pelas informações que obtivemos na agência de turismo do hotel, não era muito seguro rumar para lá no final da tarde, já que no caminho é necessário cruzar por balsa o estreito de Tikina, no lago Titicaca. Como tínhamos um dia sobrando no roteiro, achamos melhor gastá-lo neste momento, ficando mais uma noite em La Paz.

Mapa do Caminho - Dia 8

Data: 11/06/2007
Cidade: La Paz, Bolívia

terça-feira, junho 10, 2008

Na capital boliviana

À medida que a nossa jornada prosseguia, notei que podíamos dividí-la em três partes. A primeira foi a ‘corrida’ de Goiânia até Uyuni, a fim de chegarmos na data certa de pegar o trem, fazer o passeio e voltar sem que isto atrasasse o cronograma. Esta etapa se encerrou assim que tomamos o trem de volta a Oruro. A segunda compreendeu a visita ao altiplano dos Andes (La Paz e Lago Titicaca) até às ruínas de Machupicchu, no Peru, e começou assim que abri os olhos e notei que havia dormido todas as sete horas de viagem voltando de Uyuni. Já estávamos novamente em Oruro, cidade que, volto a dizer, ficou marcada mais por pontos negativos.

Estava totalmente tonto de sono. Por mim, dormiria mais sete horas tranqüilamente, dentro daquele trem. Desci sem muita noção de onde estava, e quando olhei ao redor vi que não estava perdido sozinho. Todas as nossas caras diziam que nenhum de nós deveria esta de pé naquele momento. Só que, obviamente, era obrigação. A nossa segunda passagem por Oruro seria bem rápida. Tomaríamos um táxi até à estação rodoviária (que saudades da estão bimodal de Santa Cruz), onde pegaríamos um ônibus até La Paz, a capital dos bolivianos.

Na porta da estação ferroviária, taxistas se aglomeravam em busca de passageiros. Abordamos um deles e fizemos uma proposta. O rapaz negou contundentemente e cobrou um preço muito alto, algo raro já que a maioria dá um sorrisinho sem graça e tenta negociar para não perder o cliente. Acho que foi por isto, e pelo nosso estado, que Rodrigo virou a cara de uma vez e saiu resmungando. E Eduardo meio tonto só pensava em sair dali. Principalmente porque não via a hora de me escorar para dormir de novo.

O grande problema é que não podia fechar os olhos e torcer que tudo se resolvesse sozinho. Não fugiria da responsabilidade de arrumar um táxi. Graças a DEUS, o segundo taxista fez por um preço camarada (não tão baixo como poderíamos conseguir se tivéssemos inteiros) e embarcamos.

O pouco que me lembro foi que logo ao desembarcar miramos para um guichê de companhia de ônibus. Lá eles informaram que havia um ônibus para La Paz que sairia em vinte minutos. Como o preço não era ruim (também poderíamos abaixá-lo, mas...) não demoramos a comprar as passagens. O ônibus já estava à espera, bem na nossa frente. Era velhinho, mas estava em ótimas condições. Despachamos a bagagem e entramos.

A viagem era curta, cerca de quatro horas. Quando o ônibus começou a rodar, tentei lutar contra o sono para poder acompanhar a viagem pelo altiplano, contudo não consegui. Mais uma vez adormeci. Acordei algumas vezes, mas só fui retomar verdadeiramente a consciência quando já estava perto da rodoviária da capital.

Uma das coisas que faz o nosso humor ir lá para baixo é o sono mal dormido. Por melhor que seja uma noite de sono sentado em um trem, ou ônibus, sempre é uma noite ruim. Quando pisamos em La Paz pela primeira vez, nosso humor estava péssimo. O que está ruim, porém, pode ser ainda pior. Logo na saída do ônibus, tentei economizar tempo tirando rapidamente meu lindo guia de mochileiros, novinho em folha, da minha mochila, mas ele saiu do controle de minhas mãos, quicou em meu braço e foi cair numa possa de óleo, com mais algumas coisas (cheirava a urina), logo ali na plataforma. O meu mundo caiu. Queria jogar o livro fora, sorte que o Rodrigo conseguiu me convencer.

Pegamos o táxi até o hotel pré-selecionado. Como parecia bom, fechamos a questão. Iríamos permanecer duas noites ali. É engraçado notar que quando se está na altitude, o fato do quarto se situar nos últimos andares é motivo de desvalorização, principalmente se o prédio não tem elevador. O hotel o aluga pelo mesmo preço, claro, mas as pessoas tentam evitarem o máximo. O nosso era no segundo andar, e o das meninas era no terceiro. Parecia, porém, que o segundo ficava no décimo. Vale lembrar que a nossa ‘data de validade’ na altitude já havia vencido e o nosso corpo já estava com problemas para a reposição de oxigênio. Assim, cada subida de escadas era um martírio.

Um detalhe importante é que a altitude é traiçoeira. Quando se começa fazer esforço físico, parece que é a mesma coisa do que se estivesse no nível do mar. Sentindo que dá para agüentar mais, normalmente a pessoa aumenta a carga de esforço. O baque, porém, vem de uma vez e pode ser arrasador. Diversas vezes eu ia subir as escadas e começa a sentir uma fatiga mortal na metade dos degraus. Mesmo depois que já estava no andar, o corpo demorava muito para se recompor. Muitas vezes eu abria a porta do quarto, extremamente ofegante, e me jogava na cama, só voltando ao normal uns oito minutos depois.

Instalados, fomos atrás de um bom restaurante. Na saída do hotel, uma boa surpresa. Bem ali na nossa porta ocorria um desfile boliviano. Foi de hipnotizar as pessoas que passavam, até a mim, que não gosto muito de paradas ou coisas do gênero. Pedimos informações, e o atendente do hotel nos indicou um restaurante judeu na mesma rua, um pouco mais abaixo.

Naquele restaurante fomos perceber que há muitos judeus em La Paz. Pelo que ouvi dizer, muitos vêm fazer turismo e acabam ficando, já que o custo de vida no país é barato. Ficam por lá uns seis meses, ou mais. O cardápio estava escrito em espanhol e hebreu. Pessoalmente achei o restaurante muito esquisito, e preferi não inventar. Pedi uma lasanha que não foi lá grande coisa.

Voltamos e tiramos a tarde para descansar. Quanto tempo nós não fazíamos isto! Antes, porém, descemos uma rua concorrente (uma enorme descida, para falar a verdade) onde havia várias lojas com produtos interessantes, desde o artesanato até os importados. Havia uma seqüência enorme de lojas esportivas, cheio de camisas de futebol dos mais diversos tipos. Na minha lista de compra estava a do The Strongest, time paceño (de La Paz), mas em todas as lojas que entrei havia apenas camisas ‘genéricas’ e eu queria a original.

Durante a nossa exploração ao mercado, várias vans desciam a rua cheia de torcedores. Perguntei para um lojista e ele me informou que logo mais haveria o clássico da cidade, La Paz X The Strongest. Bateu aquela vontade de ir acompanhar o futebol boliviano de perto. Principalmente porque as vans não paravam de descer, abarrotadas de gente. Convidei a Lucimeire, mas ela não se mostrou animada. Acho que se insistisse ela até iria, mas como notei que realmente ela queria mesmo continuar as compras, desisti. Eu também estava em dúvidas, porque ir ao jogo era perder um tempo precioso que tínhamos para conhecer a cidade.

Voltamos ao hotel e procuramos dormir um pouco. Ao entardecer, as nossas colegas vieram nos chamar para nos apresentar um grupo de brasileiros que elas haviam conhecido no saguão do nosso hotel. Deixamos para depois e dormimos até no início da noite. Mais tarde, quando já estávamos integrados com os nossos conterrâneos, resolvemos descer todos até a principal avenida da cidade para jantarmos. Um dos nossos novos colegas recomendou uma lanchonete, que realmente era boa.

Na verdade havia vários grupos de brasileiros que estavam naquele hotel. Éramos umas vinte pessoas, no total. No caminho da lanchonete, descobri que um destes grupos tinha ido ao jogo à tarde. Para a minha ‘sorte’, me disseram que havia sido uma verdadeira pelada e que terminou em zero a zero. Menos mal.

A lanchonete era grande, e a comida era boa. O problema é que pedi um sanduíche com molho barbecue, que não me fez bem no dia seguinte, mas esta é outra história. A noite foi animada, com muitas conversas agradáveis. Com o bucho cheio, tivemos que subir de volta duas grandes ladeiras. Repetimos estas duas ladeiras várias e várias vezes até o final de nossa estada na cidade, já que o centro e todas as atrações de La Paz ficavam mais baixo do que o nosso hotel.

Mapa do Caminho - Dia 8

Data: 10/06/2007
Saída: Oruro, Bolívia
Chegada: La Paz, Bolívia
Distância percorrida no dia: 220 km
Empresa de trem: Urus
Duração da viagem: +- 4h
Tarifa: Bs. 20 (+- R$ 5,65 à época)

segunda-feira, junho 09, 2008

Sal por todos os lados

No caminho para Uyuni uma coisa me preocupava. Apesar de ter feito o depósito para a reserva do passeio do salar no dia 6, em Santa Cruz, a agência ainda não havia confirmado. E não foi por falta de pedido. Já havia enviado uns dois ou três e-mails para que eles me comunicassem se tinham recebido o dinheiro, mas a cada parada para checar o e-mail vinha a decepção.

Em Oruro, pouco antes do embarque, resolvi agir. Peguei o número do telefone deles e decidi ligar para ver o que ocorrera, até mesmo para me tranqüilizar. Tinha evitado isto até o momento por causa da língua. Falar cara-a-cara com uma pessoa em uma língua estrangeira é uma coisa, por telefone é outra. A experiência que tive só viria a confirmar esta máxima.

A verdade foi que não consegui falar na agência. A primeira tentativa foi engano, o número estava errado. Depois, consegui um outro número e quem atendeu foi uma criança. Eu não a entendia, e creio que ela muito menos. Depois disto, minha auto-estima foi lá para baixo. Pedi ao Rodrigo para fazer uma nova tentativa, e percebi que ele também ficou um pouco desconfiado, mas ligou. A ligação caiu em um hotel, não tinha nada a ver com a agência. Desistimos.

Todo mundo conhece algum lugar ao qual rotula de ‘fim do mundo’. Tenho certeza que você, neste momento, pensou em uma cidade, fazenda, rio ou qualquer outro, a que se refere como tal. Para mim o ‘fim do mundo’ é Uyuni. Desembarcamos do trem aproximadamente dez e meia da noite. Foi a noite mais fria que eu já experimentei em toda a minha vida. Neste momento, ainda dava para ficar fora das cobertas, mas percebi que, durante a madrugada, não seria nada agradável não ter onde se encolher.

Estávamos todos cansados e sem paciência. A viagem foi de sete horas, mas parecia ter ficado dentro daquele trem umas 19 horas. Como em todas as outras cidades, a exceção de Cuzco, não tínhamos hotel reservado. Saímos pela rua, atravessamos a praça e entramos no primeiro hotel que apareceu. Junto conosco havia umas duas dezenas de pessoas que desembarcaram do trem e que também procuravam hotel. Não poderíamos demorar.

Um senhor de idade nos atendeu e ofereceu dois quartos, um duplo e outro triplo. Depois de pensar um pouco, duas colegas preferiram procurar um pouco mais, então ficamos só com o triplo. Necessitávamos urgentemente de um banho, já que a poeira coletada na viagem havia deixado algumas marcas. Contudo o frio era intenso e o chuveiro não era aquecido a gás, como foi em todos os outros albergues em que ficamos durante toda a jornada. O jeito foi ligá-lo na potência máxima e esperar o vapor dominar o banheiro. De banho tomado, sobrou apenas ‘desmaiar’ na cama.

Como precisávamos o quanto antes checar a nossa situação na agência de turismo, colocamos o relógio para despertar bem cedo, logo nos primeiros minutos após as sete horas. Quando o alarme tocou, foi uma dificuldade imensa sair debaixo das cobertas. Reuni coragem suficiente para levantar, não consegui agüentar o frio e voltei para as cobertas. É claro, não iria ficar ali o dia inteiro, então bolei um plano. Levantar rápido, trocar de roupa e voltar. E assim fiz. Só que no meio do processo precisei ficar pulando para amenizar os desconfortos da baixa temperatura.

Não havia café da manhã no hotel, então tomamos o rumo da rua para localizar a tal agência. Descemos e demos de cara com a porta do hotel trancada, sem ninguém na recepção. Ficamos uns 15 minutos sem ação, nos perguntando o que faríamos. Em seguida, o mesmo senhor que nos atendeu um dia antes, apareceu enrolado em vários casacos. “Es muy temprano (é muito cedo)”, disse ele com um sorriso prensado na cara.

Enquanto nós explicávamos que era necessário sair cedo para verificar se o nosso passeio estava realmente marcado, o boliviano acendeu a calefação e tomou posto atrás do balcão. “Vocês não vão encontrar nada aberto agora. Aqui tudo só começa a funcionar depois das nove. O passeio de vocês só deverá sair depois das dez e meia da manhã”, informou. Olhamos um para a cara do outro e lamentamos o sono perdido. Não havia, porém, nada que fazer. Já de pé, tínhamos que resolver a vida.

Ficamos uns trinta minutos conversando com o senhor do hotel. Ele nos contou que já havia morado em São Paulo e que brasileiro gosta de acordar cedo. “Aqui não, ninguém acorda cedo por causa do frio”, contou. Por volta das oito, deixamos o hotel e fomos procurar a agência.

Uyuni é muito pequena. Resume-se a três ou quatro ruas acima e abaixo da praça. Durante a noite, só há iluminação pública na praça e nos arredores próximos e o resto fica no escuro. Uma das características é a poeira solta pelas ruas. A estação de trem era bem próxima à praça, ao lado de uma avenida. Aliás, a cidade nasceu fruto da companhia de trem, que liga o coração da Bolívia ao Chile e Argentina, passando por uma região mineradora. Hoje o turismo é um dos principais filões da economia.

Depois de encontrar a agência, fechada, claro, fomos à praça e reunimos o grupo completo, com as colegas que não ficaram no nosso hotel. Resolvemos ir à estação e comprar a passagem de volta a Oruro, no trem da meia-noite. Havia a possibilidade de voltar de ônibus, mas temíamos ser pior que a ida, já que grande parte do percurso era de terra.

Havia poucas pessoas na estação e o guichê já estava aberto, mas não sobrara passagem na mesma classe em que viemos. Assim, optamos por pagar quase o dobro (que em reais não era tanto assim), para irmos de primeira classe. O grande problema é que este era o único trem - o próximo só passaria por Uyuni na terça-feira de madrugada, ou seja, dois dias depois. A falta de opção de datas deste trem foi o grande empecilho do planejamento de toda a viagem, e de certa forma explica a correria da primeira parte da jornada, já que se perdêssemos o trem de ida, ou de volta, significaria perder de dois a três dias e dar adeus a algum passeio.

Saindo da estação, procuramos um bom lugar para tomar café da manhã. Logo à frente, havia um restaurante movimentado que parecia servir algo apetitoso. Não pensamos duas vezes. E não é que a aposta deu certo? Sem dúvida o melhor café da manhã que tomamos em toda a viagem. Normalmente, um ‘desayuno’ boliviano contém leite, chá, ou mate de coca, pães (tipo pão sírio, mas mais gordinho e com um gosto único) e outras coisas que variam. Mais uma vez lembro que não chega aos pés do nosso.

Estávamos carregando as mochilas, já que havíamos fechado a conta no hotel. Voltamos à agência e, desta vez, já estava aberta. Para nosso alívio, não precisamos nem perguntar nada. Assim que cruzamos a porta, uma mulher que estava sentada atrás de uma mesa se antecipou: “Vocês são o grupo de brasileiros?”. Era tudo o que queria ouvir. Eles foram tão tranqüilos que, até mesmo, se esqueceram de cobrar o restante. Eu já estava dentro da caminhonete, quando alguém veio perguntar: “Vocês não tem um débito para acertar?”. Eu até tinha lembrado antes, mas preferi que eles cobrassem, afinal ainda iríamos voltar e podíamos pagar depois.

Ah, já adiantei que o nosso transporte era uma caminhonete. Por aquele mar de sal e areia que iríamos enfrentar, só um veículo 4X4 mesmo. A primeira parada foi no famoso cemitério de trens. Estranho né, mas lá o ferro velho de antigas máquinas locomotivas virou atração turística. Fica a céu aberto, às margens dos trilhos.

Nosso guia era um senhor que aparentava uns cinqüenta anos. O Juan (nome fictício) era extremamente simpático, e um guia muito bom. Não se cansava de contar suas histórias e dava as explicações muito bem. Como o nosso grupo era privado (apenas nós), tínhamos ele inteiramente a disposição para tirar todas as nossas dúvidas do passeio, de Uyuni e da Bolívia.

Neste momento o frio já tinha ido embora e o céu estava bem azul. O sol cobria nossas cabeças. Quando estávamos expostos aos seus raios, sentíamos um calor seco, que dava vontade de tirar todos os casacos. Já na sombra era o inverso, o frio atacava de uma forma surpreendente. De dia, percebemos o tão desértico que eram os arredores de Uyuni, com muita terra e areia. O cenário era bem plano, com algumas montanhas pontuais. O horizonte era o limite do olhar.

Assim que aproximamos do Salar de Uyuni, tudo mudou. O marrom da terra e o amarelo da areia deu espaço para o branco do sal. A primeira parada foi em Colchani, cidade próxima que abriga a entrada oficial do salar. Lá também existe um pequeno campo de extração de sal, administrado por uma cooperativa, e o famoso Hotel de Sal. Paramos um pouco para podermos explorar de perto estes interessantes marcos do salar.

Para quem não sabe, o Salar de Uyuni é um deserto de sal no meio dos Andes. É o maior salar do mundo, com dimensões gigantescas. Para ser ter noção, estar no salar de Uyuni é ter os horizontes livres para enxergar até o limite, tudo branco, em 360 graus. Há algumas montanhas dentro do salar que, diferentemente, não são de sal. São chamadas de ilhas e possui características únicas.

O salar de Uyuni tem uma explicação científica e uma mitológica. Há muitos e muitos milhões de anos atrás, duas placas tectônicas se chocaram e formaram a Cordilheira dos Andes. Como naquela região era mar, vários lagos se formaram em cima da cordilheira. Com o passar do tempo um dos lagos secou e ficou só o sal. Já a mitológica eu vou ficar devendo, pois confesso que já esqueci. Só lembro que é uma história bonitinha.

Depois do hotel, entramos de fato no salar e viajamos um tempo até a Isla Inca Huasi. Achei muito legal esta ilha. Ela não é grande, mas dá para fazer uma trilha até o topo e ver um panorama amplo do salar. Em todo o caminho, cactos gigantes, próprios da região, chamavam a atenção das pessoas. Antes de subirmos, paramos para o almoço no pé da ilha. A refeição já estava incluída no pacote, e mesmo assim foi muito boa. Pela primeira vez experimentamos a carne de llama, um mamífero camelídeo típico dos Andes.

Só depois do bucho cheio é que Juan veio falar da trilha, muito mais vertical do que horizontal. Ainda não estávamos sob o efeito do mal da altitude, mas mesmo assim era difícil subir. Contribuía também a má forma física. Fui indo devagarzinho, parando sempre que dava a impressão de estava morrendo de tanto ofegar. Contudo, valeu MUITO a pena – a vista é linda. Lá de cima, tive meu primeiro contato com a coca, mascando algumas folhas (veja bem, a planta, e não a droga).

Seguimos para a última atração, a visita ao vulcão Tunupa, no limítrofe norte do salar. Vale lembrar que no Salar de Uyuni é essencial usar óculos escuros, já que o sol refletido no gelo cria uma claridade insuportável.

Quando eu vi o vulcão não acreditei. Eu estava só o trapo e ele era alto demais. Não iria conseguir subir tudo. Foi então que Juan avançou com a caminhonete e mostrou que nós não chegaríamos lá andando. Foi um alívio. Chegamos à base do Tunupa, quando desviamos para uma pequena trilha, rumo a uma tumba. Isto mesmo, fomos visitar umas múmias que antecedem tanto Colombo como os próprios incas. Por falar na famosa civilização, nesta ilha há muros de pedras que os incas construíram apenas equilibrando uma na outra. Ficaram tão firmes que até hoje estão em pé, suportando ventos e terremotos.

No caminho de volta para Uyuni, Juan parou no meio do salar, para a nossa felicidade. Além da sessão fotográfica, pudemos ver o tanto que o sal é duro. Juan explicou que há várias camadas de sal e, entre elas, existem lençóis de água. Todo o chão do salar é ‘desenhado’ de grandes hexágonos, devido às reações químicas embaixo do sal. Além disto, o chão de sal é muito gelado. Por falar nisto, já era tarde, e com o entardecer começou vir o frio. Juan contou que à noite, no salar, é costume fazer quinze graus negativos.

Voltamos todos em êxtase. A beleza da obra sem dúvidas compensou todo o sacrifício, desde Goiânia. De volta à agência, seguimos para uma pizzaria recuperar nossos carboidratos. Ficamos lá umas três horas para aproveitar a calefação (já que não tínhamos mais hotel, e o trem só sairia mais tarde). Eu e a Lucimeire, contudo, enjoamos de ficar ali e saímos para curtir o frio. Lá fora encontramos um monte de meninos jogando futebol. Entramos timidamente no jogo, e eles nem se importaram. Queriam mais era chutar a bola. Impressionante o pique deles, a mais de 3.800 metros de altura.

Cansamos da pizzaria e seguimos para a estação com muito tempo ainda para matar. Lá encontramos uma mesa de pimbolim, ou totó, e não pensamos duas vezes, jogamos várias e várias partidas. Antes de embarcar ainda conversamos com um brasileiro muito estranho, que se dizia de Minas Gerais. Há quem disse que ele era português e que só queria enturmar. O trem chegou para nosso alívio. Quando ia embarcar, o funcionário não foi com a minha cara e disse que teria que despachar a minha mochila. Nisto, o Rodrigo passou sem problemas com a dele e eu fiquei explicando que era a mesma coisa. Não querendo muito papo, ele virou e me disse: “Tudo bem, mas se ela cair na tua cabeça não é culpa minha”. Tudo bem, quando entrei só tinha espaço encima da cabeça de outro mesmo.

A primeira classe era quase igual à outra em que viemos. A diferença era que tinha calefação (não sei se a outra também tinha, porque viajamos de dia), travesseiro, cobertor e nos deram alguns bolinhos, que não me lembro o nome. Entre a distribuição dos itens eu não agüentei, e ia cochilando. Quando tudo estava certo, eu já estava no décimo sono. Para mim a viagem foi instantânea. Pela primeira vez na vida, fechei os olhos no início da viagem e fui abrir no final, sete horas depois, em Oruro.

Mapa do Caminho - Dia 7

Data: 09/06/2007
Saída: Uyuni, Bolívia
Chegada: Oruro, Bolívia – no dia seguinte
Distância percorrida no dia: 353 km
Empresa de trem: FCA
Duração da viagem: +- 7h
Tarifa: Bs. 101 (+- R$ 28,45 à época)

domingo, junho 08, 2008

No meio do deserto

Talvez fosse o cansaço, ou o costume da nossa mente de insistir em se acostumar com a situação, o certo que já confiávamos mais nos serviços bolivianos. A prova era que, desta vez, despachamos a nossa bagagem no ônibus que tomamos para Oruro.Confesso que com a mão no coração, e com toda atenção para ver se ninguém iria mexer nelas antes do tempo.

Saímos de Cochabamba sabendo que seria mais quatro horas de subida. O detalhe era que, pela primeira vez, a viagem não se estenderia pela noite. Eu estava muito feliz por isto, já visualizando a minha caminha em Oruro. O meu cochilo matinal me deu forças e pude desfrutar a viagem de ônibus, sem me emergir em um sono obrigatório.

A noite caiu logo, o filminho tradicional começou e mais uma vez não deu para ficar observando os detalhes da estrada e das cidades que passávamos. Não demorou muito para que a estrada se acentuasse, e o que era alto ficou mais. Desta vez a nossa referência era Cochabamba, já que a subida da serra ficava perto da cidade. Era subida, curva, subida, curva, subida, e lá estavam as luzes da cidade, cada vez mais embaixo e distante.

Soroche. A partir deste momento o mal da altitude passou a fazer parte de nossas preocupações, até o último dia de viagem. Vou tentar explicar como funciona, de leigo para os possíveis leigos.

Cada vez que a gente sobe o ar fica rarefeito, ou seja, com menos oxigênio. Nosso organismo é acostumado com o nível de oxigênio do ar que respiramos na cidade em que moramos. Goiânia é aproximadamente 750 metros acima do nível do mar. Percebe-se que muito mais baixo que Oruro (cerca de 3.800 metros). Assim, quando saímos de uma região baixa, as nossas células estão carregadas de oxigênio, mas quando chegamos em um lugar alto a reposição não é efetiva. Pelo menos até que seu corpo acostume com a nova situação. Ou seja, dentro de alguns dias você vai começar a sentir os sintomas do soroche.

É claro que cada corpo reage de uma forma. Esta é uma regra geral. Tanto que os times de futebol, quando vão jogar na altitude, permanecem em uma cidade baixa até momentos antes da partida, para não sentir efeitos que possam debilitar os jogadores. Mas é claro que desde o primeiro minuto em uma região alta, qualquer pessoa já começa sentir as diferenças, mesmo que estas, a priori, não tenha interferência imediata na condição física.

Quando você ultrapassa os três mil metros, é inevitável sentir um maior cansaço resultante de qualquer esforço físico. Naquela noite descobrimos como era isto. O ônibus continuava subindo, e eu estava sentado com a cabeça escorada normalmente no encosto, na posição normal. Estava quase cochilando, quando senti que o ar não veio como deveria. A sensação não foi ruim, muito menos desesperadora (como muitos podem até pensar), mas diferente e com um pequeno desconforto. É claro que acordei do pseudo-sono e percebi que já estava mais alto do que o normal aceito pelo meu corpo.

Tive esta sensação duas vezes. Nas duas estava tentando dormir. Não tive mais durante toda a jornada. Acredito que foi apenas uma experiência de quem acabava de apresentar ao seu corpo uma situação diferente, de pouco oxigênio. Vale lembrar que, em estado de repouso, não há a mínima dificuldade de respiração. É a mesma coisa que estar respirando em casa. Reforço que não sou médico, e este é um relato de experiência prática. Quem quiser saber mais sobre o assunto, sugiro conversar com algum profissional de saúde, ou ler algum livro dedicado ao mal da altitude.

Durante a viagem até Oruro, passamos dos quatro mil metros. A última vez que vi Cochabamba, me lembro bem, a cidade parecia estar em câmera lenta, como na primeira experiência em subir a Cordilheira dos Andes. Era sinal de que estávamos muito alto em relação à cidade. A partir daí a estrada ficou mais plana, e rumamos para Oruro, de uma vez por todas. Me lembro quando o ônibus mudou de rumo em um trevo, já que, para Oruro, é necessário sair da estrada principal, que vai até La Paz, e pegar uma secundária. Faltava menos de uma hora para desembarcarmos.

Oruro apareceu logo, iluminada. Apesar de ser uma das principais cidades da Bolívia, é muito pobre. Isto foi instantaneamente perceptível, ao ver suas casas e ruas. A partir de Oruro, para o sul, a região é marcada pela forte atividade mineradora. Na cidade é comum dar de cara com várias casas de jóias e minérios. A partir de Oruro, se estende o caminho para Sucre e Potosí, as capitais bolivianas da mineração.

Saímos da rodoviária, já eram mais de dez horas da noite. Com a altitude veio também o frio intenso durante a noite. Rapidamente, procuramos um táxi com o nome do nosso próximo albergue nas mãos. Perguntamos ao primeiro que apareceu, se sabia onde era. Coçou a cabeça e se mostrou confuso. Tive que desmontar parte da minha mochila e pegar o roteiro, que continha o endereço completo. Quando viu o nome da ‘calle’, ele não titubeou. “Ah, esta rua é aquela”, apontou. Olhamos surpresos e vimos a entrada do nosso albergue bem ali, na nossa frente.

Que sorte, economizamos no táxi e no tempo, já que todos estávamos muito interessados em dormir. Adianto que este foi o melhor albergue de toda a viagem, sem dúvida. O curioso é que foi em uma das cidades mais pobres e feias que passamos. Pelo albergue, lamento que ficamos lá apenas uma noite.

O diferencial já era percebido desde a entrada. Todos os atendentes eram muito simpáticos e fizeram de tudo para serem agradáveis. O ambiente do hotel era muito bom. O saguão era todo decorado no tom madeira, e muito aconchegante. Nos quartos predominava o branco. Eram muito limpos e bem conservados. Perguntamos se havia algum lugar para comer, e eles se prontificaram a preparar um lanche e levar no nosso quarto. Um espetáculo.

Foi um momento de sonhos. Após dias, iríamos passar a noite dormindo na cama. O lanche chegou e era de primeiríssima qualidade. Sanduíche com leite quentinho. Muito gostoso. Inesquecível. Enfim, um pouco de conforto.

Sabe o que mais dava mais raiva nesta viagem? Ter que acordar todos os dias bem cedo. Além disto, a manhã de sexta, 8, estava bem gelada em Oruro. Às sete horas da matina já estava bem acordado, mas não conseguia deixar as cobertas. Era a hora de tomar coragem e agir por impulso.

Tínhamos que chegar bem cedo na estação de trem para comprar as passagens para Uyuni. Finalmente estávamos muito perto de chegar ao destino principal da primeira parte da jornada. Tomamos café (dispensei novamente o chá de coca), e pé na estrada, digo na rua. Nos informamos no saguão e descobrimos que a estação não ficava muito longe. Caminhar era o ideal para conhecer a cidade.

No caminho, chegamos em uma rua pitoresca. Ela era meio deserta, com muros beges nas duas margens e com poucas lojas. Era comprida, e tínhamos que ir até o final. No meio do caminho, duas vans (meio de transporte muito comum na Bolívia), se chocaram bem ao nosso testemunho. Uma descia em uma rua concorrente e acertou uma que passava um pouco atrás de nós. Paramos e ficamos esperando o ‘combate’. Os motoristas saíram do carro e, pela nossa total surpresa, se cumprimentaram e começaram conversar civilizadamente, como melhores amigos. É.

Não demoramos muito para chegar à estação, mesmo que a distância não fosse tão pequena como imaginava. No caminho, vi que meu pique já era inadequado à situação. Acostumado a andar rápido, tive que me conter várias vezes, com risco de ter que parar no meio para respirar. Era a altitude atormentando.

Os guichês de venda ainda não estavam abertos, mas muitas pessoas já faziam fila para comprar passagens. Assim como em vários estabelecimentos no Brasil, na estação de Oruro você pode pegar uma senha e esperar a sua vez sentado. Demorou quase uma hora até que começassem a emitir as passagens e que fossemos chamados. Compramos o bilhete para as três e meia da tarde, na classe intermediária.

Depois disto não tínhamos mais nenhum ‘compromisso’. Sobraram algumas horas para podermos explorar a cidade. O frio já se dissipava à medida que o sol ia tomando a posição central no céu. Prevenido, pensei em reduzir o sofrimento do dia seguinte e fui comprar um par de luvas. Chegando na loja, lembrei que não sabia dizer ‘luvas’ em español. O problema que já estava no meio da conversa com o vendedor. Em outras ocasiões, eu morreria de vergonha. Contudo, já há alguns dias tendo que conviver com aquela língua, não relutei. “Yo necessito ‘luvas’”, disse fazendo gestos. O rapaz olhou, pensou um pouco e disse: “Ah, sí, guantes!”. Nunca mais esqueci.

Fomos para o centro atrás de dinheiro. Ou melhor, ‘cambiar’ dinheiro. O problema foi que não achamos lojas de cambio tão facilmente como em Santa Cruz. Particularmente já estava cansado de andar. Naquela hora, já aproximávamos do meio-dia, o sol era escaldante, e a altitude atrapalhava. Subimos por uma rua movimentada, passamos ao lado de uma praça, onde alguém nos indicou um banco. Entramos e vimos que estava saindo gente pela janela. Meu humor já estava no fim e, diferente dos outros, preferi continuar procurando.

Saí sozinho e comecei passear pela cidade. Era uma situação nova, efetivamente a primeira vez que estava sozinho, já que fazíamos tudo em grupo. No início, me senti um pouco vulnerável, mas logo me acostumei.

Comecei a mirar as lojas para ver quem poderia fazer cambio. Passei pela rua de cima da praça e desci uma paralela. Logo encontrei uma loja da Western Union. Como eu sabia que ali se faz transações monetárias internacionais, experimentei. “Bom dia, vocês fazem cambio”, perguntei a uma moça que estava atrás do balcão. “Quanto?”, perguntou. “Uns X dólares (não me lembro, mas não era muito)”, respondi. Ela pensou um pouco, abriu o caixa, checou o dinheiro e disse: “Ah, tudo bem”. Não acreditava. Sem filas. Que maravilha.

Voltei ao albergue. Como não estava com o restante do grupo e já era tarde, decidi ir almoçar sozinho. Perguntei no saguão onde havia um restaurante. Eles me indicaram um logo na esquina. Cheguei, entrei e vi que só havia uma pessoa comendo. Fiquei me questionando se era uma boa idéia. Acabei indo com a cara do local e sentei.

O garçom, muito sorridente, logo me entregou o cardápio, mas demorei a me decidir. Em todos os pratos parecia que vinha muita comida, e minha fome não era tanta assim. Acabei me decidindo por um prato chamado ‘Lomo Saltado’, feito com pedacinhos de carne de porco, vegetais cortados e batatas fritas, tudo junto. E não é que já estava imaginando? Chegou um prato gigantesco de comida, por apenas Bs. 18 (R$ 5). Estava gostoso, bem que tentei, mas não consegui comer tudo. Saí de lá suspeitando que o garçom havia achado que não gostei da comida.

Com tudo pronto, pegamos um táxi e voltamos à estação. Preferimos não despachar nossas mochilas (de ônibus é uma coisa, a gente vê onde eles colocam, agora trem não dá segurança). Tomamos os nossos postos e pronto, era só o maquinista tocar. Soltaram os freio, e o trem começou a andar devagarzinho. Pensei que, em poucos minutos, eles acelerariam, mas não foi o que aconteceu. O trem já estava na sua velocidade final.

Foi uma experiência inesquecível - viajar a 50 km/h. Ele balançava de um lado para outro, fazia uns 30 barulhos diferente, mas não aumentava a velocidade. Tanto que para percorrer uma distância de pouco mais de 300 km, demoramos sete horas. O pior é que, com o passar das horas, as minhas costas começou a doer. O banco não era ruim, mas também não era confortável. O calor era grande. É preciso dizer que foram horas desagradáveis?

Logo deixamos Oruro para trás. Assim que saímos, testemunhamos algo interessante. Aos poucos, junto aos trilhos, começou a se formar um pequeno lago, que foi aumentando com o passar do tempo. Logo dominou tudo e a impressão que tivemos era de estar andando de trem no meio de um rio. A água refletia o céu inteiramente azul. O fenômeno era muito bonito.

Porém, logo acabou a água e o que ficou foi muita poeira, de uma paisagem cada vez mais desértica. Esta região é muito árida, só faltando os camelos e a areia para se tornar o emblemático deserto contido no imaginário de todo o brasileiro. Ali também era muito plano. Olha, que estou falando de mais plano que Goiânia, Brasília e o Planalto Central brasileiro. Interessante como uma região tão alta e montanhosa pode ter o horizonte tão nivelado.

Nem mesmo a oportunidade de viajar de dia e acompanhar as paisagens bolivianas me animou. O cenário era um tédio. O trem ia muito devagar. Mais uma vez tive que agüentar um filme chato na cabeça. A primeira cidade era Uyuni, ou seja, não havia nada de diferente para ver. Em quarenta minutos já havia decorado cada detalhe da região. Em três horas queria me ver livre dali. Só que tive que esperar mais quatro, com minhas costas ardendo e o tédio me matando, para, finalmente, aportar em Uyuni.

Mapa do Caminho - Dia 6

Data: 08/06/2007
Saída: Oruro, Bolívia
Chegada: Uyuni, Bolívia
Distância percorrida no dia: 353 km
Empresa de trem: FCA
Duração da viagem: +- 7h
Tarifa: Bs. 52 (+- R$ 14,65 à época)

sábado, junho 07, 2008

Fadigado

Não demorou muito para descobrir que viajar de ônibus pela Bolívia é tão seguro quanto em qualquer país sulamericano, inclusive o Brasil. No dia da viagem a Cochabamba, porém, ainda não estava certo disto. Foi assim que relutamos em despachar nossas mochilas no bagageiro do ônibus, e as levamos para dentro, junto conosco.

Descobri também que viajar em um ônibus de dois andares tem apenas a diferença de precisar subir as escadas, no caso da sua poltrona ficar no segundo andar. Era este o caso, então subimos em fila indiana, cada um com a sua respectiva mochila. Chegando na nossa poltrona, percebemos que seria inútil tentar espremê-las no compartimento de bagagem de mão. Como levaríamos mochilas tão volumosas dentro daquele ônibus?

Já que nossos lugares eram quase os últimos do ônibus, e no segundo andar não havia banheiro, atrás da última poltrona havia um espaço livre, suficiente para lotarmos com a nossa bagagem. Não pensamos duas vezes, descarregamos a carga e assumimos os nossos postos. O problema é que o primeiro banco imediatamente depois deste espaço não era nosso, e sim de uma velhinha boliviana. E é claro que esta senhora estava com vontade de deitar o seu encosto para dormir. Não conseguiu por causa das nossas mochilas.

Eu não entendi uma palavra do que ela dizia, já que falava para dentro e bem baixo. Hora nenhuma ela se queixou com a gente, mas ficava apertando o botão do banco e pressionando o encosto para deitar. Obviamente não iríamos ignorá-la. Levantei e tirei as mochilas detrás para que ela pudesse se acomodar. O problema voltou a ser onde colocar as benditas. Demorou uns dez minutos para conseguir chegar na única configuração de disposição da bagagem que poderia acomodar tudo sem incomodar ninguém.

O ônibus começou a se mover, e mais uma vez me veio à sensação de alegria. Apesar da minha garganta ainda não ter sarado - pensei bem, resolvi não dar bobeira e passei a tomar logo uns antibióticos que havia levado -, saber que à algumas horas eu estaria subindo os Andes era mais do que suficiente para me animar. Além disto, estávamos deixando aquela confusa estação para trás e havia dado tudo certo com a companhia de ônibus escolhida.

Nas disposições de lugar, havia ficado com uma poltrona de corredor. Nada mais do que justo, já que ocupei posições próximas à janela em todos os trechos, desde Goiânia. Contudo, o subir da cordilheira era um dos pontos altos da viagem, na minha opinião. Esperava muito por isto. Então, segui viagem bem atento.

Logo percebi que não era o fato de estar no corredor que iria prejudicar a minha visão, mas sim o filme que eles haviam ligado para os passageiros assistirem. Todos os ônibus que pegamos à noite na Bolívia faziam questão de passar filmes até onze horas, ou meia-noite. A verdade é que geralmente eram filmes sofríveis. Em todos os casos, a luminosidade da televisão refletia na janela e impedia que as pessoas de dentro visualizassem o que se passava fora. Um estorvo para pessoas que, como eu, estava muito mais interessadas em ver a Bolívia do que qualquer filme que eles pudessem passar naquele momento.

Como eu sou insistente, fui tentando acompanhar o nosso trajeto. Logo percebi que havíamos tomado a estrada para o norte, e permaneceríamos nesta direção até Monteiro, quando mudaríamos para o oeste até Vila Tunari, onde 'atacaríamos' a cordilheira de uma vez, já próximo a Cochabamba. Vale lembrar que há uma outra estrada (acredito que mais velha) que é mais direta; ao invés de ir para o norte, desde Santa Cruz ela segue para o oeste, chega na cordilheira mais cedo e passa mais tempo subindo e descendo montanhas.

Como notei que demoraria um pouco até Vila Tunari, tratei de relaxar. Apesar do grande cansaço que já me abatia, a excitação me impediu que dormisse. Sabia que teria um outro longo dia logo mais, e isto era o que mais me preocupava. Contudo, nada me convencia a desistir de ver o início da cordilheira, e cada vez mais lamentava por não ter planejado fazer este trecho de dia.

Algumas horas se passaram, e os Andes se aproximavam. Tentava perceber alguma modificação no relevo, mas a noite atrapalhava. À aquela altura o filme já havia terminado, e tudo estava escuro. Assim, não percebi onde estava quando chegamos a Vila Tunari. Mais tarde, quando já estava de volta a Goiânia, pesquisei sobre esta cidade e vi que havíamos passado em um lugar maravilhoso. Tunari na verdade é uma vila que fica no meio de uma mata com a Cordilheira dos Andes ao fundo. Sem palavras.

Não demorou muito quando notei que a estrada já não estava tão plana. Subimos um pouco, e logo depois descemos por um terreno íngreme até cruzarmos um rio. Foi então que percebí que aproximávamos de algo grande. Indiscritível mesmo foi dar de cara com um paredão, que só podia ser percebido já muito próximo de nós, e que só era visualizado pelo contraste, já que a sua tonalidade escura, à noite, era mais escura que o céu. Ao longo desde 'paredão' havia pequenas luzes amarelas em movimento, seguindo uma às outras como se fosse uma trilha. Esta 'trilha' desenhava uma reta diagonal no 'paredão' de pontinhos que não paravam. Era o caminho por onde iríamos passar no primeiro contato com os Andes.

Quando começamos a subir de fato, a visualização ficou tão mais interessante, quanto difícil. A estrada se transformou em um constante 'sobe-e-vira'. A cada virada, podíamos perceber que a trilha de pontinhos amarelos se dividia em duas: uma podia ser vista olhando para baixo, acompanhando a posição que acabávamos de passar, a outra seguia em frente, insistindo em continuar subindo na diagonal.

Quanto mais subíamos, mais tínhamos que subir. O que impressionava, realmente, era o tamanho daquilo e também o fato de que, mesmo depois de dezenas de minutos desde o início da subida, ainda podíamos ver o ponto inicial, quando a estrada vira uma plataforma cordilheira acima. Às vezes este ponto inicial sumia, já que dependia das curvas que o ônibus fazia, mas quando a visão dele voltava estava ainda mais baixo do que no último contato. Até que, de repente, a movimentação dos objetos na parte de baixo da montanha começou a ficar mais devagar, como uma verdadeira câmera lenta. Foi aí que notei que devíamos estar realmente muito alto.

A janela do ônibus era para mim verdadeiramente como um forno de frango para um cachorro faminto. O detalhe é que, como estava no corredor, ficava me debruçando sobre o Rodrigo, que dormia. Aliás, logo no início, ele acordou e acompanhou comigo uma boa parte da nossa escalada. Como esta era uma parte muito puxada da jornada, porém, ele voltou a dormir antes de mim. Mesmo com a taxa de emoção acima da média, o tempo foi passando e o sono chegou com tudo. Satisfeito, não me sobrou outra coisa a não ser dormir.

Abri os olhos e já era de dia. As casas de Cochabamba já passam ao meu lado muito antes de conseguir perceber onde estava. Meu cérebro estava embriagado pela fadiga, e meu corpo pedia uma boa noite de sono. Vamos recapitular: desde que havia deixado Goiânia, só havia dormido bem no albergue de Corumbá. Todas as outras noites passamos viajando. Até aquele momento, haviam sido 50 horas de estrada em três dias e meio, ou seja, em 84 horas. Eu precisa, urgentemente, de descanso.

Foi aí que percebi que não haveria outra saída, seriamos escravos do nosso próprio roteiro. Apesar da mobilidade de datas e destinos ter sido um dos meus objetivos, quando planejei aquela viagem, o roteiro havia ficado engessado. Precisávamos continuar firme no caminho, ou não chegaríamos a Uyuni a tempo do nosso passeio. O problema é que não aguentava mais pensar em ônibus, trem ou qualquer meio de transporte, e já tínhamos uma outra viagem marcada para à noite.

É difícil passar exatamente o que senti naquele dia, principalmente para uma pessoa que não estava lá com a gente. Vou tentar explicar. Quando a gente escreve contando uma viagem, só relatamos a parte interessante. Por razões óbvias, omitimos a parte burocrática, que só vivemos quando estamos no meio de uma jornada. Este fato atrapalha demais o planejamento de uma viagem, principalmente os novatos, já que, ao ler a narração de uma extensa jornada, a pessoa não percebe que em um roteiro apertado se cria uma rotina tão insuportável quanto qualquer semana de trabalho duro.

Esta rotina começa na hora de viajar por um trecho. Você pega as suas coisas, coloca na mala, arruma tudo certinho e checa um milhão de vezes para ver se não ficou nada no albergue. Já no saguão, você fecha a conta, pega a calculadora, faz as inúmeras conversões de moedas e paga. Sai, chama um táxi, pechincha o preço até a rodoviária. Lá, fica em dúvida na hora de escolher a melhor opção de companhia de ônibus, chega no atendente, pechincha o preço e paga. Quando se está em grupo, lembre-se que o rapaz não vai querer cobrar individualmente as passagens, o que gera uma dor de cabeça para acertar tudo depois entre todos. Vai, compra o bilhete de taxa de embarque (que na Bolívia e no Peru são vendidos separadamente). Com a mochila nas costas, você espera o seu ônibus, apresenta passagem e passaporte para o embarque (que muitas vezes está bem no fundo da sua pochete lotada). Chegando no local, você desce do ônibus, procura um táxi, pega o roteiro que muitas vezes está bem no fundo de uma mochila (impossível se organizar constantemente em uma viagem como esta), pechincha o táxi e explica onde você vai. Chegando no albergue, você pechincha o albergue, sobe até os quartos (fator de dificuldade: mal da altitude) abre a sua mochila, praticamente a desfaz para achar roupas limpas e todos os apetrechos para o banho. Toma banho, espera todo mundo, sai, almoça, anda pela cidade. A tarde, chega no albergue e é hora de arrumar tudo de novo e se mandar.

Multiplique isto por quatro, é mais ou menos o que a gente estava passando. Esta rotina estressa. Chega uma hora que você não aguenta mais abrir e fechar a mochila, não quer mais saber de subir em ônibus, não suporta mais ter que pechinchar e tão pouco pegar táxis. Ainda há outro fator de estresse: você não dormiu direito nas últimas quatro noites. E outro: quando está em grupo nem sempre a sua vontade prevalece e você precisa se adaptar aos costumes e ritmos dos outros companheiros. Desta forma cheguei a uma conclusão: precisava jogar tudo para o alto e descansar.

Descemos na rodoviária e fomos para o albergue que estava indicado no roteiro. Chegando lá, nem tentei pechinchar embasado no fato de que não passaríamos a noite, apenas queria saber se tinha alguma cama livre. A mulher da recepção disse que poderíamos tomar o café-da-manhã, já que não iríamos ficar até o outro dia. Que bom, pelo menos uma vantagem. Mal saberia nós que o café não estava incluso na diária (rs). A sala de café ficava no último andar. Subimos de elevador até o penúltimo, já que para lá só de escadas mesmo.

O assunto era o soroche, ou mal da altitude. Estávamos a 2.400 metros acima do nível do mar, mas até então não sentia nada diferente. Sentamos a mesa, mas não vimos comida alguma. Achamos estranho, principalmente porque éramos os únicos na sala. Depois de alguns minutos pensando que não havia café, eis que surge uma mulher perguntando o que a gente ia querer. Era uma opção de bebida, e outra de pão, mais algumas cositas. Nada muito farto. Foi quando deu saudades daqueles buffês de café-da-manhã dos hoteis brasileiros.

Foi a nossa primeira oportunidade de tomar o famoso e polêmico chá de coca. A garçonete, que também era a cozinheira, nos deu a escolha, só que ninguém quis. Estava cansado demais para pensar se queria, ou não, experimentar naquele momento.

Fim do café, finalmente hora do sono. Cochabamba? Sim, queria MUITO conhecer cada beco, mas cuidar da fadiga era prioridade. Lembro-me a resposta positiva de cada músculo quando me deitei. Era a melhor cama do mundo. Nem a claridade me tirou o ânimo de prosseguir com a minha soneca. Adormeci.

Dormir de dia não era o ideal. Acordei umas duas vezes durante o sono. Na primeira, me lembro de ver o Rodrigo fazendo anotações da viagem. Pensei: "Como ele consegue ficar acordad..... zzzzzz". Na segunda, me surpreendi com a versão em espanhol de "Os Padrinhos Mágicos", que passava na televisão.

Quando o Rodrigo me acordou já era próximo a uma da tarde. Lamentei não continuar, mas precisava tocar a jornada. Saímos eu, ele e a Lorena para almoçar, não me lembro onde. Ao passar pelas ruas, notei que Cochabamba não era tão mal como já havia ouvido falar. Era tranquila e, de certa forma, alegre. No meio da reflexão, optamos por fazer um passeio - subir até o Cristo de la Concordia.

A população de Cochabamba tem orgulho deste Cristo. Isto porque, segundo eles, é a maior estátua do Cristo de todo o mundo. Maior, inclusive, da famosa moradora do Corcovado. Só que para conhecê-la, precisávamos subir uma pequena (grande, na verdade) montanha. Podíamos pegar um táxi, subir as centenas de degraus ou (a melhor opção) ir de teleférico. Temia por este momento, já que tenho medo de altura. Porém, como já é costume desafiar este medo, acabei topando.

Não poderia ter tomado decisão melhor. Foi um passeio maravilhoso. Até a subida e descida do teleférico foi ótima. Tiramos várias fotos no alto da montanha. Lá tem uma vista maravilhosa da cidade, que é grande. Dá para ter noção também que Cochabamba fica em um ponto intermediário do lado leste dos Andes, pouco abaixo do altiplano que é cerca de 1.200 metros mais alto. A estátua do Cristo também é bonita, mas, sinceramente, eu prefiro a do Rio de Janeiro.

Voltamos a reunir o grupo já na hora de partirmos. O sono não chegou nem perto de me revigorar por completo, mas me deixou melhor. Recomeçamos o nosso martírio, arrumando as malas para a próxima etapa. Tocamos para a rodoviária, onde conseguimos passagem para Oruro em um ônibus que saía às 17h15. Era uma viagem curta, de mais ou menos quatro horas, subindo mais 1.400 metros e chegando a 3.800 acima do nível do mar. Daí sim, com certeza conheceríamos o soroche.

Oruro era uma cidade estratégica no nosso roteiro. Era de lá que saía o trem para Uyuni, no outro dia à tarde. O plano era chegar a cidade até às dez horas, arrumar um hotel e, enfim, ter uma noite descente, dormindo na cama. Esta idéia me dava forças para seguir em frente, sem reclamar muito. De qualquer forma, me despedi de Cochabamba com a certeza de não tê-la conhecido como queria.

Mapa do Caminho - Dia 5


Data: 07/06/2007
Saída: Cochabamba, Bolívia
Chegada: Oruro, Bolívia
Distância percorrida no dia: 227 km
Empresa de ônibus: Coral
Duração da viagem: +- 4h
Tarifa: bs. 15 (+- R$ 4,20)

sexta-feira, junho 06, 2008

Trem da Morte até Santa Cruz

A primeira hora de viagem no Trem da Morte foi de extrema felicidade. Era a realização de um sonho, juntamente com a excitação de descobrir algo novo. Sonho porque quando eu vim à fronteira pela primeira vez, em 2001, tudo o que queria era continuar a viagem até La Paz. A novidade era porque andava de trem e entrava de fato em um país estrangeiro pela primeira vez.

Depois da correria, vi o quanto custou não apostar na compra da passagem diretamente no guichê e sim de um 'agente' de turismo. Isto porque o 'agente' na verdade era um cambista (sem aspas). A passagem na ferroviária custava bs. 115 (cento e quinze bolivianos), uns R$ 30 na cotação da época (R$ 1,00 = +- bs. 3,55), enquanto que Alberto nos cobrou R$ 50. Quase o dobro. Mas, confessemos, foi honesto em tudo que prometeu.

Estávamos na classe Super Pullman, a melhor do tipo de trem disponível naquele dia. Os bancos eram bons, aparentavam uma reforma há pouco tempo. Já as janelas eram velhas, difíceis de abrir e fechar. Tinha um bom ar condicionado e televisões que passaram filmes à noite. Pela tarde ligaram uma musiquinha instrumental tipicamente boliviana. Muito bom. Apesar de ser um trem, não havia cabines e, consequentemente, não era muito diferente que um ônibus brasileiro, exceto pela velocidade vagarosa.

O melhor de tudo era o nível de ocupação do nosso vagão. Quando comparei o preço do bilhete e vi que tínhamos pagado mais, a priori fiquei um pouco desapontado. Contudo, depois de perceber que não iria quase ninguém conosco, meu ânimo melhorou - pagamos mais, mas viemos sosegados, cada um em dois bancos.

Então? Dormir? Eu não, meu caro. Se já gostava de ficar acordado a noite em viagens de ônibus por estradas que eu já havia passado mais de 50 vezes, imagina no famoso Trem da Morte, em um lugar que nunca estive? Ou melhor, na primeira atração de uma sonhada viagem?

Logo que o trem deixou a estação de Puerto Quijarro, dentro de mim se misturavam a emoção descomunal pelo momento, a adrenalina forte por tudo que haviamos passado minutos atrás e o medo de ter deixado alguma coisa importante para trás. Graças a DEUS, este medo não foi conformado. Peguei o meu celular para ver às horas e notei que ainda havia sinal. Para me tranquilizar de tudo, tive a idéia - por que não gastar um pouco dos créditos e ligar para casa? Será que este sinal completa uma ligação? A lista de emoções ficou completa quando meu pai atendeu do outro lado.

Não acreditava. O trem lentamente ia se movendo entre os trilhos. Não muito longe, via Corumbá (MS) e o Rio Paraguai, que se afastavam lentamente. Neste cenário de entardecer, conversa com o pessoal lá de casa na última oportunidade que tinha de ligar de meu próprio telefone.

Comecei a seguir o caminho por meu mapa de estradas da Bolívia, comprado de uma loja virtual inglesa, já que não encontrei no Brasil. Até o anoitecer havíamos passado por uns quatro vilarejos, que naquela região podíamos considerá-los cidades. Eram pequenos conjuntos de casas bem simples, com ruas de terra, geralmente com mato em volta. Percebi que algumas vilas não possuiam iluminação pública e, por isto, com exceção de algumas lâmpadas das casas, ficavam escuras à noite.

A fome apertou quando a noite caiu. A comida faltou (rs). Sem dinheiro boliviano (apenas com dólares e reais), não tivemos muitas alternativas. Dois de nós foram até o vagão restaurante e conversaram com o atendente. Voltaram dizendo que ele toparia trocar reais, mais por uma cotação BEM inferior ao câmbio normal. Negamos. Como minha comida reservada para a viagem faria a festa da imigração boliviana no dia seguinte, percebi que passaria a noite comendo algumas bolacha Negresco, que havia comprado ainda na rodoviária de Goiânia.

Aquelas bolachas me salvaram a vida . Caíram muito bem no meu estômago, depois de um dia intenso. O meu problema maior era água. Comecei a filar um pouco dos outros, mas notei que todos estavam com a mesma necessidade. O engraçado é que no meio da nossa mobilização alimentícia, o rapaz que havia proposto o mal negócio do câmbio desvalorizado passou entre as nossas poltronas e gozou: ya has cenado? (já jantaram?). Rodrigo, perspicaz, apenas apontou um tubo de batatas fritas importadas, compradas na Zona Franca, que estava aberto e preso ao banco da frente.

Na poltrona ao lado da minha (da que estava marcado na minha passagem, não na que eu fui de fato, já que, como disse, o vagão estava vazio), viajava uma brasileira. A Isabela (nome fictício) era paranaense e estava indo se encontrar com um grupo de israelenses que viajavam pela Bolívia. Era financiada pelos pais. Me deu a impressão que seus pais pagavam a viagem para se verem livres dela. Mesmo assim, era muito gente boa. Como a noite caiu e atrapalhou o meu passatempo predileto, que era ficar acompanhando os vilarejos, me juntei a conversa que ela já estava tendo com outros de nós, e ficamos horas ali. Tinha muita experiência com os judeus, nos explicou alguns detalhes da cultura hebraica e contou alguns casos.

Não posso deixar de relatar dois detalhes da minha noite no trem. Já no meio da noite (umas duas da manhã), paramos em uma cidade que, de vista, parecia maior do que a maioria. Lá subiram umas mulheres oferecendo pastéis. A recomendação era não comprar comida de fora do trem, já que poderia não fazer muito bem. Porém, os pastéis cheiravam TÃO bem, que a única coisa que me barrou foi à falta de bolivianos. Naquela hora não aguentei e decidi me arriscar no espanhol. Perguntei qual era aquela cidade. "Ro-o-rê, ro-o-rê", respondeu. Agradeci, mas fiquei na mesma. Peguei meu mapa e descobri que aquilo que ela havia regurgitado era certamente 'Roboré', dito muito rápido.

Não sabia direito aonde que era, mas não gostaria de dormir sem ver o Chochis. Então fiquei mais um pouco acordado, olhando pela janela, procurando-o. Em menos de meia hora comecei a ver sinais. O trem passou a fazer mais curvas e começou a cortar uns pequenos morros ao meio. Não tardou muito para eu vê-lo. Bom, para quem não conhece o Chochis é uma montanha no meio da planície do Pantanal boliviano. Ou melhor, não é uma montanha comum, é um retângulo em pé no meio do nada, parecendo que seus lado foram cortados com uma faca. Uma caixa de fósforo em pé. O detalhe é que ele é MUITO alto, ultrapassando os 800 metros desde o chão. Ver o Chochis de dentro do trem, a noite, no meio da província de Santa Cruz foi de arrepiar.

Depois disto não tive forças para mais nada. Dormi. Perdi quando o trem passou pela cidade de San José de los Chiquitos, a maior da região, fora Santa Cruz. Acordei e já era dia, quando senti algo incomum. Minha garganta estava muito inflamada. Que tragédia. Tentei não desanimar, e comecei a chupar umas pastilhas. De cochilo em cochilo forçado, lembro-me que vi os primeiros sinais de Santa Cruz logo depois das oito da manhã. Me impressionou o fato da cidade ter o mesmo número de habitantes que Goiânia, mas, aparentemente, sem prédios. Mais tarde eu os achei, mas não são tão grandes e tão numerosos como na nossa capital.

Chegamos a estação. Hora do quê? De mais confusão. A falta de bolivianos ainda nos causava dor-de-cabeça. Não tínhamos um bolivianito sequer. Como ninguém estava a vontade em fazer câmbio na rodoviária (ou ferroviária, já que era uma estação bimodal), o jeito foi recorrermos a quem estava mais perto de nós. Na ocasião era Isabela. A menina também não tinha muitos bolivianos, mas o seu israelense estava lá para buscá-la.

Conversa vai, conversa vem, consegui que ela nos vendesse 20 bolivianos, o suficiente para tomarmos um taxi até o centro, onde o israelense nos indicou uma pousada. Não iríamos passar a noite, mas os demais queriam um lugar para tomar banho. Eu não ligava tanto para a sujeira, mas concordei, já que lamentaria andar o dia inteiro com aquela mochila pesada nas costas.

Saindo da estação, me lembrei de um conselho. "Na Bolívia tudo é negociável. Antes de pegar um táxi, pechinche, que você certamente terá um preço melhor", era o que mais ou menos estava escrito no meu guia de mochileiros. Então tá, enchi o peito e fui conversar com o motorista. Ele veio todo animado, começou a colocar nossas mochilas no bagageiro. A Lucimeire até já estava sentada no banco, quando fui negociar o preço. Fiz uma oferta (não me lembro bem, mas acho que era bs. 10). O rapaz nem olhou para a minha cara, na mesma hora começou a tirar nossas mochilas de seu carro e passou a indicar o ponto de ônibus. Falava que lá nós poderíamos pegar vans que nos levaria ao centro a baixo custo. Tudo bem, os cruceños são famosos mesmo por suas aptidões capitalistas em um país com simpatia socialista.

Logo depois, veio outro táxi e este conseguimos convencê-lo a nos levar por bs. 20. Foi então que comecei a perceber o tanto que estava cansado. A dor de garganta me tirava o ânimo, e toda aquela empolgação do dia anterior começou a virar agonia. O trânsito da cidade, assim como o de toda a Bolívia, era uma droga, ninguém respeita ninguém.

Se a derrota para o motorista de táxi não fosse o bastante, logo que chegamos na pousada indicada, levamos outro direto na cara. Novamente fui convencer o rapaz do estabelecimento que não era justo cobrar uma diária inteira da gente, já que não iríamos dormir lá. Não consegui. Também não estava com paciência, tão pouco com criatividade para inventar desculpas. Topamos pagar os bs. 80 para passamos a tarde em um quarto com duas camas. Era uma pousada BEM modesta. Se fosse para ficar, certamente buscaríamos algo melhor. Para tomar banho e descansar bastava.

Com banho tomado, saímos para, finalmente, 'cambiar las nuestras monedas'. Logo depois, outra necessidade básica - comer. As duas refeições que tivemos em Santa Cruz fizemos em chiques cafés da cidade, que servem as classes média e alta. Que bom nosso dinheiro valer tanto por aqui. No almoço, conversamos sobre a grande novidade, que era resolver a vida falando en español. Já em Santa Cruz, notamos a diferença na comida. Nada de arroz e feijão no cardápio. Nos contentamos com sanduíches, omeletes e outros pratos. No final, como se pede a conta, seu garçom? Vendo a nossa dúvida, perguntou: "La cuenta?". "Sí, gracias!".

A tarde, nos dividimos em dois grupos. Como eu tinha que ir ao banco (isto mesmo, até na Bolívia) para depositar a grana da reserva do passeio do Salar de Uyuni, e como eu vi que seria perca de tempo convencer as meninas a irem comigo, pedi ao Rodrigo para se juntar a esta missão inglória. Principalmente porque iríamos perder preciosos minutos, enquanto havia uma cidade inteira a se conhecer. No banco foi tranquilo. Esperamos muito, e o depósito foi feito imediatamente. O que me chamou a atenção era um aviso em uma das pilastras do prédio: "Zona segura em caso de terremoto". Algo difícil de ver no Brasil.

Perdemos mais um tempo em uma Lan House, já que precisávamos scanear o comprovante e mandá-lo via e-mail. Depois, separamos alguns minutos para tirar fotos, principalmente da maravilhosa catedral. Tudo feito, era a hora de nos preparar para voltar à estação. Naquela noite, viajaríamos até Cochabamba, famosa cidade universitária. Decidimos ir de uma vez a estação, onde arrumaríamos uma companhia de ônibus descente e ficaríamos por lá até o embarque.

Ao entardecer, pegamos novamente um táxi de volta a estação. Desta vez, conseguimos negociar um preço menor (viva! rs). No decorrer da jornada perceberíamos que a regra estava certa mesmo - é fundamental pechinchar - e o que ocorreu na estação havia sido pura falta de sorte. Eu, que ia sempre na frente, ao lado do taxista, por causa do meu tamanho, passei a puxar papo com os motoristas. Este era um cara muito simpático. Natural de Cochabamba, nos alertou para os efeitos do mal da altitude.

Só a título de informação, apesar do nome, Santa Cruz de la Sierra fica na planície do Pantanal (mesmo que já não seja mais Pantanal, de fato), a pouco mais de 300 metros acima do nível do mar. Para chegar a Cochabamba, é necessário subir a primeira parte da Cordilheira dos Andes. A cidade fica a 2.400 metros. Podemos compará-la com Campos do Jordão (SP), a cidade mais alta do Brasil, e que fica bem mais baixo, a cerca de 1.600 metros do nível do mar.

No meio da conversa, o taxista nos disse que gostava muito de música brasileira. "É mesmo, mas qual tipo?", perguntamos. Ele pegou uma fita e enfiou no rádio. Aumentou o som, e para a nossa surpresa começou a tocar uma música do goiano Amado Batista. Sem explicação.

Já na estação, começamos a pesquisar empresas de ônibus. A informação que eu tinha é que, nesta hora, muitos bolivianos viriam atrás de nós insistentemente oferecer os serviços de sua companhia. Não foi o que ocorreu. Muitos gritavam os destinos pelos corredores da estação, mas ficavam na deles. Assim, pudemos escolher com tranquilidade. O que não adiantou muito, já que não conhecíamos nenhuma empresa. Todas pareciam do mesmo nível. Fechamos com uma que parecia boa, pelo menos segundo às fotos.

A estação de Santa Cruz é uma verdadeira lástima. Muito movimentada, não há nada para fazer até o embarque. Até aí tudo bem. Mas, infelizmente também é bem insegura. Enquanto estávamos escolhendo a empresa, duas das nossas colegas foram abordadas por homens que se diziam policiais. Lembrando que na Bolívia é comum falsos policiais pararem turistas, pedirem o passaporte, levá-los até uma sala, onde exigiam uma boa quantia em dinheiro em troca da devolução do passaporte. Por sorte, uma delas disse que estavam em mais três, e os pilantras logo desistiram.

Subimos e ficamos tranquilamente em uma lanchonete até se aproximar a hora do embarque. Estava ansioso. Primeiro porque havia ouvido que os ônibus na Bolívia atrasam muito, são de péssima qualidade, não param em um lugar certo na rodoviária e vendem mais de uma passagem para uma mesma poltrona. Como era a nossa primeira viagem de ônibus lá, queria entrar logo no ônibus e checar item por item.

Descemos e entramos na área de embarque para encararmos o horror. Havia uma calçada bem estreita para o grande número de pessoas que circulavam naquele local. Vários bolivianos estavam esparramados pelo chão, comendo comida de rua e conversando uns com outros. Ali, começou a dar insegurança. Então cada um de nós mirou para um lado deixando que nossas mochilas ficassem todas viradas umas para outras, formando uma cruz. Estratégia para não sermos surpreendidos.

Demoramos um pouco ali. Não porque o ônibus estava atrasado, mas porque realmente havíamos chegado mais cedo. Estava preocupado em perder o ônibus. No bilhete não havia indicação de plataforma, mas o atendente que nos vendeu indicou aquela onde paravam os ônibus da companhia. Detalhe: Para economia de papel, o nosso bilhete era apenas um, indicando que havíamos comprado cinco poltronas.

Também pensava se o ônibus seria mesmo um bus-cama, de dois andares, que o rapaz da empresa havia garantido para nós. Só via ônibus velhos em toda a grande extensão da estação. No horário certo, um grande ônibus apontou na plataforma indicada. Esperou um pouco, até que um outro da mesma empresa deixasse o lugar, e assumiu o posto. Era o nosso. E de dois andares. A primeira vez que viajaria em um destes. Eram os últimos lugares do segundo andar. Foi só agradecer a DEUS por dar tudo certo. Cochambamba, aí vamos nós.

Mapa do Caminho - Dia 4

Data: 06/06/2007
Saída: Santa Cruz de la Sierra, Bolívia
Chegada: Cochabamba, Bolívia
Distância percorrida no dia: 552 km
Empresa de ônibus: Renacer
Duração da viagem: +- 11h
Tarifa: Bs. 60 (+- R$ 17,15 na época)

quinta-feira, junho 05, 2008

Dia confuso

Nunca um beliche de albergue foi tão confortávle quanto o que eu dormi em Corumbá (MS), depois de aproximadamente 24 horas de ônibus, praticamente seguidas. O rodízio no dia anterior não havia causado nenhum efeito colateral (graças a DEUS), mas era apenas a minha primeira experiência com pizzas naquela jornada. Mais tarde eu iria lamentar ter colocado este maravilhoso prato como uma das primeiras alternativas de comida em uma viagem que mexe tanto com o nosso estômago como esta.

A minha grande lamentação era não ter conseguido apresentar aos meus colegas o famoso 'Pintado à Urucum', prato muito famoso no Pantanal e extremamente saboroso. No nosso quarto coletivo (não havia quartos privados neste albergue), havia apenas um rapaz hospedado. Na verdade era um portuguê-californiano. Estranho não? Foi o que eu pensei quando ele começou a falar o português, e eu não conseguia me decidir se eu deixava ele continuar ou pedia para ele prosseguir em inglês.

De família portuguesa, o nosso companheiro de quarto tinha uma empresa de importação nos Estados Unidos. Ele importava iguarias portuguesas, tal como azeite, olivas e etc..., de uma empresa de sua família, em Portugal. Parecia ganhar bem. Estava em férias de seis meses pela América do Sul. O interessante foi a sua cara quando apresentamos o nosso roteiro e informamos que iríamos percorrer toda aquela distância em apenas 24 dias. "Um pouco apertado, não?", perguntou. A vontade era responder: "É porque existe uma coisa que se chama trabalho e que nós precisamos voltar a praticá-lo no início do mês que vem". Enfim, ficou na vontade.

Dei a idéia a todos de irmos até a Bolívia pela manhã. Em Puerto Quijarro há uma Zona Franca (um pequeno shopping), onde se vende muito produto interessante (importados e locais) por preço geralmente reduzido. E nós precisávamos nos preparar para as 16 horas de viagem no Trem da Morte, até a cidade boliviana de Santa Cruz de la Sierra. Com quatro de nós optando pela visita à fronteira (a Lorena preferiu ir tirar fotos no porto), partimos rumo a praça principal para tomarmos o ônibus até a alfândega.

Como demorou este ônibus! Lembrei do transporte coletivo de Goiânia, os incontáveis problemas e a falta de vontade de resolvê-los, tanto pelo poder público como pelas empresas que monopolizam o sistema. A cada minuto que passava, a minha ansiedade aumentava, já que o trem sairia às 16:30 e até lá tínhamos ainda muitas coisas para fazer. Depois de mais meia hora de espera, um ônibus anunciando "Fronteira" parou em nosso ponto e várias pessoas entraram.

A viagem foi rápida. Em no máximo 15 minutos estávamos diante da ponte que demarca oficialmente a divisão política entre Brasil e Bolívia. Era o primeiro marco na nossa viagem. Enquanto eu pensava isto, notei que um grupo de três meninas bolivianas desembarcaram junto com a gente e caminhavam rumo a Bolívia. Todas estavam muito bem trajadas, com um impecável uniforme escolar. Os livros embaixo dos braços não deixavam dúvidas - estavam vindo da escola. Detalhe: as três moravam na Bolívia e estudavam em uma escola brasileira. Cruzavam aquela fronteira todos os dias. Foi o suficiente para contem minha empolgação (rs).

A rotina das graciosas gurias pode até passar a impressão de que a fronteira é um lugar tranquilo, mas, acreditem, não é. Por ali todo o cuidado é pouco, principalmente para quem está levando quantias consideráveis em dinheiro. Contudo, também não é necessário se preparar para um campo de batalha. É só evitar dar bons argumentos para que alguém possa ver você como uma boa alternativa de vítima de saque.

Já em solo boliviano pegamos um táxi. Um carro velho, dirigido por um rapaz com feições tipicamente bolivianas. Por dentro havia bajulaques de todas as espécies, presos aonde nem se imagina. A felicidade imperava na cara do taxista. Ele nos explicou que naquele dia, nem um antes, nem um depois, naquele MESMO DIA QUE ESTÁVAMOS PASSANDO POR LÁ, o presidente da Bolívia, Evo Morales, iria visitar a região. Visivelmente era o evento do ano na cidade, já que durante todo o caminho, o motorista buzinava para moradores que estavam nas ruas e balançava uma bandeira em apoio ao presidente. Era perceptível que Morales era querido por lá, pelo menos pela maioria.

Andamos pela Zona Franca, compramos e comemos uma comida muito boa, em um restaurante por quilo. Dias depois ninguém me tiraria da cabeça que esta cozinheira era brasileira. Na volta pegamos mais um táxi boliviano, que nos levou de volta até a fronteira (eles possuem um acordo com os taxistas brasileiros - eles não trabalham no Brasil e os brasileiros não fazem corridas na Bolívia). Desta forma, cruzamos a ponte a pé e pegamos um outro táxi, já em solo brasileiro. É claro, todas estas corridas tiveram antes uma grande sessão de negociações, para fechar um preço fixo. Vale lembrar que o preço boliviano é MUITO menor do que o brasileiro.

Dentro do táxi brazuca, pudemos ver que a diferença ia muito além do preço. Além do carro ser bem novo, internamente era muito bem organizado. O motorista guiava tranquilamente o seu táxi, diferentemente da festa que fez o nosso ex-motorista boliviano. Para fechar a comparação com chave de ouro, no táxi boliviano tocava uma música típica alta, enquanto que no brasileiro um sambinha tranquilo dava o tom do ambiente. Perfeito. É exatamente este contraste que caracteriza a diferença de dois países com culturas tão distintas e evidenciados tão claramente naquela região, já que fisicamente estes dois universos estão muito próximos.

Chegamos ao albergue. Pronto. A partir daqui foi uma correria tão grande que se for contar todos os detalhes, pode apostar que vou amanhecer escrevendo. Então, vamos resumir. Na portaria, ficamos sabendo que o rapaz de quem compramos as passagens ainda não as havia deixado no albergue, conforme combinado. Tudo bem, precisávamos ir no centro, passar no banco, antes de arrumar as coisas e partir para a fronteira. Nosso medo era atrasar na imigração boliviana, onde teríamos que carimbar os passaportes.

Demorou um pouco, mas Alberto chegou com as nossas passagens em mãos. Tudo certo (graças a DEUS, novamente), exceto que ainda precisava chegar o nosso transporte de volta a fronteira, combinado na hora da compra. Enquanto isto, terminamos de arrumar as malas e partimos para o centro, rumo ao banco. Na volta, uma caminhonete velha, acoplada em uma carreta-leva-turista (aquelas que possuem bancos para que os turistas possam fazer city tour sentindo o vento no rosto), estava estacionada na porta. Quando vi, não acreditei que iriam nos levar naquilo. Aff. Mas enfim fiquei quieto. O que eu mais queria era embarcar rápido no trem e relaxar depois de toda a correria.

Subimos todos com as suas respectivas mochilas e o jeito foi aguentar a vergonha da exposição. Para piorar, quando chegamos na estrada, uma operação tapa-buracos estava atrasando o trânsito que seguia sentido fronteira. Pra quê? Nesta hora, o motorista do caminhão ('terceirizado') começou xingar tudo, falou que estava atrasado e nos ameaçou deixar no meio do caminho. Ainda bem que o Alberto estava com a gente e acalmou o homem. Para relaxar, o motorista colocou uma música velha dos anos 70 (não me lembro qual, mas era famosa). Foi o suficiente para que duas de nossas companheiras começassem a dançar, mesmo que timidamente, na carreta aberta. Pararam logo que foram saudadas pelo pessoal que fazia a obra na estrada.

Chegamos na imigração. Tudo certo? Que nada, mais problemas. Por causa da visita de Evo Morales, a imigração não abriu no período da tarde. A situação nos deixou em um dilema - ou esperávamos para ver se alguém viria nos acudir, ou então entrávamos ilegal na Bolívia. Com todo o respeito que a Bolívia merece, não me agradava esta última idéia. Contudo, estava disposto a colocá-la em prática, principalmente porque todos os bolivianos ao redor da imigração nos dizia que não teria problema algum. "Vocês carimbam quando chegarem em Santa Cruz. Expliquem que o presidente estava aqui, não vão fazer nada", falou um boliviano com quem conversei uns vinte minutos, esperando alguma ação das autoridades de fronteira.

O relógio se aproximava das quatro horas da tarde (lembrando que o nosso trem sairia às quatro e meia). Uma fila já estava formada frente a imigração, com brasileiros e outros gringos. Quando faltavam apenas cinco minutos para a hora cheia, decidimos que quatro horas seria o nosso 'deadline'. Faltando um minuto para o horário, eis que surge a notícia - iriam abrir a imigração para carimbarem nossos passaportes.

A partir daí foi uma correria. Isto porque tínhamos que preencher uma ficha longa e, em seguida, o policial batia o carimbo. Tanto nós (que íamos pegar o trem), quanto eles (que queriam ver o Evo) estávamos loucos para sair dali. Na correria eu esqueci uma sacola com a comida para a viagem, que havia comprado na Zona Franca, mas só iria notar mais tarde. Certamente serviu de lanche para as autoridades bolivianas, no dia seguinte. Combinamos com duas gringas para dividir o táxi até a estação. Desta forma, pegamos dois táxis. Quanto já estava prestes a escalar as escadas da estação (e realizar um sonho antigo de embarcar no Trem da Morte), eis que surge uma voz pedindo ajuda.

Me virei e vi a Lorena discutindo com um dos taxisistas. Não vou entrar no mérito, mas via que um não entendia o outro. Cheguei e vi que era apenas um mal entendido. Contudo, os dois não pararam com a troca de palavras acusatórias. Foi quando o motorista levantou a mão como se fosse dar um tapa na nossa amiga. Parou no ar, principalmente porque um amigo boliviano fez o 'deixa disso'.

Novamente me coloco em posição, e começo a subir as escadas. Nos últimos degraus levo um tropeção e quase caio de boca no chão. Penso: "DEUS, quem poderia imaginar que seria tão conturbado assim?". Mas ainda era pouco. Chegando na porta de embarque (uns 5 minutos para a partida), mais um problema. Tínhamos que pagar a taxa de embarque, de dois bolivinos por pessoa, mas, nesta hora, lembramos que, com a confusão, não havíamos feito câmbio. Não titubeei. Vi que o total daria dez bolivianos e passei a minha nota de estimação (que havia trocado uma outra vez que havia estado por aquelas bandas). A falta de dinheiro boliviano, porém, iria nos render uma noite sem comida no trem, o que descobríriamos apenas mais tarde. Foi nesta hora que percebi que a sacola com as minhas provisões já não estava em minhas mãos.

Mapa do Caminho - Dia 3

Data: 05/06/2007
Saída: Corumbá (MS), Brasil
Chegada: Santa Cruz de la Sierra, Bolívia - no dia sequinte
Distância percorrida no dia: 662 km
Empresa de trem: Ferroviaria Oriental
Duração da viagem: +- 16h
Tarifa: R$ 50,00

quarta-feira, junho 04, 2008

Na Fronteira

No post anterior eu acabei escrevendo mais do que planejava. Contudo, não há como falar da viagem de Goiânia a Campo Grande sem contar que fomos ao lado de um grupo de pagodeiros nordestinos, que iam fazer um show em Dourados (MS). Aliás esta é uma característica da linha Brasília - Assunção. Por ser muito longa, acaba atraindo passageiros com destinos e propósitos completamente diferentes.

Se você for para Campo Grande, minha sugestão é que não pegue este ônibus, mas sim a linha direta entre Goiânia e Campo Grande, da Expresso São Luiz. Já viajei neste também, e digo que é mais sossegado. A turma do pagode não foi um problema tão grande, mas acabou estorvando um pouco, principalmente de manhã. Quando a viagem passou das dez horas, as intermináveis conversas entre os membros e o vai-e-vem entre as poltronas do ônibus fizeram com que eu desejasse chegar a capital sul-matogrossense o mais rápido possível.

Vale lembrar que o grupo ocupou grande parte das poltronas e entupiu o bagageiro inferior (um dos motivos do nosso atraso, em Goiânia). Como se não fosse o bastante, alguns integrantes falavam por meio de ecos. Não ficavam feliz em chamar uma pessoa pelo nome, como, por exemplo: "Ei, Vladimir!". O faziam desta maneira: "Ei, Vladimir-ir-ir-ir". Mas também ganharam um ponto extra de paciência comigo por terem se comportado bem durante a noite.

Chegamos a Campo Grande por volta das oito da manhã. Como nosso próximo ônibus saía apenas às 10:30, resolvemos procurar algum lugar para tomar café-da-manhã. Foi então que tive o primeiro contato com o peso da minha mochila. Engraçado que quando vemos fotos de mochileiros carregando suas mochilas, não pensamos o tanto que é desagradável carregá-la cheia de coisas (rs). Colocamos a dita cuja nas cotas (suspiro) e deixamos a rodoviária.

Para quem não conhece Campo Grande, é bom explicar que a sua rodoviária parou no tempo. É resultado de um projeto velho de rodoviárias, onde os ônibus se movimentam embaixo (tipo um sub-solo, mas aberto às ruas), enquanto que os guixês ficam na parte de cima. Soma-se ainda o precário estado de conservação que o prédio se encontra, multiplicando pelo fato que não há nenhuma lanchonete ou restaurante que valha a pena.

Desta forma, fomos procurar algum lugar decente nos arredores. Encontramos uma boa padaria, não muito longe dali. O problema foi carregar a bagagem. Era o primeiro dia, e os meus músculos ainda não estavam acostumados com o esforço. Além disto, andamos mais que o dobro do necessário, perguntando daqui, procurando dali. Após alguns salgados na barriga, voltamos.

Quando chegamos novamente na rodoviária, já eram dez horas. O nosso ônibus já esperava na plataforma. Que bom! Corri em sua direção, não vendo a hora de despachar a mochila. Apenas o primeiro 'sofrimento' de muitos, rs. Entramos, e ficamos esperando a partida, rumo aos últimos quilômetros de Brasil.

Foi muito bom me deparar com um ônibus mais novinho e limpinho do que o da Nacional Expresso. Aliás, tenho um pouco de birra com esta empresa. Pela sua grandeza, deveria ser bem melhor. A minha opinião foi justificada no Peru, mas esta é outra história que conto nos próximos capítulos.

A medida que deixávamos Campo Grande para trás, o Pantanal começava a mostrar a sua cara. Não foi um dia muito feliz para ver animais pela janela do ônibus, mas deu para observar alguns tucanos e outros tuiuius. Fora isto, a estrada de Campo Grande a Corumbá causa ansiedade. Não há grandes cidades e a distância de uma para outra é muito grande. Paramos em Miranda, pra lá das duas da tarde, para almoçar.

Foi a primeira (e última) vez que minha mãe me ligou (porque o telefone não pegou mais depois da fronteira). Queria saber se eu já havia chegado a Corumbá. Estávamos na metade do caminho ainda. A sua previsão, porém, não era absurda. Isto porque o planejado era pegar um ônibus mais cedo, em Campo Grande, mas o atraso do primeiro trecho nos impediu. E mais um atraso no segundo trecho, fez com que chegássemos à fronteira já no cair da noite.

Só para constar, toda vez que estou chegando a Corumbá me impressiono com algumas montanhas que há ao lado da estrada, há poucas dezenas de quilômetros da cidade. Acho muito bonitas. Descemos do ônibus e o clima de Bolívia já começou a dominar o ambiente. Vários 'operadores turísticos' nos abordaram perguntando se iríamos pegar o famoso Trem da Morte, até Santa Cruz de la Sierra. É claro que o tamanho das nossas mochilas entregava que éramos turistas, e isto fez com que a insistência crescesse. Não dei moral para nenhum deles e distribuí vários: "Não, obrigado!".

Só que ao chegar ao albergue, não pudemos mais disfarçar. Precisávamos das passagens para a cidade boliviana e, naquele momento, tinhámos duas opções. Ou esperávamos até o dia seguinte, para ir a Puerto Quijarro (cidade fronteiriça, de onde saem os trens) comprá-las, ou íamos atrás dos 'agentes'. Dois fatos acabaram pesando na nossa decisão em optar pelo segundo caminho - se deixássemos para o dia seguinte podería não sobrar mais nenhum bilhete, e isto seria fatal para o nosso planejamento já que perderíamos um dia inteiro na fronteira e, certamente, não chegaríamos a Uyuni a tempo para o nosso passeio (já reservado) no Salar. Além disto a recepcionista do albergue nos garantiu que indicaria uma pessoa de confiança para fazer a venda.

Fomos até a 'agência de turismo', uma salinha que não cabia mais do que quatro pessoas. Lá encontramos o Alberto (nome fictício) que tirou uma cópia de nossos passaportes e cobrou R$ 50,00 por cada passagem. Como éramos um grupo grande, ficou de nos arrumar um meio de transporte até a fronteira de fato (uns 5 km de Corumbá). Enquanto fazia as cópias, começou a nos contar histórias do caminho que íamos fazer. Nos recomendou cautela: "Cuidado com os bolivianos que oferecem serviços". E eu lhe disse: "Não dou bola, digo 'não', viro a cara e sigo o meu caminho". E ele emendou: "Que nem você fez comigo lá na rodoviária, né?". Foi daí que me lembrei que tinha passado por Alberto na nossa chegada a cidade e aprendi uma coisa - em Corumbá, turista nenhum passa despercebido.

Mapa do Caminho - Dia 2

Data: 04/06/2007
Saída: Campo Grande (MS), Brasil
Chegada: Corumbá (MS), Brasil
Distância percorrida no dia: 435 km
Empresa de ônibus: Viação Andorinha
Duração da viagem: +- 6h30
Tarifa: R$ 64,00

terça-feira, junho 03, 2008

Largada

Não me lembro do que pensei quando acordei, só me vejo rapimente arrumando as coisas com uma grande dose de ceticismo. Não conseguia compreender que o dia realmente havia chegado. Como seria? O que passaria? Quando eu voltaria a ver minha casa novamente? Procurei não pensar nisso e me concentrei em checar se tudo estava em seus devidos lugares.

Preferi dar um até logo a minha casa, como se fosse voltar dali a três horas. Não é confortável pensar que você vai passar tanto tempo sem poder desfrutar da tranquilidade do lar. Ainda mais, embarcando para um destino onde não sabía ao certo o que me esperava. Nesta hora o melhor é focar na parte positiva. Era o meu segundo dia de férias, e eu iria poder gozar de uma noite inteira viajando dentro de um ônibus, ouvindo músicas e pensando na vida. Tem horas que não há nada melhor.

Na rodoviária, o desafio era manter a calma. O que não foi difícil porque aos poucos foram chegando as pessoas. A primeira foi Lucimeire, amiga que deu o empurrãozinho necessário para que a viagem ocorresse. Ao seu lado, o seu irmão ainda em dúvida se a irmã estava fazendo realmente a melhor opção de encarar aquela jornada.

Aos poucos a plataforma foi ficando cheia. Rodrigo chegou com a Erika. O Fagner trouxe a Marina. Meus pais ficaram na espera até a saída do ônibus. A Lorena chegou por último, contrastando com o fato de que foi a primeira que comecei a combinar a viagem. O Hebert também apareceu para nos desejar boa viagem. Também havia outras pessoas, mas como tenho dúvidas não arriscarei nomeá-las. Enfim, uma pequena multidão. Lembro da foto tirada do grupo, que nunca chegou às minhas mãos (quem tiver, por favor, me envie, rs!).

A anciedade diminuiu com as conversas. Nem lembrava para onde estava embarcando quando entrei no ônibus. O certo é que até a natureza conspirou para que o momento fosse único. Tanto que foi difícil acreditar que, logo que o ônibus deu partida, começou a cair uma chuva fina que durou uns 15 minutos. Quem conhece Goiânia sabe que é um fato quase impossível para a época do ano.

Era só comemorar. Durante algumas horas o papo foi animado entre a gente. A capital goiana foi ficando para trás, na mesma proporção que a noite ficava mais densa. A primeira parada foi em Indiara (GO), em um posto da região, onde a atendente serviu um 'capuccino' muito peculiar para a Lucimeire - colocou café, leite e, já que estava correndo para atender todo mundo, entregou o copinho e pediu para a nossa companheira ficar mexendo até dar consistência. Certamente uma nova forma de interação entre cliente-empresa, onde ambos participam das etapas de produção do produto final.

Mapa do Caminho

Data: 03/06/2007;
Saída: Terminal Rodoviário de Goiânia (GO), Brasil;
Chegada: Campo Grande (MS), Brasil - no dia seguinte;
Distância percorrida no dia: 906 km, no percurso total entre as duas cidades;
Empresa de ônibus: Nacional Expresso (linha Brasília (DF), Brasil - Assunção, Paraguai)
Duração da viagem: +- 15 horas
Tarifa: R$ 121,38 + R$ 1,98 (Taxa de Embarque)

A Jornada - 366 dias depois

Relembrar é viver. Enquanto preparo novos projetos, nada melhor que lembrar feitos bem sucedidos. Faz exatamente um ano que coloquei um plano de viagem em prática, o qual preparei durante muito tempo. Tropecei em alguns pontos, já que me faltou experiência, mas é impossível dizer que cada segundo não tenha valido a pena.

A viagem foi uma jornada terrestre de Goiânia até Lima, no Peru. O ponto alto foi a visita às ruinas de Machu Picchu, a cidade perdida dos Incas. Tive ajuda de quatro amigos, que toparam participar da jornada. Juntos vivemos experiências como uma família - vibramos nas partes boas, ajudamos uns aos outros nas difíceis e batemos boca nas horas mais quentes. Ou seja, foram 24 dias de um emaranhado de sentimentos distintos. No final, a certeza de que vivemos um banquete completo de novas experiências, tanto físicas como mentais.

Logo no início, mudei meus planos. Anteriormente decidido a relatar os principais fatos, já nos primeiros dias de estrada desisti de tomar notas e preferi mergulhar na essência daquilo que vivia, sem me preocupar em escrever. Apesar de ser simpático da idéia de gastar folhas e folhas de caderno em narrações de viagens, escrever, naquele período, significava não dar férias a minha mente, já que se confundiria com a minha profissão. E era justamente disto que precisava me afastar por uns dias. Não me arrependi.

Contudo, depois de 366 dias da largada no Terminal Rodoviário de Goiânia, por que não tentar passar para o papel (no caso, virtual) algumas das minhas impressões? Além de compartilhar um momento muito interessante da minha vida, aproveito a oportunidade para treinar, pois espero ter muito o que relatar nos próximos anos. Meu objetivo é escrever pequenos textos diários, fazendo um acompanhamento em 'tempo-real', exatamente um ano depois de que tudo ocorreu.

Se eu falhar algum dia, por favor me perdoem. Atualização diária é um desafio na vida de qualquer pessoa, mesmo aquelas que possuem na palavra o seu meio de sustento. Mas é um desafio que, a partir de agora, eu aceito.

Boa leitura a todos!
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